É igualmente o ninho das almas, onde o Espírito pode entender-se com o Espírito, quando o sono sela os lábios de carne, suscetíveis de mentir. Congregamo-nos em teu próprio abrigo para uma audiência com a realidade. O chefe daquele santuário doméstico escutava, perplexo.
— O homem encarnado na Terra, — continuou Gúbio empolgante, — é uma alma eterna usando um corpo perecível, alma que procede de milenários caminhos para a integração com a verdade divina, à maneira do seixo que desce, rolando nos séculos, do cimo do monte para o seio recôndito do mar. Somos, todos, atores do drama sublime da evolução universal, através do amor e da dor… Indébita é a nossa interferência nos destinos uns dos outros, quando nossos pés trilham retos caminhos. Todavia, se nos desviamos da rota adequada, é razoável o apelo do amor para que a dor diminua. O magistrado ligou os conceitos ouvidos à presença de Jorge, na sala, e inquiriu, aflito:
— Apelam, porventura, em favor deste condenado?
— Sim, — respondeu nosso Instrutor, sem hesitar. Não acreditas que esta vítima aparente de inconfessável erro judiciário já tenha esgotado o cálice do martírio oculto?
— O caso dele, porém, permanece liquidado.
— Não, juiz, nenhum de nós chegou ao fim dos processos redentores que nos dizem respeito. Não seria Jorge, acusado penitente, o único sentenciado indigno de uma pausa nas dores da remissão. O interlocutor arregalou os olhos, mostrando certo orgulho ferido e retorquiu, quase sarcástico:
— Mas, eu fui o juiz da causa. Consultei os códigos necessários, antes de emitir a sentença. O crime foi averiguado e os laudos testemunhais condenaram o réu. Não posso, em sã consciência, aceitar intromissões, mesmo tardias, sem argumentação ponderosa e cabível. Gúbio contemplou-o, compadecidamente, e considerou:
— Compreendo-te a negativa. Os fluidos da carne tecem um véu pesado demais para ser facilmente rompido pelos que se não afeiçoam, ainda, diariamente, ao contato da espiritualidade superior. Invocas a tua condição de sacerdote da lei, para esmagares o destino de um trabalhador que já perdeu tudo quanto possuía, a fim de que resgatasse, intensivamente, os erros do passado distante. Referes-te ao título que a convenção humana te conferiu, certamente atendendo a injunções do Poder Divino; entretanto, não me pareces amoldado aos sublimes fundamentos de tua elevada missão no mundo, porquanto o homem que aceitou a mordomia, no quadro dos bens materiais ou espirituais do Planeta, nunca alardeia superioridade, quando consciente das obrigações que lhe cabem, por entender na administração fiel um caminho de aprimoramento, mesmo através de extremo sofrimento moral. Distribuir amor e justiça, simultaneamente, na atualidade da Terra, em que a maioria das criaturas menosprezam semelhantes dádivas, é crivar-se de dores. Admites que o homem viverá sem contas, ainda mesmo aquele que se supõe capacitado para julgar o próximo, em definitivo? Acreditas haja o teu raciocínio acertado em todos os enigmas da senda? Terás agido imparcialmente em todas as decisões? Não creias… O Justo Juiz foi crucificado num madeiro de linhas retas por devotar-se no mundo à extrema retidão. Todos nós, na estrada multissecular do conhecimento edificante, muita vez colocamos o desejo acima do dever e o capricho a cavaleiro dos princípios redentores que nos compete observar. Em quantas ocasiões já se te inclinou o mandato às contrafações da política desintegrante dos homens, ávidos de transitório poder? Em quantos processos permitiste que os teus sentimentos se turvassem no personalismo delinquente?! O homem, em cuja presença identificava Saldanha perigoso inimigo, revelava-se infinitamente confundido. Palidez cadavérica lhe cobria o semblante, sobre o qual grossas lágrimas principiaram a correr.
— Juiz, — continuou Gúbio, em voz firme, — não fosse a compaixão divina que te concede ao ministério diversos auxiliares invisíveis, amparando-te as ações, por amor à Justiça que representas, e as vítimas dos teus erros involuntários e das paixões obcecantes daqueles que te cercam não te permitiriam a permanência no cargo. Teu palácio residencial mostra-se repleto de sombras. Muitos homens e mulheres, dos que já sentenciaste em mais de vinte anos, nas lides do direito, arrebatados pela morte, não conseguiram seguir adiante, colados que se acham aos efeitos de tuas decisões e demoram-se em tua própria casa, aguardando-te explicações oportunas. Missionário da lei, sem hábitos de prece e meditação, únicos recursos através dos quais poderias abreviar o trabalho de esclarecimento que te assiste, grandes surpresas te reserva o transe final do corpo. Verificando-se pausa mais longa, o magistrado exteriorizou nos olhos indefinível terror, caiu de joelhos e rogou:
— Benfeitor ou vingador, ensina-me o caminho! Que devo fazer a benefício do condenado?
