Um Espírito israelita a seus correligionários
Nossos leitores se recordam da bela comunicação publicada no número de março último, sobre a lei de Moisés e a lei do Cristo, assinada por Mardochée e recebida pelo Sr. R..., de Mulhouse. Esse senhor recebeu outras, igualmente notáveis, do mesmo Espírito, e que publicaremos. A que damos a seguir é de um outro parente, falecido há alguns meses. Foi ditada em três ocasiões diferentes. A TODOS QUE CONHECI I Meus amigos, Sede espíritas, eu vos conjuro a todos. O Espiritismo é a lei de Deus; é a lei de Moisés aplicada à época atual. Quando Moisés deu a lei aos filhos de Israel, fê-la tal qual Deus lha dera, e Deus a apropriou aos homens daquele tempo. Mas depois os homens progrediram; melhoraram em todos os sentidos; fizeram progressos em ciência e moralidade; hoje, cada um sabe conduzir-se; cada um sabe o que deve ao Criador, ao próximo, a si mesmo. Hoje, pois, é preciso alargar as bases do ensino; o que a lei de Moisés vos ensinou já não basta para fazer avançar a Humanidade e Deus não quer que fiqueis sempre no mesmo ponto, porquanto, o que era bom há cinco mil anos já não o é hoje. Quando quereis que vossos filhos progridam e desejais dar-lhes uma educação um tanto mais esmerada, sempre os enviais à mesma escola, onde não aprenderiam senão as mesmas coisas? Não; vós os mandais a uma escola superior. Pois bem! São chegados os tempos, meus amigos, em que Deus quer ampliar o quadro dos vossos conhecimentos. O próprio Cristo, embora tenha feito a lei mosaica avançar um passo, não disse tudo, pois não teria sido compreendido, mas lançou sementes que deveriam ser recolhidas e aproveitadas pelas gerações futuras. Deus, em sua infinita bondade, vos envia hoje o Espiritismo, cujas bases estão, inteiras, na lei bíblica e na lei evangélica, para vos elevar e ensinar a vos amardes uns aos outros. Sim, meus amigos: a missão do Espiritismo é extinguir todos os ódios, de homem a homem, de nação a nação; é a aurora da fraternidade universal que se levanta; somente com o Espiritismo podeis chegar a uma paz geral e durável. Levantai-vos, pois, ó povos! ficai de pé, porque Deus, o Criador de todas as coisas, envia os Espíritos de vossos parentes para vos abrirem um novo caminho, maior e mais amplo do que aquele que ainda seguis. Oh! meus amigos, não sejais os últimos a vos render à evidência, porquanto a mão de Deus pesará sobre os incrédulos, fazendo desapareçam da face da Terra os endurecidos, a fim de não perturbarem o reino do bem, que se prepara. Crede nas advertências daquele que foi e será sempre vosso parente e vosso amigo. Que os israelitas tomem a dianteira! Que ostentem rapidamente e sem tardança a bandeira que Deus envia aos homens, para os congregar numa só família. Armai-vos de coragem e de resolução; não hesiteis; não vos detenhais diante dos retardatários que vos queiram reter os passos, falando-vos de sacrilégios. Não, meus amigos, não há sacrilégio; lamentai os que tentarem retardar a vossa marcha com semelhantes pretextos. Não vos diz a razão que neste mundo nada há de imutável? Só Deus é imutável; mas tudo quanto Ele criou deve seguir, e segue, uma marcha progressiva, que nada pode deter, porque está nos desígnios do Criador. Assim, não cuideis de impedir que a Terra gire! As instituições, magníficas há cinco mil anos, hoje estão velhas; o objetivo a que se destinavam está superado; elas já não bastam à sociedade atual, assim como o antigo regime francês já não serviria à França dos nossos dias. Novo progresso se prepara, sem o qual todos os outros melhoramentos sociais ficam desprovidos de bases sólidas: o progresso da fraternidade universal, cujas sementes foram lançadas pelo Cristo e que germinam no Espiritismo. Seríeis, então, os últimos a entrar nessa via? Não vedes que o mundo velho está num trabalho de parto para se renovar? Lançai os olhos sobre o mapa, não digo da Europa, mas do mundo, e vede de que maneira, uma a uma, caem todas as instituições antiquadas, para jamais se levantarem. Por quê? É a aurora da liberdade que se ergue, banindo os despotismos de toda espécie, como os primeiros raios do Sol expulsam as trevas da noite. Os povos estão cansados de terem sido inimigos; compreendem que sua felicidade está na fraternidade e querem ser livres, porque não poderão melhorar e tornar-se irmãos enquanto não forem livres. Não reconheceis à frente de um