Cada um é apto a ser médium? Naturalmente assim deveria ser, embora em graus diferentes, como sói acontecer com as mais diversas aptidões. É esta a opinião do Sr. Kardec. Há médiuns escreventes; médiuns videntes; médiuns audientes; médiuns intuitivos; isto é, médiuns que escrevem – os mais numerosos e os mais úteis; médiuns que vêem os Espíritos; que os ouvem e conversam com eles como com os vivos – estes são raros; outros recebem em seu cérebro o pensamento do Espírito evocado e o transmitem pela palavra. Raramente um médium possui todas essas faculdades ao mesmo tempo. Existem ainda médiuns de outro gênero, cuja simples presença num lugar qualquer permite a manifestação dos Espíritos, quer por meio de golpes vibrados, quer pelo movimento dos corpos, tal como o deslocamento de uma mesinha de três pés7, o levantamento de uma cadeira, de uma mesa ou de qualquer outro objeto. Foi por esse meio que os Espíritos começaram a manifestar-se e a revelar a sua existência. Ouviste falar das mesas girantes e da dança das mesas; como eu, também riste delas. E daí? Foram os primeiros meios de que os Espíritos se serviram para chamar a atenção; assim foi reconhecida a sua presença, depois do que, com o auxílio da observação e do estudo, chegou-se a descobrir no homem faculdades até então ignoradas, por intermédio das quais ele pode entrar em comunicação direta com os Espíritos. Não é maravilhoso tudo isto? Entretanto é apenas natural; somente repito que à nossa época estava reservada a descoberta e a aplicação desta ciência, como de muitos outros segredos admiráveis da Natureza.
Agora, para nos pormos em relação com os Espíritos, ou, pelo menos, para ver se estamos aptos a fazê-lo pela escrita, toma-se de uma folha de papel e de um lápis em boas condições, posicionando-se para escrever. É sempre bom começar por dirigir uma prece a Deus; em seguida evoca-se um Espírito, isto é, pede-se que tenha a bondade de vir comunicar-se conosco e de nos fazer escrever; por fim espera-se, sempre na mesma posição.
Há pessoas que têm a faculdade mediúnica de tal forma desenvolvida que já começam a escrever logo de início; outras, ao contrário, só vêem essa faculdade desenvolver-se com o tempo e a perseverança. Neste último caso, repete-se a sessão todos os dias, para o que basta um quarto de hora; é inútil gastar mais tempo; mas, tanto quanto possível, deve-se repeti-la diariamente, sendo a perseverança uma das primeiras condições de sucesso. Também é necessário fazer sua prece e sua evocação com fervor; mesmo repeti-la durante o exercício; ter vontade firme, um grande desejo de ser bem-sucedido e, sobretudo, nada de distração. Uma vez obtida a escrita, essas últimas precauções tornam-se inúteis.
Quando se está para escrever, sente-se em geral um ligeiro estremecimento na mão, às vezes precedido de uma leve dormência na mão e no braço e, até mesmo, de discreta dor nos músculos do braço e da mão; são sinais precursores e, quase sempre, indicativos de que o momento do sucesso está próximo.
Algumas vezes é imediato; outras, porém, se faz esperar ainda um ou vários dias, mas nunca tarda em demasia. Apenas para chegar nesse ponto é preciso mais ou menos tempo, que pode variar de um instante a seis meses; mas, repito, basta um quarto de hora de exercício por dia.
Quanto aos Espíritos que podem ser evocados para tais tipos de exercícios preparatórios, é preferível dirigir-se ao nosso Espírito familiar, que sempre está próximo e jamais nos deixa, ao passo que os outros podem estar ali apenas momentaneamente, ou não se encontrarem no instante em que os evocamos, ou, ainda, estarem impossibilitados, por uma causa qualquer, de atender ao nosso apelo, como por vezes acontece.
O Espírito familiar, que até certo ponto confirma a teoria católica do anjo-da-guarda, não é, entretanto, exatamente aquilo que nos apresenta o dogma católico. É simplesmente o Espírito de um mortal, que viveu como nós, mas que é muito mais adiantado que nós e, conseqüentemente, nos é infinitamente superior em bondade e em inteligência; que realiza uma missão meritória para si, proveitosa para nós, desse modo nos acompanhando neste mundo e no outro, até ser chamado a uma nova encarnação, ou até que nós mesmos, chegados a um certo grau de superioridade, sejamos chamados a realizar, na outra vida, missão semelhante junto a um mortal menos evoluído do que nós.