— Facilitarás a revisão do processo e restituí-lo-ás à liberdade.
— Ele é, então, inocente? — Indagou o interlocutor, exigindo bases sólidas a futuras conclusões.
— Ninguém sofre sem necessidade à frente da Justiça Celeste e tão grande harmonia rege o Universo que os nossos próprios males se transubstanciam em bênçãos. Explicaremos tudo. E, dando-nos a perceber que precisava gravar na mente do juiz quanto se lhe pedia da ação providencial, continuou:
— Não te circunscreverás à mencionada medida. Amparar-lhe-ás a filha, hoje internada por favor em tua casa, em estabelecimento condigno, onde possa receber a necessária educação.
— Mas, — interveio o jurista, — esta menina não é minha filha.
— Não serias, entretanto, convocado por nós a semelhante encargo, se não pudesses recebe-lo. Crês, porém, que o dinheiro em disponibilidade deva satisfazer tão somente as exigências daqueles que se reuniram a nós, dentro dos laços consanguíneos? Liberta o coração, meu amigo! Respira em mais alto clima. Aprende a semear amor no chão em que pisas. Quanto mais eminentemente colocada na experiência humana, mais intensivo pode tornar-se o esforço da criatura, na própria elevação. Na Terra, a justiça abre tribunais para examinar o crime em seus aspectos variados, especializando-se na identificação do mal; todavia, no Céu, a Harmonia descerra santuários, apreciando-nos a bondade e a virtude, consagrando-se à exaltação do bem, na totalidade dos seus ângulos divinos. Enquanto é tempo, faze de Jorge um amigo e da filha dele uma companheira de luta que te afague, um dia, os cabelos brancos e te ofereça, mais tarde, a luz da prece, quando teu Espírito for compelido a transpor o escuro portal do túmulo. O juiz, em pranto, interrogou:
— Como agir, porém?
— Amanhã, — informou o Instrutor, calmo e persuasivo, — te erguerás do leito sem a lembrança integral do nosso entendimento de agora, porque o cérebro de carne é um instrumento delicado, incapaz de suportar a carga de duas vidas, mas ideias novas surgir-te-ão formosas e claras, com respeito ao bem que necessitas praticar. A intuição, contudo, que é o disco milagroso da consciência, funcionará livremente, retransmitindo-te as sugestões desta hora de luz e paz, qual canteiro de bênçãos ofertando-te flores perfumosas e espontâneas. Chegado esse momento, não permitas que o cálculo te abafe o impulso das boas obras. No coração hesitante, o raciocínio vulgar luta contra o sentimento renovador, turvando-lhe a corrente límpida, com o receio de ingratidão ou com ruinosa obediência aos preconceitos estabelecidos. Diante de Saldanha que acompanhava a cena, demonstrando indizível bem-estar, Jorge e a filha trocavam olhares de alegria e esperança. O magistrado contemplou-os, pensativo, notando-se-lhe o propósito de endereçar ao nosso Instrutor novas interpelações. Dominado, no entanto, pelas emoções do minuto, calou-se, resignado e humilde. Gúbio, entretanto, perscrutando-lhe os pensamentos, tocou-lhe a fronte, de leve, com ambas as mãos e falou em voz firme: Gostarias que me expressasse a respeito da culpabilidade do réu, a fim de que a tua consciência de julgador consolide certos pontos de vista, já esposados no processo a que nos reportamos. Em verdade, quanto ao delito de que é presentemente acusado, Jorge tem as mãos limpas. Entretanto, a existência humana é como precioso tecido de que os olhos mortais apenas enxergam o lado avesso. Nos sofrimentos de hoje, solvemos os débitos de ontem. Com isto, não desejamos dizer que nossas falhas, muita vez oriundas da ociosidade ou da impenitência de agora, gerando resultados ruinosos para nós mesmos e para outrem, sejam recursos providenciais ao pagamento de alheias dívidas, porque assim consagraríamos a fatalidade por soberana do mundo, quando, em todas as horas, criamos causas e consequências com os nossos atos cotidianos. As entidades que pranteiam às tuas portas não choram sem razão e, mais dia menos dia, a toga que envergas temporariamente acertará contas com todos aqueles que, em torno dela, se lastimam. Jorge, porém, que aqui não se encontra em reclamações e, sim, trazido por nós para benéfico entendimento, liberou certa parte do pretérito doloroso. Gúbio, a essa altura, fez grande pausa em suas elucidações, fixou o interlocutor mais profundamente e prosseguiu, com grave entono:
— Juiz, pessoas e sucessos que nos afetam a consciência de maneira particular não constituem objeto vulgar na marcha reveladora da vida. Por agora, trazes a mente subjugada pelo choque biológico do retorno à carne e não poderias seguir-nos na exumação do passado recente.