Poder-se-ia objetar que, em virtude da dupla natureza de Jesus, suas palavras exprimiam seu sentir como homem, e não como Deus. Sem, neste momento, examinarmos por que encadeamento de circunstâncias chegaram, muito mais tarde, à hipótese dessa dupla natureza, admitamo-la, por um instante, e vejamos se, em vez de elucidar a questão, ela não a complica ainda mais, ao ponto de torná-la insolúvel.
O que, em Jesus, haveria de humano era o corpo, a parte material. Deste ponto de vista, compreende-se que Ele haja podido sofrer e tenha mesmo sofrido como homem. A alma, o Espírito, a mente, numa palavra, a parte espiritual do Ser é o que haveria nele de divino. Se Ele sentia e sofria como homem, como Deus é que pensaria e falaria. Falava como homem ou como Deus? Eis uma questão importante, pela autoridade excepcional dos seus ensinamentos. Se falava como homem, suas palavras são passíveis de controvérsia; se falava como Deus, são indiscutíveis e temos de aceitá-las e de com elas conformar-nos, sob pena de deserção e de heresia. O mais ortodoxo será aquele que mais se aproximar delas.
Dir-se-á que, sob o seu envoltório corporal, Jesus não tinha consciência da sua natureza divina? Mas se fosse assim, Ele não teria, sequer, pensado como Deus, sua natureza divina houvera permanecido em estado latente; só a natureza humana teria presidido à sua missão, aos seus atos morais, como aos seus atos materiais. É, pois, impossível abstrair- -se da sua natureza divina durante a sua vida, sem se lhe enfraquecer a autoridade.
Mas se Ele falou como Deus, por que esse incessante protesto contra a sua natureza divina que, em tal caso, Ele não podia ignorar? Ter-se-ia então enganado, o que seria pouco divino, ou teria cientemente enganado o mundo, o que ainda o seria menos. Parece-nos difícil sair desse dilema.
Se se admitir que falou ora como homem, ora como Deus, a questão se complica, pela impossibilidade de distinguir-se o que vinha do homem e o que procedia de Deus.
Dado que Ele tivesse motivos para dissimular sua verdadeira natureza durante a missão que desempenhava, o meio mais simples teria sido não falar dela, ou exprimir-se, como o fez noutras circunstâncias, de modo vago e parabólico, sobre os pontos cujo conhecimento estava reservado ao futuro. Ora, este não é aqui o caso, pois que as palavras acima nenhuma ambiguidade apresentam.
Enfim, se, apesar de todas estas considerações, ainda se pudesse supor que, quando vivo, Ele ignorava a sua verdadeira natureza, outro tanto já não se pode admitir se desse, depois da sua ressurreição, visto que, quando aparece a seus discípulos, já não é o homem quem fala, é o Espírito desprendido da matéria, que já havia de ter recobrado a plenitude de suas faculdades espirituais e a consciência do seu estado normal, da sua identificação com a divindade. Entretanto, foi então que disse: “Subo para meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus!”
A subordinação de Jesus é ainda indicada pela sua qualidade mesma de mediador, que implica a existência de uma pessoa distinta. É Ele quem intercede junto a seu Pai; quem se oferece em sacrifício para remissão dos pecadores. Ora, se Ele é o próprio Deus, ou se fosse em tudo igual a este, não precisaria interceder, porquanto ninguém intercede junto a si mesmo.