Resp. – O mundo dos Espíritos não se manifesta especialmente por estas coisas. Tendes certos tipos de manifestações, mas elas têm o seu objetivo: são outras tantas balizas, fincadas à direita e à esquerda na grande estrada da verdade; mas deixai-as de lado e não vos ocupeis com isso nem a isso consagreis os vossos estudos. A nós compete o cuidado de ver e julgar aquilo que vos importa saber. Cada coisa tem seu tempo; não vos afasteis, pois, da linha que vos traçamos.
12. Folgamos em prestar justiça às vossas boas qualidades e, sobretudo, ao vosso desinteresse. Dizem que não exigíeis coisa alguma dos clientes que defendíeis. Esse desinteresse era assim tão grande em Roma quanto o é entre nós?
Resp. – Não lisonjeeis as minhas qualidades passadas.
Não lhes atribuo nenhuma importância. O desinteresse não é muito cultivado em vosso século. Em cada duzentos homens encontrareis apenas um ou dois verdadeiramente desinteressados; bem sabeis que é o século do egoísmo e do dinheiro. Os homens do presente são feitos de lama e revestidos de metal. Outrora havia coração, a verdadeira força dos Antigos; hoje só existe a posição social.
13. Sem pretender absolver nosso século, parece-nos que ainda é preferível àquele em que vivestes, onde a corrupção atingia o seu apogeu e a delação nada conhecia de sagrado.
Resp. – Faço uma generalização que é bem verdadeira.
Sei que à época em que eu vivia não existia muito desinteresse; entretanto, havia aquilo que não possuís ou, pelo menos, que o possuís em dose muito fraca: o amor do belo, do nobre, do grande.
Falo para todo o mundo. O homem do presente, sobretudo os povos do Ocidente, os franceses particularmente, têm o coração pronto para fazer grandes coisas, mas isso não passa de um relâmpago. Logo vem a reflexão e a reflexão pondera e diz: o positivo, o positivo antes de tudo; e o dinheiro e o egoísmo voltam a tomar a frente. Nós nos manifestamos justamente porque vos afastais dos grandes princípios dados por Jesus. Adeus. Ainda não o compreendeis.
Observação – Compreendemos muito bem que nosso século ainda deixa muito a desejar; sua chaga é o egoísmo e o egoísmo gera a cupidez e a sede das riquezas. Sob esse aspecto está longe do desinteresse de que o povo romano ofereceu tantos exemplos sublimes em uma certa época, mas que não foi a de Plínio. No entanto seria injusto desconhecer a sua superioridade em mais de um ponto, mesmo sobre os mais belos tempos de Roma, que também tiveram os seus exemplos de barbárie. Havia, então, ferocidade até na grandeza e no desinteresse, ao passo que o nosso século será marcado pelo abrandamento dos costumes, pelos sentimentos de justiça e de humanidade que presidem a todas as instituições que vê nascer e, até, nas querelas entre os povos.
Allan Kardec