Capítulo 11
Desconhece você, porventura, que o próprio homem encarnado recebe mais de setenta per cento da alimentação comum através de princípios atmosféricos, captados pelos condutos respiratórios? Você não ignora também que as substâncias cozidas ao fogo sofrem profunda desintegração. Ora, os nossos irmãos, viciados nas sensações fisiológicas, encontram nos elementos desintegrados o mesmo sabor que experimentavam quando em uso do envoltório carnal. — No entanto, — ponderei, — parece desagradável tomar refeições, obrigando-nos à companhia inevitável de desconhecidos e mormente desconhecidos da espécie que temos sob os olhos. — Mas você não pode esquecer, — aduziu o orientador, — que não se trata de gente anônima. Estamos vendo familiares diversos, que os próprios encarnados retêm com as suas pesadas vibrações de apego doentio. Alexandre pensou um momento e continuou: — Admitamos, contudo, a sua hipótese. Ainda que a mesa doméstica estivesse rodeada de entidades indignas, estranhas aos laços consanguíneos, resta a certeza de que as almas se reúnem obedecendo às tendências que lhes são características e de que cada Espírito tem as companhias que prefere. E, desejoso de fornecer bases sólidas ao meu aprendizado, considerou: — A mesa familiar é sempre um receptáculo de influenciações de natureza invisível. Valendo-se dela, medite o homem no bem, e os trabalhadores espirituais do bem, nas vizinhanças do pensador, virão partilhar-lhe o serviço no campo abençoado dos bons pensamentos; conserve a família em Plano superior, rendendo culto às experiências elevadas da vida, e os orientadores da iluminação espiritual aproximar-se-ão, lançando no terreno da palestra construtiva as sementes das ideias novas, que então se movimentam com a beleza sublime da espontaneidade. Entretanto, pelos mesmos dispositivos da lei de afinidade, a maledicência atrairá os caluniadores invisíveis e a ironia buscará, sem dúvida, as entidades galhofeiras e sarcásticas, que inspirarão o anedotário menos digno, deixando margem vastíssima à leviandade e à perturbação. Indicando o grupo à mesa, Alexandre acentuou: — Aqui, os tristes inveterados atraem os familiares desencarnados de análoga condição. É o vampirismo recíproco. Ouça você o que falam. Agucei meus ouvidos e, com efeito, observei que a conversação era das mais lastimáveis: — Nunca pensei que viria a sofrer tanto neste mundo! — Exclamava a velha tia de Ester, queixando-se amargamente. — Agostinho e eu trabalhamos tanto na mocidade!… Agora, chegados à velhice, sem recursos para enfrentar a vida, somos obrigados a sobrecarregar uma pobre sobrinha viúva! Ó que doloroso destino!… E enquanto as lágrimas lhe corriam nas faces de cera, o ancião fazia coro: — É verdade! Para uma vida laboriosa e difícil, tão amargosa compensação! Jamais esperei uma velhice tão escura!… As entidades vestidas em túnicas de sombra, ao ouvirem semelhantes declarações, pareciam também mais comovidas, abraçando-se aos velhos com fervor. A viúva, todavia, embora tristonha, acrescentou, resignada: — De fato, nossas provações têm sido cruéis; entretanto, devemos confiar na Bondade de Deus. Alexandre fixou nela toda a sua atenção e notei que em sua alma se fazia disposição singular. De olhos brilhantes, qual se percebesse, de muito longe, a nossa influenciação espiritual, recordou o sonho da noite, de modo vago, acentuando: — Graças à Providência, amanheci hoje muito mais confortada. Sonhei que a prima Etelvina me conduziu à presença de um mensageiro celestial que me abençoou o coração, aliviando-me as pesadas dores destes últimos dias! Ó como me rejubilaria se pudesse reconstituir esse sonho de luz! — Ora, mamãe, conte-nos! — Exclamou a filhinha de sete anos presumíveis, que até ali se mantivera em silêncio. A senhora, de bom grado, comentou: — Minha filha, não se pode descrever as grandes sensações. Não me lembro precisamente de tudo, mas recordo-me de que o emissário de Jesus me ouviu com paciência e, em seguida, disse-me palavras de encorajamento e amor. Longe de me repreender, acolheu-me, bondoso, e, revelando divina tolerância, escutou minhas queixas até ao fim, qual médico abnegado. Inegavelmente, levantei-me hoje com outro ânimo. Estejamos conformados, pois Deus nos auxiliará. Logo me refaça completamente, ganharei nosso pão com o trabalho honesto. Tenhamos esperança e fé. Em face das afirmativas encorajadoras de Ester, os meninos entreolharam-se, sorridentes, enquanto os velhinhos calavam a amargura que lhes era própria. Desejei fazer-me visível aos companheiros desencarnados, sem luz, que se movimentavam no recinto, de maneira a palestrar com eles, sondando-lhes as experiências, mas