O exercício comum da mediunidade, mesmo nos serviços assistenciais, é coisa diferente do "mandato de serviços mediúnicos".
Médiuns existem aos milhares colaborando, ativamente, nos centros espíritas; todavia, raríssimos estão investidos de mandato.
Somente depois de longas experiências, cultivando a renúncia e o sacrifício, sofrendo a ingratidão e conhecendo a dor, pode o Espírito reencarnar e exercer, entre os companheiros da Terra, tão extraordinário encargo.
Assim como no plano terrestre a outorga de procurações atende, em princípio e substancialmente, aos fatores "mérito", "confiança" e "competência", é plenamente compreensível que, em se tratando de assuntos divinos, idêntico seja o critério de merecimento.
Quem deseja defender, com êxito, uma causa na Justiça comum, inegavelmente concede poderes de representação a respeitável cultor do Direito, capacitado a desincumbir-se da missão com brilhantismo e galhardia.
Naturalmente, os interesses humanos podem ser confiados, eventualmente, a procuradores menos brilhantes, nas causas de somenos importância.
Todavia, nos grandes empreendimentos a outorga, plena e irrestrita, é concedida àqueles que, por uma vida exemplar e um longo tirocínio, não decepcionem o outorgante.
Analisando o problema do mediunismo, identificaremos Jesus-Cristo como o Divino Outorgante, e os médiuns como os outorgados de Seu Poder, capazes de o representarem com fidelidade até ao fim.
Entretanto, para que o médium se torne digno de um mandato, nas especialíssimas condições do capítulo assim denominado no livro que serve de base a este — capítulo "Mandato mediúnico" —, tem de ser portador de virtudes excepcionais, a fim de que não fracasse no tentame extraordinário.
O médium pode ser equilibrado, ter boa conduta e boa moral; contudo, será apenas "um médium", na acepção comum, se não incorpora à sua individualidade valores conquistáveis ao preço de perseverantes sacrifícios, através dos séculos ou dos milênios sem conta.
Mandato mediúnico — porto de chegada de todos os obreiros da seara mediúnica — exige condições especialíssimas, tais como:
a) — Bondade
b) — Discrição
c) — Discernimento
d) — Perseverança
e) — Sacrifício
Eis, em síntese, as qualidades que asseguram ao médium o sublime direito de receber um mandato mediúnico!
Bondade, para quê?
Para atender, com o mesmo carinho e a mesma boa vontade, todos os tipos de necessitados, sem qualquer expressão de particularismo.
O médium comum atenderá segundo as próprias conveniências, inclusive afetivas, distinguindo Fulano de Beltrano.
Sem dúvida é um trabalhador que faz o que pode, todavia serve, ainda, dentro de um estreitismo e de certas restrições que colidem, frontalmente, com a beleza e a expansibilidade, a excelsitude e o universalismo do pensamento e da obra de Nosso Senhor Jesus-Cristo.
O médium investido de mandato é bondoso com todos.
Para ele são iguais o rico e o pobre, o feio e o bonito, o preto e o branco, o mendigo e o aristocrata, o moço e o velho, o homem e a mulher.
A discrição é um dos belos atributos do mandato mediúnico.
Discrição para conhecer e sentir, guardando-os para si, dramas inconfessáveis e lacunas morais lastimáveis.
O médium, de acordo com as suas possibilidades psíquicas, pode, com a simples aproximação do irmão que o procura, identificar-se com problemas íntimos, desde as deficiências morais à responsabilidade por delitos ocultos.
A discrição do médium resguarda o visitante da humilhante posição de quem vê descobertas as mazelas que olhos comuns não percebem.
Médium palrador seria igual a padre indiscreto, se um e outro existissem.
Ao invés do sacerdócio da compreensão, a tirania da maledicência.
No lugar do silêncio, o comentário leviano.
Outra qualidade que caracteriza o mandatário da Espiritualidade Superior é o discernimento.
Discernimento, por que e para quê?
Para examinar sensatamente as coisas, os problemas e as situações e dar-lhes a melhor, mais oportuna e mais sábia solução.
O médium tem de lutar, portanto, mediante o estudo, o trabalho e o esforço constante de auto-evangelização, para adquirir a faculdade do discernimento, a fim de "ajudar os outros para que os outros se ajudem", corrigindo, assim, a preguiça e a revolta, a vaidade e o comodismo, a leviandade e a má fé.
Quando, da assistência do médium ao doente não resulta o seu despertar para a senda da luz, o esforço foi incompleto.
Curar e educar devem coexistir no serviço assistencial.
Tendo discernimento capaz de opinar com segurança, segundo as necessidades do consulente, o médium induz-lo a reajustar-se e a caminhar com os próprios pés, isso depois de colocar-lhe na ferida do coração o bálsamo do reconforto.
