Robinson Crusoé Espírita (Continuação)
“...Embora o diabo tenha ao seu serviço um número infinito de ministros fiéis, que nada negligenciam para executar os seus projetos, não há somente um número igual, mas infinitamente maior de Anjos e de Espíritos bons, que, armados de um poder superior, velam de um lugar muito mais elevado, sobre a sua conduta e fazem todos os esforços para fazer fracassarem as suas maquinações. Esta descoberta faz ainda ver mais claramente que ele nada poderia fazer senão pela sutileza e pela astúcia, mantidas por uma vigilância e uma atenção extraordinárias, pois sofre a humilhação de se ver a todo instante tolhido e contrariado em seus desígnios pela prudente atividade dos Espíritos bons, que têm o poder de o castigar e de o repreender, como faz o homem a um cão de guarda que espreita os transeuntes para se atirar sobre eles.” “Página 397 – ‘Em minha opinião, as inspirações não são outra coisa, senão discursos que nos são soprados imperceptivelmente ao ouvido, ou pelos bons anjos que nos favorecem, ou por esses diabos insinuantes que nos espreitam continuamente, para nos fazerem cair numa armadilha qualquer. A única maneira de distinguir os autores desses discursos é guardar-se quanto à natureza dessas inspirações e examinar se tendem a nos levar ao bem ou ao mal’.” “Página 401 – ‘É infinitamente melhor para nós que um véu espesso nos oculte esse mundo invisível, tanto quanto a conduta da Providência em relação ao futuro. A bondade divina se manifesta até mesmo nas conversas dos Espíritos e nos avisos que eles nos dão, por serem efetuados de maneira alegórica, por inspirações e por sonhos, e não de maneira direta, clara, evidente. Os que desejam uma visão mais distinta das coisas futuras, não sabem o que almejam; e se seus desejos fossem atendidos, talvez encontrassem a sua curiosidade cruelmente castigada’.” Página 408 – “Ao despertar certa manhã, com uma porção de pensamentos aflitivos em seu espírito, ela sentiu fortemente em sua alma uma espécie de voz, que lhe dizia: Escrevei-lhes uma carta. Essa voz era tão inteligente e tão natural que, não tivesse eu certeza de estar só, teria pensado que as palavras tinham sido pronunciadas por uma criatura humana qualquer. Durante vários dias elas lhe foram repetidas a todo instante; enfim, passeando no quarto onde se havia ocultado, tomada de pensamentos sombrios e melancólicos, ela as ouviu novamente e respondeu em voz alta: A quem quereis, pois, que eu escreva? E a voz lhe replicou imediatamente: Escrevei ao juiz. Estas palavras ainda lhe foram repetidas várias vezes, levando-a, finalmente, a tomar da pena e preparar-se para escrever uma carta, sem ter no espírito qualquer idéia necessária ao seu desígnio; mas, dabitur in hoec hora, etc. Pensamentos e expressões não lhe faltaram; corriam da pena com tanta abundância e tamanha facilidade que ela ficou deveras admirada, concebendo as mais fortes esperanças de um excelente sucesso.” Página 413 – “Entretanto, o que se pode imaginar de mais razoável acerca disto, é que esses Espíritos nos dão, nessas ocasiões, todas as luzes que estão em condições de nos dar, e que nos dizem o que sabem ou, pelo menos, tudo quanto o seu e o nosso mestre lhes permitem que nos comuniquem. Se eles não tivessem um desígnio real e sincero de nos favorecer e de nos garantir contra a infelicidade que paira sobre a nossa cabeça, não diriam absolutamente nada; por conseguinte, se suas advertências não são mais consideráveis e mais bem desenvolvidas, certamente não deve estar em seu poder dar-nos outras mais úteis.” Página 416 – “Uma vez que temos pressentimentos que são verificados pela experiência, é necessário que haja Espíritos instruídos quanto ao futuro; que haja um lugar para os Espíritos onde as coisas futuras se desenvolvem à sua penetração, e não poderíamos agir melhor senão acreditando nas notícias que nos vêm de lá. O dever de prestar atenção a esses pressentimentos não é a única conseqüência que se deve tirar desta verdade; há outros que nos podem