Alexandre dissuadiu-me: — Seria perder tempo, — disse, — e se você deseja beneficiá-los, venha até aqui noutra oportunidade, porque as cristalizações mentais de muitos anos não se desfazem com esclarecimentos verbais dum dia. No momento, nosso objetivo é diverso. Precisamos obter informações sobre Raul. Além disso, se nos valêssemos da hora, a fim de ouvir nossos irmãos desencarnados, presentes, verificaríamos de pronto que eles poderiam tão somente relacionar dolorosas lamentações, sem proveito construtivo. E revelando reduzido interesse pela conversação dos encarnados, em vista do objetivo essencial do momento, considerou: — Procuremos algum de nossos irmãos visitadores. Temos necessidade de informes iniciais para dar uma feição imediata ao nosso trabalho intercessório. Porque Alexandre demandasse outros aposentos, deixei igualmente a modesta sala de refeições, embora desejasse prosseguir observando. O instrutor, porém, não tinha muito tempo para gastar. Depois de minutos rápidos, fomos defrontados por uma entidade de aspecto humilde, mas muito digno, que Alexandre abordou, afavelmente: — Meu amigo é visitador em função ativa? — Sim, para servi-lo, — respondeu, atencioso, o interpelado. O orientador expôs-lhe, com franqueza e em poucas palavras, o que desejávamos. Sim, o irmão visitador explicou-se razoavelmente. Conhecera Raul, de perto, auxiliara-o muitas vezes, prestando-lhe continuada assistência espiritual; todavia, não pudera, nem ele e nem outros amigos, evitar-lhe o suicídio friamente deliberado. — Suicídio? — Interrogou Alexandre, procurando informar-se de maneira completa. — A viúva acredita em assassinato. — Entretanto, — ponderou o novo amigo, — ele soubera dissimular com cuidado. Meditara por muito tempo o ato infeliz e, no último dia, fizera a aquisição de um revólver para o fim desejado. Alvejando a região do coração, atirou a arma a pequena distância, depois de utilizá-la, cautelosamente, para evitar as impressões digitais e, desse modo, conseguira burlar a confiança dos familiares, fazendo-lhes supor tivesse havido doloroso crime. — E chegou a vê-lo nos derradeiros minutos da tragédia? — Indagou Alexandre, paternal. — Sim, — esclareceu o interlocutor, — alguns amigos e eu tentamos socorrê-lo, mas, em vista das condições da morte voluntária, friamente deliberada, não nos foi possível retirá-lo da poça de sangue em que se mergulhou, retido por vibrações pesadíssimas e angustiosas. Permanecíamos em serviço com o fim de ampará-lo, quando se aproximou um “bando” de algumas dezenas, que abusou do infeliz e deslocou-o, facilmente, em virtude da harmonia de forças perversas. Como pode compreender, não nos foi possível arrebatá-lo das mãos dos salteadores da sombra, que o carregaram por aí… O instrutor parecia satisfeito com as elucidações, e, quando vi que se dispunha a terminar a palestra, ousei perguntar: — Mas… e a causa do suicídio? não será interessante ouvir o visitador? — Não, — explicou Alexandre, tranquilamente, — Indagaremos do próprio interessado. Despedimo-nos. Determinada indagação, todavia, atormentava-me o cérebro. Não a contive por muitos instantes, dirigindo-me ao generoso orientador: — Um “bando”? — Interroguei. — Mas o que significa? Alexandre, que me parecia agora mais preocupado, esclareceu: — O “bando” a que se refere o informante é a multidão de entidades delinquentes, dedicadas à prática do mal. Embora tenham influenciação limitada, em virtude das defesas numerosas que rodeiam os núcleos de nossos irmãos encarnados e as nossas próprias Esferas de ação, levam a efeito muitas perturbações, concentrando os impulsos de suas forças coletivas. Porque fosse muito grande a minha estranheza, o instrutor aduziu: — Não se surpreenda, meu amigo. A morte física não é banho milagroso, que converta maus em bons e ignorantes em sábios, dum instante para outro. Há desencarnados que se apegam aos ambientes domésticos, à maneira da hera às paredes. Outros, contudo, e em vultoso número, revoltam-se nos círculos da ignorância que lhes é própria e constituem as chamadas legiões das trevas, que afrontaram o próprio Jesus, () por intermédio de obsidiados diversos. Organizam-se diabolicamente, formam cooperativas criminosas e ai daqueles que se transformam em seus companheiros! Os que caem na senda evolutiva, pelo descaso das oportunidades divinas, são escravos sofredores desses transitórios, mas terríveis poderes das sombras, em cativeiro que, por vezes, pode caracterizar-se por longa duração. — Mas o visitador regional, como guarda destes sítios, — inquiri, espantado, — não poderia defender o suicida infeliz?
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