Capítulo 2
P. Cara Sra. Foulon, estou muito contente com a comunicação que destes outro dia, e com a promessa de continuar nossas conversas. Reconheci-vos perfeitamente na comunicação; ali faláveis de coisas ignoradas do médium, e que não podiam vir senão de vós; depois, vossa linguagem afetuosa a nosso respeito é bem a de vossa alma amorosa. Mas há em vossa linguagem uma segurança, um aprumo, uma firmeza que não conhecia em vossa vida. Sabeis que a este respeito eu me permiti fazer-vos mais de uma advertência em certas e determinadas circunstâncias. R. É verdade e, porém, desde que me vi gravemente doente, recobrei a firmeza de espírito, perdida pelos desgostos e vicissitudes que por vezes me tinham tornado medrosa quando encarnada. Disse de mim para mim: tu és espírita; esquece a Terra; prepara-te para a transformação de teu ser e antevê, pelo pensamento, a senda luminosa que tua alma deve seguir ao deixar o corpo, e que a conduzirá, feliz e liberta, às esferas celestes onde viverás de agora em diante. Dir-me-eis que era um tanto presunçoso da minha parte contar com a felicidade perfeita ao deixar a Terra; mas eu tinha sofrido tanto que devia ter expiado minhas faltas desta existência e das precedentes. Esta intuição não me havia enganado; foi ela quem me deu coragem, calma e firmeza nos últimos instantes. Essa firmeza naturalmente aumentou quando vi, depois de morta, a realização das minhas esperanças. P. Tende a bondade de descrever agora vossa passagem, o despertar e as primeiras impressões sentidas. R. Sofri, mas o meu Espírito foi mais forte do que o sofrimento material, que o desprendimento o fazia experimentar. Encontrei-me, após o último suspiro, em estado de síncope, sem a menor consciência de minha situação, não pensando em nada e numa vaga sonolência, que não era o sono do corpo nem o despertar da alma. Fiquei assim bastante tempo; depois, como se saísse de um longo desfalecimento, despertei pouco a pouco entre irmãos que não conhecia. Eles me dispensaram cuidados e atenções; mostraram-me um ponto no Espaço que parecia uma estrela brilhante e me disseram: “É para lá que vais conosco; não pertences mais à Terra.” Então recobrei a memória; apoiei-me neles e, como um grupo gracioso que se lança para esferas desconhecidas, mas com a certeza de lá encontrar a felicidade, subimos, subimos, à proporção que a estrela crescia. Era um mundo feliz, um mundo superior, no qual a vossa boa amiga vai, enfim, encontrar o repouso. Quero dizer o repouso em relação às fadigas corporais que suportei e às vicissitudes da vida terrena, mas não a indolência do Espírito, porque a atividade do Espírito é um prazer. P. Deixastes definitivamente a Terra? R. Deixo aqui muitos seres que me são caros para abandoná-la definitivamente. A ela voltarei, portanto, mas como Espírito, pois tenho uma missão a cumprir junto aos meus netos. Aliás, sabeis perfeitamente que nenhum obstáculo se opõe a que os Espíritos que estacionam nos mundos superiores à Terra venham visitá-la. P. Parece que a posição em que estais pode enfraquecer vossas relações com os que deixastes aqui. R. Não, meu amigo; o amor aproxima as almas. Crede-me, pode-se estar na Terra mais próximo dos que atingiram a perfeição do que daqueles que por sua inferioridade e egoísmo gravitam ao redor da esfera terrestre. A caridade e o amor são dois motores de poderosa atração. São o laço que cimenta a união das almas ligadas entre si, laços persistentes, apesar da distância e dos lugares. A distância só existe para os corpos materiais, nunca para os Espíritos. P. Que ideia fazeis agora de meus trabalhos sobre o Espiritismo? P. Acho que estais encarregado de cuidar de almas e que o fardo é difícil de suportar; mas vejo o objetivo e sei que o atingireis. Ajudar-vos-ei, se possível, com meus conselhos de Espírito, a fim de que possais superar as dificuldades que vos serão suscitadas, induzindo-vos a tomar certas medidas adequadas a ativar, enquanto viverdes, o movimento renovador ao qual o Espiritismo conduz. Vosso amigo Demeure, unido ao Espírito de Verdade, vos prestará um concurso mais útil ainda; ele é mais sábio e mais ponderado do que eu; mas como sei que a assistência dos Espíritos bons vos fortalece e sustenta em vosso labor, crede que o meu concurso vos será assegurado sempre e em toda parte. P. Poder-se-ia deduzir de algumas de vossas palavras que não me dareis uma cooperação muito ativa na propagação do Espiritismo? R. Enganai-vos. Mas vejo tantos outros Espíritos mais capazes do que eu para tratar desta importante questão, que um invencível sentimento de timidez me impede, agora, de vos responder conforme o vosso desejo. Talvez isto aconteça; terei mais coragem e ousadia, mas antes é preciso que os conheça melhor. Morri há somente quatro dias; ainda estou sob o efeito do deslumbramento que me rodeia. Não compreendeis, meu amigo? Não consigo expressar as novas sensações que experimento. Tive de violentar-me para subtrair-me da fascinação que sobre o meu ser exercem as maravilhas que admiro. Não posso senão bendizer e adorar a Deus em suas obras. Mas isso passará: os Espíritos me asseguram que logo estarei acostumada com todas essas magnificências, e que então poderei, com minha lucidez de Espírito, tratar de todas as questões relativas à renovação terrestre. Depois pensai, sobretudo neste momento, que tenho uma família para consolar. Adeus e até breve. De vossa boa amiga, que vos ama e sempre vos amará, pois é a vós, mestre, que ela deve a única consolação durável e verdadeira que experimentou na Terra. Viúva Foulon
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Espíritos felizes
Tema Viúva Foulon
Sub-Tema II (8 de fevereiro de 1865.)