Como bem vês, meu caro amigo, tudo isto entra maravilhosamente nas nossas idéias de solidariedade universal.
Tudo isto, mostrando-nos essa solidariedade estabelecida em todos os tempos e funcionando constantemente entre nós e o mundo invisível, prova-nos certamente que não é uma utopia de concepção humana, mas uma das leis da Natureza; que os primeiros pensadores que a pregavam não a inventaram, mas apenas a descobriram; que, enfim, estando nas leis da Natureza, será chamada fatalmente a se desenvolver nas sociedades humanas, apesar das resistências e dos obstáculos que ainda lhe possam contrapor seus cegos adversários8.
Não me resta senão falar da maneira de evocar. É a coisa mais simples. Para isso não há nenhuma fórmula cabalística ou obrigatória; tu te diriges ao Espírito nos termos que te convêm: eis tudo.
Todavia, para fazer com que melhor compreendas a simplicidade da coisa, dar-te-ei a fórmula que eu mesmo emprego: “Deus, Todo-Poderoso! Permiti a meu bom anjo (ou ao Espírito de fulano, caso se prefira evocar outro Espírito) comunicar-se comigo e fazer-me escrever.” Ou então: “Em nome de Deus Todo-Poderoso, rogo a meu bom anjo (ou o Espírito de...)
que se comunique comigo.”
Agora queres saber o resultado de minha própria experiência. Ei-la: Depois de mais ou menos seis semanas de exercícios infrutíferos, senti um dia a mão tremer, agitar-se e de repente traçar com o lápis caracteres informes. Nos exercícios seguintes esses caracteres, embora sempre ininteligíveis, tornaram-se mais regulares; eu escrevia linhas e páginas com a velocidade de minha escrita habitual, mas sempre ilegíveis. Outras vezes traçava rubricas de toda sorte, grandes, por vezes em todo o papel. Algumas vezes eram linhas retas, ora de alto a baixo, ora transversais. Outras vezes eram círculos, ora grandes, ora pequenos e tão repetidos uns sobre os outros que a folha de papel ficava completamente enegrecida pelo lápis.
Finalmente, depois de um mês de exercícios os mais variados, mas também os mais insignificantes, comecei a me aborrecer e pedi ao meu Espírito familiar que me fizesse pelo menos traçar letras, caso não pudesse fazer-me escrever palavras.
Então obtive todas as letras do alfabeto, mas não consegui mais que isso.
Entrementes, minha mulher, que sempre tivera o pressentimento de não possuir a faculdade mediúnica decidiu-se, mesmo assim, a fazer experiências. Ao cabo de quinze dias de espera, pôs-se a escrever fluentemente e com grande facilidade. Foi mais feliz do que eu, fazendo-o com grande correção e de modo bastante legível.
Um dos nossos amigos conseguiu, desde o segundo exercício, rabiscar como eu, mas foi tudo. Nem por isso desanimamos, convencidos de que era uma prova e que, mais cedo ou mais tarde, escreveríamos. É fácil; só preciso ter paciência.
Numa outra carta entreter-te-ei com as comunicações que obtivemos por intermédio de minha mulher e que, por mais singulares pareçam, são muito concludentes quanto à existência dos Espíritos. Mas por hoje já chega; eu devia fazer-te uma exposição que, não obstante primária, pudesse abarcar o conjunto da teoria espírita. Espero que isto baste para excitar a tua curiosidade e, sobretudo, despertar o teu interesse. A leitura das obras especializadas a que te irás entregar fará o resto.
Esperando a obra prática da qual te falei, remeterei brevemente a obra filosófica intitulada: O Livro dos Espíritos.
Estuda, lê, relê, experimenta, trabalha e, sobretudo, não desanimes, porque a coisa vale a pena.
Além disso, não ligues atenção aos que riem; há muitos que não riem mais, embora ainda estejam de posse de todos os órgãos que até há pouco lhes serviam.
A ti e até logo.
Canu Conversas Familiares de Além-Túmulo