“Quando eu estava na Terra, trabalhava de corpo e alma para reconduzir os homens a Deus, mas tinha apenas uma idéia muito fraca da importância desta grande lei, pela qual todos os homens chegarão ao progresso. A matéria impõe graves entraves, e nossos instintos muitas vezes paralisam os esforços de nossa inteligência. Quando, pois, de minha audição, eu não sabia bem em que pensar; mas vendo que a voz continuava a fazer-se ouvir, conclui por um milagre. Apesar disso, considerava-me como um verdadeiro instrumento, e tudo quanto obtive por esta intercessão me confirmava essa idéia. Pois bem! de fato eu tinha sido um instrumento; mas não havia milagre; eu era um dos homens designados para trazer uma das primeiras pedras à doutrina, fornecendo a prova das comunicações espirituais.
“Estão próximos os tempos em que vos serão dados grandes desenvolvimentos concernentes às coisas chamadas mistérios, e que deviam sê-lo até o presente, porque os homens ainda não estavam aptos a compreendê-las. Oh! mil vezes feliz os que hoje compreendem esta bela e invejável missão de propagar a doutrina da revelação e mostrar um Deus bom e misericordioso!
“Sim, meus caros filhos, quando eu estava exilado na Terra possuía o precioso dom da mediunidade; mas, eu vo-lo repito, não sabia me dar conta disto. A partir do momento em que aquela voz falou ao meu coração, reconheci mais especialmente e mais visivelmente a proteção de Maria em todas as minhas ações, mesmo as mais simples, e se ocultei aos meus superiores o que antes se havia passado comigo, ainda foi pelos conselhos dessa mesma voz, que me fazia compreender que não havia chegado a hora de fazer aquela revelação. Eu tinha o pressentimento e como uma vaga intuição da renovação que se opera; compreendia que a revelação não devia vir da Igreja, mas que um dia a Igreja seria forçada a apoiá-la por todos os fatos a que dá o nome de milagre e que atribui a causas sobrenaturais.
“Continuarei de outra vez, meus filhos. Que a paz do Senhor esteja em vossas almas e vos proporcione um sono tranqüilo.
P. – Devemos enviar ao Sr. Allan Kardec esta comunicação e os fatos que a provocaram?
Resp. – Eu não vos disse que era um dos propagadores da doutrina? Meu nome não tem grande valor, mas não vejo por que não vos autorizaria a fazê-lo. Aliás, não é a primeira vez que me comunico; podeis, pois, transmitir ao mestre minhas simples instruções, ou, antes, meus simples relatos.
Dégenettes” Observação – Com efeito, o abade Dégenettes comunicou-se várias vezes, espontaneamente, e ditou palavras dignas da elevação de seu Espírito.
Tanto quanto nos lembramos, foi ele que, num sermão pregado na igreja de Notre-Dame des Victoires, contou o seguinte fato: Uma pobre operária sem trabalho veio orar na igreja. Ao sair encontrou um senhor que a abordou e lhe disse: “Buscai trabalho; ide a tal endereço, procurai a sra. fulana; ela vos conseguirá um.” A pobre mulher agradeceu e se dirigiu ao local indicado, onde realmente encontrou a pessoa em questão, à qual narrou o que acabava de acontecer. A senhora lhe disse: “Não sei quem vos poderia ter dado o meu endereço, porque não pedi empregada.
Entretanto, como tenho algo para mandar fazer, vou encarregá-la disto.” A pobre mulher, avistando um retrato no salão, respondeu: “Olhai, senhora, este é o senhor que me mandou à vossa casa”, e apontou o retrato. “Impossível – disse a senhora – esse retrato é de meu filho, morto há três anos.” Respondeu a operária: “Não sei como isto se deu, mas o reconheço perfeitamente.”
O Sr. abade Dégenettes acreditava, pois, na aparição das almas após a morte, com a aparência que tinham em vida. Os fatos deste gênero não são insólitos e deles temos numerosos exemplos. Não é presumível que o abade Dégenettes tivesse relatado este do púlpito sem provas autênticas. Sua crença neste ponto, junta à que lhe chegou pessoalmente, vem em apoio do que ele disse de sua missão atual, de propagar a Doutrina dos Espíritos.
Um fato como o último referido deveria necessariamente passar por maravilhoso. Só o Espiritismo, pelo conhecimento das propriedades do perispírito, poderia dar-lhe uma explicação racional. Prova, por isto mesmo, a possibilidade da aparição do Cristo aos apóstolos, após a sua morte.