Necrológio – Morte do Dr. Cailleux, de Montreuil-sur-Mer
“Enviaram-nos o seguinte extrato de uma comunicação dada por ele aos seus colegas de Montreuil. Dela só foi suprimido o que trata de coisas pessoais: “...Voltais à minha morte. Pois bem! ela foi útil à nossa causa porque despertou a atenção adormecida de numerosas almas privadas da verdade e, por conseguinte, de vida. Toda coisa que desaparece sempre deixa um vazio no lugar que ocupava; mas, bem o sabeis, esse vazio é apenas aparente; só existe para os que têm a visão limitada, já que se acha cheio por outra parte. Assim, nada perdeis, repito, com a minha morte; ao contrário, com ela muito ganhareis, não que eu tenha feito, durante minha vida corporal, prodígios de caridade próprios a salientar a doutrina que junto professamos, mas porque, fiel aos princípios espíritas, fui objeto de manifestações hostis, que necessariamente deveriam provocar demonstrações contrárias. Na Terra jamais as coisas sucedem de outra maneira; o bem e o mal não se chocam cada vez que se encontram? “Resulta, pois, de tudo isto que nesta hora entrais numa fase nova, que nossos bons guias haviam preparado há muito tempo para seus ensinos. Mas, de decomposição de vossa sociedade, nada, se persistirdes sempre nos sentimentos de que vos vejo animados neste momento. Sabeis qual a minha recompensa? É ver a felicidade relativa que experimentais pela Doutrina, pela qual eu me mostrei, em todas as circunstâncias, zeloso campeão. Para vós é difícil conceber uma alegria mais pura. Que são, ao lado dela, as alegrias grosseiras do vosso mundo? Que são as honras sob as quais escondeis as misérias de vossas almas? Que são os prazeres que buscais para perturbar vossos tristes retornos? Que é tudo isto em comparação com o que sinto? Nada! menos que fumaça. “Perseverai em vossos sentimentos, perseverai até a morte. “Vi que tendes o propósito de vos organizar regularmente; é uma medida sábia. A fraqueza deve precaver-se sempre contra as ciladas e surpresas do espírito do mal. Ah! o espírito do mal! não é Satã. Ele é encontrado a cada passo no mundo onde vos acotovelais. Regulai, pois, a ordem em vossas sessões, em vossas evocações, em vossos estudos. Ligai-vos uns aos outros pelos laços voluntários da caridade, da benevolência e da submissão. Eis a melhor maneira de colher frutos abundantes e doces.” Eis a primeira comunicação que ele deu na Sociedade de Paris: (13 de abril de 1866 – Médium: Sr. Morin) Evocação Caro e venerado Dr. Cailleux, Em vossa vida nós vos apreciávamos como espírita fervoroso e devotado. Chamado sem dúvida pela Providência a fim de implantar a doutrina em vossa região, empunhastes a bandeira altiva e firmemente, afrontando sem desfalecimentos os sarcasmos e a perseguição; assim, o sucesso coroou vossos esforços. Não é somente o irmão em crença que hoje vimos saudar em sua partida da Terra, mas o homem de bem, o que não só pregou o Espiritismo por suas palavras, mas que soube fazê-lo amado e respeitado por seu exemplo e pela prática das virtudes cristãs. Recebei, pois, aqui a expressão de nossas mais vivas simpatias e a esperança de que vos disponhais a vir algumas vezes ao nosso meio, associar-vos aos nossos trabalhos. Resposta – Eis-me aqui, obrigado. – Há pouco faláveis das tendências inerentes ao organismo humano. Observam-se mais especialmente as que se devem aos maus instintos, porque os homens são sempre levados a se guardar do que lhes pode ser prejudicial ou lhes causar algum embaraço; mas as tendências para o bem muitas vezes passam despercebidas aos olhos da sociedade, porque é muito mais difícil encontrar e mostrar a violeta do que o espinho. Não vos surpreendais se começo assim. Como dizíeis há pouco, o Espírito é o único responsável por