Eis a função do discernimento entre as outras elevadas qualidades exigíveis para o mandato de serviço mediúnico.
"Saber ajudar os outros para que os outros se ajudem."
A perseverança é o quarto atributo indispensável ao mandato, para que o trabalhador não abandone a tarefa ante os primeiros obstáculos.
Inúmeros médiuns, portadores de apreciáveis faculdades, têm-se afastado do serviço em virtude de incompreensão, inclusive dos próprios companheiros de ideal.
Quando os pés começam a sentir a agudez dos espinhos espalhados na estrada, desertam da luta.
A esses companheiros seria lícito perguntar se é possível colaborar, sem obstáculos nem problemas, na Causa daquele cuja glória, no Mundo, foi a coroa de aflição que os homens colocaram em sua fronte augusta...
A perseverança é fruto da fé e do despersonalismo.
Aquele que coopera nos serviços mediúnicos, com a preocupação de agradar aos outros e de ver satisfeitos os seus caprichos, pode vir a abandonar a tarefa.
Servir com Jesus e em nome dEle, é dilatar os próprios recursos e perpetuar, no Espaço e no Tempo, o ideal de ajudar a todos.
Examinemos, finalmente, o problema do sacrifício.
O médium que não é capaz de esquecer o próprio bem-estar, a benefício dos outros, está distanciado do mandato superior.
É, indubitavelmente, um companheiro de boa vontade, a quem devemos todo o respeito e incentivo, mas que pensa muito no próprio "eu", velho fantasma do qual ainda não nos conseguimos libertar inteiramente.
O médium que possui espírito de sacrifício é como o médico que faz da Medicina um sacerdócio: nunca exige a "carteira de identidade" de quem lhe bate à porta.
O seu ideal é servir, socorrer e curar.
Pelo exposto, conclui-se que poucas criaturas existem investidas do mandato de serviço mediúnico, embora milhares estejam colaborando, corajosamente, na obra do Bem.
Bondade, discrição, discernimento, perseverança e sacrifício são, pois, virtudes que o médium deve esforçar-se por adquirir, pouco a pouco, sem violências nem precipitações.
O exercício de tais qualidades abreviará o dia em que os Instrutores Espirituais lhe identificarão a reforma.
Falamos, até esta altura, dos deveres daqueles que recebem mandato mediúnico.
E os direitos?
E as compensações, segundo o princípio de que "é dando que se recebe"?
E as garantias que acompanham o médium assim categorizado?
Vamos dar a palavra a André Luiz:
"Ambrosina trazia o semblante quebrantado e rugado, refletindo, contudo, a paz que lhe vibrava no ser.
Na cabeça, dentre os cabelos grisalhos, salientava-se pequeno funil de luz, à maneira de delicado adorno.
Intrigados, consultamos a experiência de nosso orientador e o esclarecimento não se fez esperar:
— É um aparelho magnético ultra-sensível com que a médium vive em constante contacto com o responsável pela obra espiritual que por ela se realiza. Pelo tempo de atividade na Causa do Bem e pelos sacrifícios a que se consagrou, Ambrosina recebeu do Plano Superior um mandato de serviço mediúnico, merecendo, por isso, a responsabilidade de mais íntima associação com o instrutor que lhe preside as tarefas."
E, mais adiante, na palavra do Assistente Áulus:
"Um mandato mediúnico reclama ordem, segurança, eficiência. Uma delegação de autoridade humana envolve concessão de recursos da parte de quem a outorga. Não se pedirá cooperação sistemática do médium, sem oferecer-lhe as necessárias garantias."
Conforme observamos, a criatura investida do mandato mediúnico tem sólidas garantias para o triunfo completo de sua missão, a começar pela assistência, direta e permanente, do responsável pela obra de cuja realização na Terra foi incumbido.
Nos momentos difíceis — eis o Instrutor que se apresenta para esclarecê-lo, defendê-lo, inspirá-lo!
Nas horas amargas — eis o Instrutor, com a palavra sábia e amiga, a levantar-lhe o ânimo, a reconfortar-lhe o coração setado pela incompreensão e pela calúnia, pela injúria e pela má fé!
Para que o médium de hoje, seja, amanhã, portador de mandato mediúnico, necessário se faz que o Evangelho seja o seu roteiro e Jesus-Cristo a sua meta.
Com Jesus no coração, o médium ajuda aos outros e se ajuda no grande e fundamental problema da renovação íntima.
Enriquecendo a própria alma com a bondade, a discrição, o discernimento, a perseverança e o espírito de sacrifício, será, no trabalho, um servidor idealista e desinteressado.
Receberá o mandato de serviço mediúnico...