Enterro de um Espírita na Vala Comum
“A fé espírita, meus bons amigos, dará a volta ao mundo e acabará tornando sábios os loucos; penetrará até o coração dos padres, que vistes há pouco sorrindo e vos causaram realmente uma dor... (alusão à maneira pela qual se realizou a cerimônia religiosa). O escândalo que fizeram sangrou os vossos corações, mas superastes a indignação pensando no bem que íeis espalhar na alma do vosso amigo. Ela está aqui, perto de mim e pede que vos agradeça em seu nome. “Já vos disseram: o túmulo é a vida. Vinde algumas vezes à sombra do salgueiro, ao pé da cruz mortuária; em meio do silêncio, da calma, ouvireis uma harmonia divina; em meio às brisas escutareis os concertos de nossas almas, cantando Deus... a eternidade... depois alguns de nós se destacarão dos coros sagrados para vir instruir-vos sobre os vossos destinos. Aquilo que, até hoje, constituiu-se num mistério para vós, se desvendará pouco a pouco aos vossos olhos e podereis compreender o vosso começo e as vossas grandezas futuras. “Marcai, pois, encontros aqui, vós que aspirais à sabedoria; aqui lereis as páginas da eternidade e o livro da vida estará sempre aberto para vós. Neste lugar calmo e de paz a voz do Espírito parece fazer-se ouvir melhor ao que quer instruir-se; toma proporções mágicas e sonoras e seus acentos penetram mais aquele sobre o qual ela quer agir. “Trabalhai com zelo e fervor para a propaganda da idéia nova; eu vos ajudarei sem cessar; e se a tranqüilidade da tumba amedrontar alguns, que saibam que os Espíritos bons se sentem felizes instruindo por toda parte. “Adeus e obrigado! Como gostaria de poder comunicar ao mundo inteiro a fé de que estais repletos! mas, em verdade vos digo, o Espiritismo é a alavanca com a qual Arquimedes levantará o mundo! “Algumas palavras a vós, meu irmão, particularmente, já que se apresenta a ocasião. Dizei à minha irmã que ame sempre os deveres impostos por Deus, por mais pesados que sejam; dizei-lhe que ame a nossa mãe e me substitua junto a ela; dizei-lhe que vele por minha filha, sorria para o céu e encontre perfumes em todas as flores da Terra... A vós, meu irmão, aperto as duas mãos.” Georges De tudo isto resulta um duplo ensinamento. Poderia causar admiração que um Espírito tão vizinho da época da morte tenha podido exprimir-se com tanta lucidez; mas devemos lembrar que o Sr. Sanson foi evocado na câmara mortuária, antes de ser levado o corpo, e que deu, na ocasião, a bela comunicação que apareceu na Revista. Sua perturbação não durara senão algumas horas e, aliás, sabemos que o desprendimento é rápido nos Espíritos moralmente adiantados. Por outro lado, por que o Sr. Vézy desceu à cova? Havia utilidade ou se tratava de simples encenação? Afastemos logo o segundo motivo, pois os espíritas sérios agem seriamente e religiosamente e não se prestam a exibições; em tal momento teria sido uma profanação. Certamente a utilidade não era absoluta; aí é preciso ver um testemunho mais especial de simpatia, talvez em razão de o morto estar na vala comum. Aliás, sabe-se que o acesso a essas valas é mais fácil que o acesso às covas particulares, cuja entrada é estreita e o Sr. Vézy ali se achava mais comodamente para escrever. Isto, entretanto, poderia ter sua razão de ser de um outro ponto de vista que, provavelmente, não veio à mente do Sr. Vézy. Sabe-se que a evocação facilita o desprendimento do Espírito e pode abreviar a duração da perturbação. Sabe-se, igualmente, que os laços que unem o Espírito ao corpo nem sempre são completamente partidos após a morte. Eis um notável exemplo: Um rapaz tinha morrido acidentalmente de maneira muito infeliz. Sua vida tinha sido a de muitos jovens ricos, desocupados, isto é, muito material. Comunicou-se espontaneamente por um médium de nosso conhecimento, que o tinha conhecido em vida, pedindo que o fossem evocar e orassem em sua tumba, para ajudar a romper os laços que o retinham ao corpo, do qual não conseguia desembaraçar-se. Evidentemente deve haver no caso uma ação magnética facilitada pela proximidade do corpo e aí talvez esteja uma causa que leva os amigos dos defuntos, instintivamente, a ir orar no local onde repousam seus corpos.
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Mês Outubro
Ano 1863