Observação – Como demonstra a observação dos fatos, freqüentemente a escuridão acompanha o castigo dos Espíritos criminosos. Segue-se imediatamente à morte e sua duração, muito variável conforme as circunstâncias, pode ir de alguns meses a alguns séculos. Compreende-se facilmente o horror de semelhante situação, na qual o culpado não divisa senão o que lhe pode lembrar a falta e aumentar, pelo silêncio, a solidão e a incerteza em que está mergulhado, as ansiedades e o remorso.
Lendo-se esta narrativa ficamos, em princípio, predispostos a encontrar circunstâncias atenuantes para o suicídio, a encará-lo até como um ato heróico, visto ter sido provocado pelo sentimento do dever. No entanto, vemos que foi julgado diversamente, e que a pena dos culpados será longa e terrível, porque se refugiaram voluntariamente na morte, a fim de fugir à luta. A intenção de não faltar ao dever era nobre, sem dúvida, e lhes será levada em conta mais tarde; mas o verdadeiro mérito teria consistido em vencer o arrastamento, ao passo que eles fizeram como o desertor, que se esquiva no momento do perigo.
Como se vê, a pena dos dois culpados consistirá em se buscarem por muito tempo sem se encontrarem, seja no mundo dos Espíritos, seja em outras encarnações terrestres; está momentaneamente agravada pela idéia de que o seu estado atual deve durar sempre. Fazendo parte do castigo um tal pensamento, não lhes foi permitido ouvir as palavras de esperança que lhes dirigimos. Aos que achassem essa pena muito terrível e muito longa, sobretudo se não deve cessar senão depois de várias encarnações, diríamos que sua duração não é absoluta, e que dependerá da maneira pela qual suportarão as provas futuras, no que poderemos ajudá-los por meio de preces. Como todos os Espíritos culpados, serão os árbitros de seu próprio destino. Isto não é melhor que a danação eterna, sem esperança, a que são irremediavelmente condenados, segundo a doutrina da Igreja, que os considera de tal modo jurados ao inferno que lhes recusou as últimas preces, sem dúvida por não terem utilidade?
Certos católicos censuram o Espiritismo porque este não admite o inferno. Realmente ele não admite a existência de um inferno localizado, com as suas chamas, os seus tridentes e as torturas corporais tomadas do Tártaro dos pagãos; mas a posição em que nos mostra os Espíritos infelizes não é muito melhor. Há, porém, uma diferença radical: a natureza das penas nada tem de irracional e a sua duração, em vez de ser irremissível, está subordinada ao arrependimento, à expiação e à reparação, o que é, ao mesmo tempo, mais lógico e mais conforme à doutrina da justiça e da bondade de Deus.
No caso em questão, teria sido o Espiritismo um remédio eficaz para evitar o suicídio? Sem dúvida. Ele teria dado a esses dois seres uma confiança no futuro que haveria mudado completamente sua maneira de encarar a vida terrestre e, por conseguinte, lhes teria dado a força moral que lhes faltou. Supondo que tivessem tido fé no futuro, o que ignoramos, e que o seu objetivo, ao se matarem, fosse o de se reunirem mais depressa, teriam sabido, por inúmeros exemplos análogos, que chegariam a resultados diametralmente opostos e se achariam separados por muito mais tempo do que se estivessem na Terra, pois Deus não permitiria recompensa à infração de suas leis. Assim, certos de não poderem realizar seus desejos, mas, ao contrário, de se acharem numa posição cem vezes pior, seu próprio interesse os levaria a ter mais paciência.
Nós os recomendamos às preces de todos os espíritas, a fim de lhes dar a força e a resignação que haverão de sustentá-los em suas novas provas e ainda apressar o termo de seu castigo.
Ensinos e Dissertações Espíritas