Capítulo 31
Bossuet - Alfred de Marignac
Como é bela a Natureza! Como a Providência é prudente na sua previdência! Mas a vossa cegueira e as vossas paixões humanas impedem que tireis paciência da prudência e da bondade de Deus. Lamentai-vos à menor nuvem, ao menor atraso nas vossas previsões. Sabei, impacientes desconfiados, que nada acontece sem um motivo previsto, sempre premeditado em proveito de todos. A razão do que precede é para reduzir a nada, homens de temores hipócritas, todas as vossas previsões de mau ano para as vossas colheitas. Deus inspira aos homens a inquietação pelo futuro, para os impelir à previdência; e vede como são grandes os meios para dar a última demão aos vossos temores e que, na maioria das vezes, ocultam mais pensamentos ávidos do que uma ideia de cauteloso aprovisionamento, inspirado por um sentimento de humanidade em favor dos pequenos. Vede as relações de nações a nações que daí resultarão; vede que transações deverão efetuar-se; quantos meios virão concorrer para reprimir os vossos temores! Porque, como sabeis, tudo se encadeia; por isso, grandes e pequenos virão à obra. Então, não vedes já em todo esse movimento uma fonte de certo bem-estar para a classe mais laboriosa dos Estados, classe verdadeiramente interessante que, vós, os grandes, os onipotentes dessa terra, considerais como gente que podeis talhar à vontade, criada para as vossas satisfações? Ora, que acontece depois de todo esse vaivém de um polo a outro? É que, uma vez bem providos, muitas vezes o tempo mudou; o Sol, obedecendo ao pensamento de seu criador, amadureceu em alguns dias as vossas sementeiras; Deus pôs a abundância em que a vossa cobiça meditava sobre a escassez e, mau grado vosso, os pequenos poderão viver; e, sem suspeitardes disso, fostes, também sem saber, a causa de uma era de abundância. Entretanto, Deus permite algumas vezes que os maus tenham êxito em seus projetos cúpidos, mas, então, é um ensinamento que Deus quer dar a todos; é a previdência humana que Ele quer estimular; é a ordem infinita que reina na Natureza, é a coragem contra os acontecimentos que os homens devem imitar e suportar com resignação. Quanto aos que, por cálculo, aproveitam dos desastres, crede que serão punidos. Deus quer que vivam todos os seus seres; o homem não deve brincar com a necessidade, nem traficar com o supérfluo. Justo em seus benefícios, grande na sua clemência, bom demais para com a nossa ingratidão, Deus, em seus desígnios, é impenetrável. BOSSUET, ALFRED DE MARIGNAC OBSERVAÇÃO – Esta comunicação, certamente, nada contém de mau. Encerra mesmo profundas ideias filosóficas e conselhos muito prudentes, que poderiam levar os pouco versados em literatura a equivocar-se relativamente à identidade do autor. O médium que a obteve submeteu-a ao exame da Sociedade Espírita de Paris; seus votos foram unânimes, declarando que ela não podia ser de Bossuet. Consultado, São Luís respondeu: “Esta comunicação, em si mesma, é boa, mas não acrediteis que tenha sido Bossuet quem a ditou. Um Espírito a escreveu, talvez um pouco sob a inspiração daquele outro, e lhe pôs por baixo o nome do grande bispo, para torná-la mais facilmente aceitável, mas pela linguagem deveis reconhecer a substituição. Ela é do Espírito que colocou o seu nome, em seguida ao de Bossuet”. Interrogado sobre o motivo que o levara a proceder assim, disse esse Espírito: “Eu desejava escrever alguma coisa, a fim de me fazer lembrado dos homens. Vendo que sou fraco, resolvi valorizar o meu escrito com o prestígio de um grande nome. — Mas não imaginaste que se reconheceria não ser de Bossuet a comunicação? — Quem sabe lá, ao certo? Poderíeis enganar-vos. Outros menos perspicazes a teriam aceitado”. Realmente, a facilidade com que algumas pessoas aceitam tudo o que vem do mundo invisível, sob o prestígio de um rande nome, é que anima os Espíritos embusteiros. Todos, pois, devem consagrar a máxima atenção em lhes frustrar os embustes; porém, ninguém pode chegar a isso senão com o auxílio da experiência adquirida por meio de um estudo sério. É por isso que repetimos incessantemente: estudai, antes de praticardes, pois esse é o único meio de não adquirirdes a experiência à vossa própria custa.
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Dissertações espíritas
Tema Comunicações apócrifas
Item 34