VIII
O que demonstra, de modo brilhante, a intervenção de Deus na História é o aparecimento, no tempo próprio, nas horas solenes, desses grandes missionários, que vêm estender a mão aos homens e os repor na senda perdida, ensinando-lhes a lei moral, a fraternidade, o amor de seus semelhantes, dando-lhes o grande exemplo do sacrifício de si pela causa de todos. Haverá algo mais imponente do que essa missão dos Enviados divinos? Eles vêm e marcham no meio dos povos. Em vão os sarcasmos e o ridículo chovem sobre eles. Em vão o desprezo e o sofrimento os atingem. Eles marcham sempre! Em vão se levantam ao redor deles os patíbulos, os cadafalsos. As fogueiras se acendem. Mas eles seguem, com a fronte altiva, a alma serena. Qual é, pois, o segredo de sua força? Quem os impele assim para frente? Acima das sombras da matéria e das vulgaridades da vida, mais alto que a Terra, mais alto que a Humanidade, eles vêem resplandecer esse foco eterno, um raio do qual os ilumina e lhes dá a coragem de afrontar todas as dores, todos os suplícios. Contemplaram a Verdade sem véus e, daí em diante, não têm outro cuidado que difundir, pôr ao alcance das multidões, o conhecimento das grandes leis que regem as almas e os mundos! Todos esses Espíritos potentes têm declarado que vêm em nome de Deus e para executar a sua vontade. Jesus o afirma várias vezes: “É meu Pai, diz ele, que me envia.” E Joana d'Arc não é menos precisa: “Venho da parte de Deus, para livrar a França dos ingleses.” No meio da noite temerosa do décimo quinto século, nesse abismo de misérias e de dores em que soçobravam a vida e a honra de uma grande nação, que trazia Joana à França traída, subjugada, agonizante? Era algum socorro material, soldados, um exército? Não, o que ela trazia era a fé, a fé em si mesma, a fé no futuro da França, a fé em Deus! “Eu venho da parte do Rei do Céu – dizia ela – e trago-vos os socorros do Céu.” E com essa fé a França se ergueu, escapou à destruição e à morte! O mesmo aconteceu de 1914 a 1918. Só houve um remédio, quer para esse cepticismo aparatoso, quer para essa indiferença cega que caracterizava o espírito francês antes da guerra. Só houve um remédio a essa apatia do pensamento e da consciência nacionais que nos dissimulavam a extensão do perigo. Esse remédio foi a fé em nós mesmos, nos grandes destinos da Pátria, a fé nessa Potência Suprema que salvou de novo a França nos dias do Marne e de Verdun. Mas os dias de perigo e de glória passaram; a união sagrada não sobreviveu ao drama sanguinolento. O pessimismo, o desencorajamento e a discórdia retomaram sua ação mórbida; a anarquia e a ruína batem às nossas portas. O único meio de salvar a sociedade em perigo é elevar os pensamentos e os corações, todas as aspirações da alma humana para a Potência Infinita – que é Deus; é unir nossa vontade à sua e nos compenetrarmos da sua Lei: aí está o segredo de toda a força, de toda a elevação! E ficaremos surpreendidos e maravilhados, avançando nesta senda esquecida, de reconhecer, de descobrir que Deus não é abstração metafísica, vago ideal perdido nas profundezas do sonho, ideal que não existe, conforme o dizem Vacherot e Renan, senão quando nele pensamos. Não; Deus é um ser vivo, sensível, consciente. Deus é uma realidade ativa. Deus é nosso pai, nosso guia, nosso condutor, nosso melhor amigo; por pouco que lhe dirijamos nossos apelos e que lhe abramos nosso coração, Ele nos esclarecerá com a sua luz, nos aquecerá no seu amor, expandirá sobre nós sua Alma imensa, sua Alma rica de todas as perfeições; por Ele e Nele somente nos sentiremos felizes e verdadeiramente irmãos; fora Dele só encontraremos obscuridade, incerteza, decepção, dor e miséria moral. Eis o socorro que Joana trazia à França, o socorro que o Espiritualismo moderno traz à Humanidade! Pode-se dizer que o pensamento de Deus irradia sobre a História e sobre o mundo; Ele tem inspirado as gerações em sua marcha, tem sustentado, levantado milhões de almas desoladas. Tem sido a força, a esperança suprema, o último apoio dos aflitos, dos espoliados, dos sacrificados, de quase todos aqueles que, através dos tempos, têm sofrido a injustiça, a maldade dos homens, os golpes da adversidade! Se evocardes a memória das gerações que se têm sucedido sobre a Terra, por toda parte, vereis os olhares dos homens voltados para essa luz, que nada poderá extinguir, nem diminuir! É essa a razão pela qual vos dizemos: Meus irmãos, recolhei-vos no silêncio das vossas moradas; elevai freqüentemente a Deus os transportes de vossos pensamentos e dos vossos corações, expondo-lhe vossas necessidades, vossas fraquezas, vossas misérias, e, nas horas difíceis, nos momentos solenes de vossa vida, dirigi-lhe o apelo supremo. Então, no mais íntimo do vosso ser, ouvireis como que uma voz vos responder, consolar, socorrer. Essa voz vos penetrará de uma emoção profunda; fará talvez brotar vossas lágrimas, mas levantar-vos-eis fortalecidos, reconfortados. Aprendei a orar do mais profundo de vossa alma, e não mais da ponta dos lábios; aprendei a entrar em comunhão com vosso Pai; a receber seus ensinamentos misteriosos, reservados, não aos sábios e poderosos, mas às almas puras, aos corações sinceros. Quando quiserdes achar refúgio contra as tristezas e as decepções da Terra, lembrai-vos de que há somente um meio: elevar o pensamento a essas puras regiões da luz divina, onde não penetram influências grosseiras do nosso mundo. Os rumores das paixões, o conflito dos interesses não vão até lá. Chegando a essas regiões, o Espírito se desprende de preocupações inferiores, de todas as coisas mesquinhas de nossas existências; paira acima da tempestade humana, mais alto que os ruídos discordantes da luta pela vida, pelas riquezas e honras vãs; mais alto que todas essas coisas efêmeras e mutáveis que nos ligam aos mundos materiais. Lá em cima, o Espírito se esclarece, inebria-se dos esplendores da verdade e da luz. Ele vê e compreende as leis do seu destino. Diante das largas perspectivas da imortalidade, perante o espetáculo dos progressos e das ascensões que nos esperam na escala dos mundos, que se tornam para nós as misérias da vida atual, as vicissitudes do tempo presente? Aquele que tem em seu pensamento e em seu coração essa fé ardente, essa confiança absoluta no futuro, essa certeza que o eleva, esse está encouraçado contra a dor. Ficará invulnerável no meio das provas. Está aí o segredo de todas as forças, de todo o valor, o segredo dos inovadores, dos mártires, de todos aqueles que, através dos séculos, oferecem sua vida por uma grande causa; de todos aqueles que, no meio das torturas, sob a mão do algoz, enquanto seus ossos e sua carne, esmagados pela roda ou pelo cavalete, não eram mais do que lama sanguinolenta, achavam ainda a força suficiente para dominar seus sofrimentos e afirmar a Divina Justiça; daqueles que, sobre o cadafalso, e assim sobre a lenha das fogueiras, viviam, já por antecipação, da vida apreciável e gloriosa do Espírito.
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Título Ação de Deus no Mundo e na História
Parte Primeira
Título da Parte Deus e o Universo