Capítulo 24
I Naquela noite Vitalino Caixeta discutira muito. Acaloradamente. Opondo-se aos argumentos de dois amigos, combatia a fé. Acreditava somente no que visse. Estudara profundamente a anatomia e precisava apalpar para crer. Necessitava sentir, ouvir, cheirar, analisar... Por isso mesmo, estava contrariado ao recolher-se. A esposa demorou-se ainda um tanto em luta pela ordem no apartamento estreito. Acomodava os filhinhos, atendia aos misteres da casa. Mas, mesmo depois que Da. Constância passou a ressonar, Vitalino prosseguia em solilóquio mental. Não mudaria. Era homem prático. Só renderia à evidência dos fatos. Queria fatos. Mais fatos. Mais fatos para compreender os fatos. Algo cansado, acabou dormindo. Dormiu e sonhou que se achava diante de Rosalino, seu velho irmão desencarnado havia muitos anos... II Rosalino dizia convincente: - “Meu caro, ouvimos-lhe as considerações silenciosas.” Realmente, as provas de sobrevivência, muitas vezes, são difíceis. Mas, essa circunstância, só por só, não lhe autoriza negá-la. Veja bem. Existe a fé automática, inconsciente, sem comprovação. É a aceitação dos acontecimentos naturais, sem a ajuda dos sentidos. Em quanta coisa você confia inteiramente sem proceder a qualquer exame! Você não examina a competência do motorista, mas viaja no veículo despreocupadamente... Você não testa a resistência do leito, cada noite, mas deita e dorme tranqüilo... Você não vê os ingredientes que lhe compõem a refeição, mas como sem medo... Você não experimente a segurança da casa bancária, mas confia-lhe os bens sem titubear... Por outro lado, inúmeras ocorrências perspassam-lhe na vida sem merecer-lhe estudo mais acurado. Você não apalpa o ar, mas respira o oxigênio sem susto... Você não vê o vírus, mas sofre a gripe... Você não escuta muitas das ondas sonoras que se entrecruzam à sua volta, mas ouve satisfeito os programas radiofônicos... Você não mediu o Universo, metro a metro, mas reconhece o infinito da Criação... Você não morreu ainda, mas aceita a fatalidade do fenômeno da morte... Igualmente, meu amigo, você diz que não vê e não pega o Mundo Espiritual, mas.....ele....existe... Acorde para a verdade! Acorde e viva! Acorde e viva! III Como se impulsionado por estranha força, Vitalino despertou no corpo físico. O ambiente pesava. Fazia-se o ar irrespirável. Algo sucedera de estranho... Levantou-se estremunhado. Procurou o berço das duas crianças. Ambas desacordadas. Aflito, abre maquinalmente a janela próxima e faz luz. Somente aí descobre que a esposa, distraída, deixara aberta a torneira do gás. A família salvara-se a tempo. E, passado o perigo, tomou papel e lápis, escreveu todas as considerações que ouvira em sonho, e começou a meditar...
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Parte Primeira Parte
Médium Waldo Vieira
Número 24
Nome do Capítulo O Bico de Gás