Capítulo 22
No capítulo anterior tivemos oportunidade de examinar um doloroso caso de associação mental inferior, no qual um jornalista se identifica com entidade interessada na expansão do mal. Examinemos agora, embora ligeiramente, um caso de associação mental superior. A nova personagem é um médico que, assistido por Espírito elevado, se consagra, anonimamente, às atividades do Bem, talvez como modesto servidor de uma instituição pública. Do exame deste e do outro episódio, concluiremos, como não podia deixar de ser, que está em nossa exclusiva dependência a escolha das companhias espirituais. Somos nós, exclusivamente, que escolhemos os companheiros desencarnados para o convívio diuturno. Assim como no plano físico, na vida social, elegemos para nossos companheiros pessoas dignas ou indignas, honestas ou não, essa mesma lei de livre escolha e de afinidade eletiva comanda as nossas relações com os amigos espirituais. Acompanhamos, de início, um jornalista num ambiente sórdido, identificado e associado a perigosa entidade que lhe dirige a mente desequilibrada. Vejamos agora o lado oposto. "Retomamos a via pública. Mal recomeçávamos a avançar, quando passou por nós uma ambulância, em marcha vagarosa, sirenando forte para abrir caminho. À frente, ao lado do condutor, sentava-se um homem de cabelos grisalhos a lhe emoldurarem a fisionomia simpática e preocupada. Junto dele, porém, abraçando-o com naturalidade e doçura, uma entidade em roupagem lirial lhe envolvia a cabeça em suaves e calmantes irradiações de prateada luz." Recapitulemos, intencionalmente, a maneira pela qual André Luiz descreve o Espírito que acompanha e assessora o jornalista: "... sob o domínio de uma entidade digna de compaixão pelo aspecto repelente em que se mostrava..." Vejamos agora a descrição do acompanhante da nova personagem: "... uma entidade em roupagem lirial lhe envolvia a cabeça em suaves e calmantes irradiações de prateada luz." O contraste é, infelizmente, chocante e doloroso; entretanto, necessita de ser feito. O paralelo se impõe a fim de que consolidemos o conceito de autorresponsabilidade. É imprescindível seja ressaltado, a fim de que nos compenetremos de que nós mesmos é que determinamos o tipo de nossas companhias espirituais, a seguir-nos os passos, a controlar-nos os movimentos e a identificar-se com a nossa vida cotidiana. Passemos, contudo, adiante. "— Oh! — inquiriu Hilário, curioso — quem será aquele homem tão bem acompanhado? Áulus sorriu e esclareceu: — Nem tudo é energia viciada no caminho comum. Deve ser um médico em alguma tarefa salvacionista." Temos aí o testemunho por demais eloquente de que, onde estiver um coração inclinado ao Bem, estará presente, também, a proteção divina. O médico caridoso, que exerce a Medicina como legítimo sacerdócio, fará sempre jus ao amparo dos mensageiros do Senhor. Pertença a este ou àquele credo religioso, seja, inclusive, ateu, se for caridoso fará sempre jus à assistência de almas sublimadas, no cumprimento de sua missão de curar. Entre as mais belas "profissões", a de médico se evidencia pelo elevado sentido de humanidade que lhe caracteriza a ação benfazeja. A Medicina que, em nossos tempos, ainda se limita, de maneira quase que exclusiva, à cura do corpo, é tão sublime em seus objetivos, que o termo "profissão" não se lhe ajusta perfeitamente. Devia existir um outro vocábulo que designasse o exercício da medicina, e outro, ainda, para o magistério. Curar e ensinar são atividades que se não podem conter nas pobres limitações do nosso conceito de "profissão". Jesus-Cristo, o Mais Sábio dos Professores que o Mundo já conheceu e o Mais Compassivo dos Médicos que a Humanidade já viu, desde o princípio, permanece como divina sugestão àqueles que, no jornadear terrestre, ocupam a cátedra ou consagram a vida ao santo labor dos hospitais. A Humanidade, entretanto, no atual estágio evolutivo, encontra-se, ainda, em fase a que chamaríamos "noivado" ou simples "namoro" com os problemas fundamentais do Espírito. Sentimos-lhes a grandeza e a excelsitude e divisamos-lhes as perspectivas sublimes e consoladoras; todavia, mantemo-nos irredutíveis no velho consórcio com as conveniências e concepções predominantes do mundo materialista e materializante em que vivemos. Os nossos enganos multimilenários dificultam-nos a ascensão à Espiritualidade Maior. É como dizem os amigos espirituais: contra os nossos pálidos anseios de elevação, há milênios de sombra... Quando o preconceito e o formalismo se forem diluindo ao sol de novas revelações, a medicina estenderá o seu abençoado campo de ação até os limites do espírito, penetrando-lhe o maravilhoso mundo. Nesse dia, então, as suas fronteiras de luz se abrirão, de par em par, para as núpcias da Ciência e da Fé, do Sentimento e da Razão... Os médicos verão no enfermo não somente o cliente mais ou menos aquinhoado de recursos, que busca antibióticos ou reagentes orgânicos, mas, especialmente, o companheiro carecente de bom ânimo e coragem, de compreensão e esclarecimento, de paciência e amor... As forças espirituais sublimadas, envolvidas em "lirial roupagem", acomodar-se-ão na "casa mental" dos médicos cristãos, inspirando-os nos diagnósticos e no receituário e conduzindo-lhes as mãos fraternas nos grandes e arrojados lances da cirurgia. Cada médico que começar a sentir no enfermo, pobre ou rico, feio ou bonito, homem ou mulher, preto ou branco, um irmão credor do seu amparo desinteressado, estará, sem dúvida, realizando os primeiros ensaios no sentido de fazer jus ao título de "médico cristão". Curando e esclarecendo será, então, um "médium de abençoados valores humanos, mormente no socorro aos enfermos, no qual incorpora as correntes mentais dos gênios do bem, consagrados ao amor fraterno pelos sofredores da Terra"...
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Nome do Capítulo Servindo ao Bem