Capítulo 9
A doutrina dos demônios tem, pois, sua origem na antiga crença dos dois princípios, do bem e do mal. Não nos compete examiná-la aqui senão do ponto de vista cristão, para ver se está de acordo com as noções mais exatas que possuímos hoje dos atributos da Divindade. Esses atributos são o ponto de partida, a base de todas as doutrinas religiosas; os dogmas, os cultos, as cerimônias, os usos e a moral, tudo é relativo à ideia mais ou menos justa, mais ou menos elevada que se forma de Deus, desde o fetichismo até o Cristianismo. Se a essência íntima de Deus continua a ser um mistério para a nossa inteligência, compreendemo-la, no entanto, melhor que nunca, graças aos ensinamentos do Cristo. De fato, o Cristianismo nos ensina racionalmente que Deus é único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições, razão pela qual dissemos em outro lugar (Primeira Parte, cap. VI, Doutrina das penas eternas), que “se se tirasse a menor parcela de um só dos atributos de Deus, não haveria mais Deus, visto que poderia ­coexistir um ser mais perfeito”. Esses atributos, na sua plenitude absoluta, são, pois, o critério de todas as religiões, a medida da verdade de cada um dos princípios que ensinam. E, para que qualquer desses princípios seja verdadeiro, é indispensável que não encerrem um atentado às perfeições divinas. Vejamos se assim é, realmente, na doutrina vulgar dos demônios.
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Os demônios
Tema Origem da crença nos demônios
Item 6