grande povo um homem eminente, que desempenha uma missão assinalada por Deus e prepara os caminhos? Não ouvis o sombrio retumbar do Velho Mundo, que se desmorona para dar lugar a uma nova era? Logo vereis surgir na cátedra de São Pedro um pontífice que proclamará os novos princípios, e esta crença, que será a de todos os povos, reunirá as seitas dissidentes numa só e mesma família. Estai prontos; içai a bandeira desse ensinamento tão grande e tão santo, para não serdes os últimos. Israelitas de Bordeaux e de Bayonne, vós que marchastes à frente do progresso, erguei-vos; aclamai o Espiritismo, porque é a lei do Senhor, e bendizei-o, por vos trazer os meios de chegar mais prontamente à felicidade eterna, que está destinada aos seus eleitos. II Meus amigos, Não vos surpreendais ao lerdes esta comunicação. Ela vem de mim, Edouard Pereyre, vosso parente, vosso amigo, vosso compatriota. Fui eu mesmo que a ditei ao meu sobrinho Rodolfo, cuja mão seguro para fazê-lo escrever com minha letra. Dou-me a esse trabalho, fatigante tanto a mim quanto ao médium, a fim de melhor vos convencer, pois o medianeiro deve seguir um movimento contrário ao que lhe é habitual. Sim, meus amigos, o Espiritismo é uma nova revelação; compreendei o alcance desta palavra em toda a sua acepção. É uma revelação porque vos desvenda uma nova força da Natureza, da qual não suspeitáveis e, contudo, é tão antiga quanto o mundo. Era conhecida na época de Moisés, pelos homens superiores de nossa história religiosa, e foi por ela que recebestes os primeiros ensinamentos sobre os deveres do homem para com o seu Criador; mas ela não deu senão o que era compatível com os homens daquela época. Hoje, que o progresso está feito; que a luz se espalha nas massas; que a estupidez e a ignorância dos primeiros tempos começam a dar lugar à razão e ao senso moral; hoje que a idéia de Deus é por todos compreendida ou, pelo menos, pela maioria, dá-se uma nova revelação, que se produz simultaneamente entre todos os povos instruídos, revelação que todavia se modifica conforme o grau de adiantamento desses povos. Tal revelação vos diz que o homem não morre, que a alma sobrevive ao corpo e habita o espaço; está entre vós, ao vosso lado. Sim, meus amigos; consolai-vos quando perderdes um ser que vos é caro, desde que só perdeis o seu corpo material; seu Espírito vive no meio de vós, para vos guiar, instruir e inspirar. Enxugai vossas lágrimas, sobretudo se ele for bom, caridoso e sem orgulho, porque, então, ele é feliz nesse novo mundo, onde todas as religiões se confundem numa só e mesma adoração, banindo os ódios e os ciúmes de seitas. Nós também somos felizes, quando podemos inspirar esses mesmos sentimentos aos homens, a quem estamos encarregados de instruir, e a nossa maior felicidade é vos ver entrar no bom caminho, porque, então, abris a porta pela qual vos juntareis a nós. Perguntai ao médium quais os sublimes ensinamentos que ele recebe de seu avô Mardochée; se segue o caminho que lhe é traçado, prepara para si um futuro de felicidade, mas se falta aos seus deveres após um tal ensino, arcará com toda a responsabilidade e terá de recomeçar até haver cumprido de modo aceitável a sua tarefa. Sim, meus amigos; já vivemos corporalmente e viveremos ainda. A felicidade que desfrutamos é apenas relativa; há estados muito superiores àquele em que estamos e aos quais não se chega senão por encarnações sucessivas e progressivas em outros mundos. Não julgueis, portanto, que de todos os globos do Universo seja a Terra o único habitado. Pobre orgulho humano, que pensa ter Deus criado todos os astros apenas para deleitar a sua vista! Sabei, então, que todos os mundos são habitados e, entre eles, se soubésseis a posição que ocupa a Terra, não teríeis razão para vos glorificardes! Se não fosse para cumprir a missão que nos é dada, de vos inspirar e instruir, quantos de nós teríamos preferido visitar esses mundos e nos instruirmos nós mesmos! Mas nossos deveres e nossas afeições ainda nos ligam à Terra. Mais tarde, quando cedermos o lugar aos que chegarem por último, iremos tomar outras existências em mundos melhores, purificando-nos gradualmente até chegar a Deus, nosso Criador. Eis o Espiritismo. Eis o que ele ensina, e isto é a verdade que hoje podeis compreender e que deve auxiliar a vos regenerardes.
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Mês Setembro
Ano 1861