seus atos; não pode escusar-se, atribuindo sua falta a Deus; não. Os bons e os maus sentimentos são o resultado de conquistas anteriores. Em minha vida, levado por instinto para o bem, para o alívio de meus irmãos em Deus, declino a honra de todos os vossos louvores, porque não tive dificuldade em seguir o caminho que me traçava o coração; não tive luta a sustentar contra os instintos contrários; apenas me deixei ir suavemente pela vocação de meu gosto, que me dizia bem alto: “Marcha! estás no bom caminho.” E a satisfação moral de todo o meu ser inteligente era tão grande que certamente eu era tão feliz quanto o avaro, que satisfaz sua paixão pelo ouro contemplando-o e acariciando-o. Eu vo-lo repito, não tenho mérito neste particular; todavia, agradeço vossas boas palavras, que não são ouvidas em vão por aqueles a quem são dirigidas. Por mais elevados que sejam, os Espíritos sempre sentem a felicidade de um pensamento simpático. Não tardei a voltar da emoção muito natural, resultante da passagem da vida material à vida dos Espíritos, mas a profunda convicção de entrar num mundo mais vivo ajudou-me a voltar a mim mesmo. Não posso melhor comparar minha passagem da vida à morte senão a um desmaio sem sofrimento e sem fadiga. Despertei do outro lado ao suave toque fluídico de meus queridos pais e amigos espirituais. Em seguida vi meus pobres despojos mortais e os bendisse pelos seus belos e leais serviços, porquanto, dócil à minha vontade, em minha vida não tive lutas sérias a sustentar entre o meu Espírito e a minha matéria. Foi, pois, com satisfação que acompanhei ao campo de repouso o meu pobre corpo, que me tinha ajudado a impedir que muitos de meus co-encarnados fizessem essa viagem, que absolutamente não a teriam encarado como eu. Perdôo a todos que, de uma maneira ou de outra, julgaram fazer-me mal. Quanto aos que se recusaram a orar por mim no templo consagrado, serei mais caridoso que a caridade que pregam: oro por eles. É assim que se deve fazer, meus bons irmãos em crença. Crede-me, e perdoai aos que lutam contra vós, pois não sabem o que fazem. Doutor Cailleux Observação – As primeiras palavras desta comunicação provam que o Espírito estava presente e havia assistido às discussões da sessão. Com efeito, discutiu-se um fato notável de instinto incendiário precoce numa criança de quatro anos e meio, relatado pelo Salut public de Lyon. O fato, que forneceu assunto para um estudo importante, será publicado no próximo número. Notamos também que o Dr. Cailleux não se serve dos preâmbulos ordinários dos Espíritos que acabam de deixar a Terra. Vê-se logo que não é um fazedor de frases, nem de cumprimentos. Diz obrigado e pensa que esta palavra basta para tornar compreensível o seu pensamento e que com ela se deve contentar; depois entra bruscamente no assunto, como um homem que se acha em seu terreno e não quer perder tempo com palavras inúteis; fala como se não tivesse havido nenhuma interrupção em sua existência. Dir-se-ia que o Sr. Cailleux de Montreuil tivesse vindo visitar a Sociedade de Paris. Se declina do mérito de seus atos, é certamente por modéstia; os que fazem o bem sem esforço chegaram a um grau de adiantamento que lhos torna natural; se não têm mais de lutar hoje, lutaram em outras circunstâncias; a vitória foi alcançada. Os que têm de combater tendências más ainda estão em luta; mais tarde o bem não lhes custará nenhum esforço, pois o farão sem pensar. Por ter vencido mais cedo, o mérito não existe menos. O doutor Cailleux é um desses homens que, como o doutor Demeure e tantos outros, honram a doutrina que professam e dão o mais retumbante desmentido aos detratores do Espiritismo. Dissertações Espíritas
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Mês Maio
Ano 1866