ser de uma utilidade muito considerável: “1o – Ela nos explica a natureza do mundo dos Espíritos e nos prova a certeza de nossa lama depois da morte; “2o – Ela nos faz ver que a direção da Providência, em relação aos homens e aos acontecimentos futuros, não está tão oculta aos habitantes do mundo espiritual quanto o está a nós; “3o – Daí podemos concluir que a penetração dos Espíritos desprendidos da matéria é de uma extensão muito maior que a dos Espíritos encerrados em corpos, já que os primeiros sabem o que nos deve acontecer, enquanto nós mesmos o ignoramos. “A persuasão da existência do mundo dos Espíritos pode ser-nos útil de muitas maneiras diferentes. Somos senhores de tirar, sobretudo, grandes vantagens da certeza, em que estamos, de que eles sabem desvendar o futuro e nos comunicar as luzes que têm lá em cima, de modo a nos fazer velar por nossa conduta, evitar desgraças, pensar em nossos interesses e até esperar a morte com a alma firme e o espírito preparado para a receber com coragem e com uma firmeza cristã. Seria também um meio seguro de ampliar a esfera de nossas luzes e de nos levar a raciocinar com justeza sobre o verdadeiro valor das coisas.” Página 427 – “Se se fizesse um tal uso (arrependimento e reforma de uma conduta má) das aparições reais do diabo, estou convencido de que seria o meio de o expulsar para sempre do mundo invisível. É muito natural crer que ele nos fizesse visitas muito raras, se estivesse persuadido, por sua experiência, de que elas nos levariam à virtude, bem longe de nos fazer cair em armadilhas. Pelo menos, jamais viria ver-nos por sua própria iniciativa, porquanto, para se decidir a isso, precisaria de uma força superior.” Página 457 – “Minha conversão vem diretamente do céu. A luz que envolveu S. Paulo no caminho de Damasco não o feriu mais vivamente do que a que me deslumbrou. É verdade que não era acompanhada por nenhuma voz do céu, mas estou certo de que uma voz secreta falou eficazmente à minha alma; fez-me compreender que eu estava exposto à cólera desse poder, dessa majestade, desse Deus que antes renegara com toda a impiedade imaginável.” Página 462 – “Numa palavra, acidentes semelhantes são de grande força para nos convencerem da influência da Providência divina nos negócios humanos, por menores que sejam em aparência, da existência de um mundo invisível, e da realidade do comércio das inteligências puras com os Espíritos encerrados em corpos. Espero nada ter dito sobre este assunto delicado que possa levar meus leitores a fantasias absurdas e ridículas. Pelo menos posso protestar que não tive tal propósito, e que minha intenção foi unicamente excitar no coração dos homens sentimentos respeitosos pela divindade e de docilidade aos avisos dos Espíritos bons que se interessam pelo que nos diz respeito.” Observação – Há quase um século que Daniel de Foë, o autor de Robinson, escrevia estas coisas, que, até nas expressões, dir-se-iam tomadas à moderna Doutrina Espírita. Numa segunda comunicação, dada na Sociedade de Paris, depois da leitura desses fragmentos, ele explicou suas crenças sobre este ponto, dizendo que pertencia à seita dos teósofos, seita que, com efeito, professava estes mesmos princípios. Por que, então, esta doutrina não tomou a extensão que hoje tem? Há várias razões para isto: 1o – os teósofos mantinham suas doutrinas quase secretas; 2o – a opinião das massas não estava madura para as assimilar; 3o – era preciso que uma sucessão de acontecimentos desse outro curso às idéias; 4o – era necessário que a incredulidade preparasse os caminhos e que, por seu desenvolvimento, fizesse sentir o vazio que cava sob os passos da Humanidade e a necessidade de algo para o encher; 5o – Enfim, a Providência não tinha julgado que já fosse tempo de tornar gerais as manifestações dos Espíritos; foi a generalização desta ordem de fenômenos que vulgarizou a crença nos Espíritos, e a doutrina que é o seu corolário. Se as manifestações tivessem permanecido como privilégio de alguns indivíduos, o Espiritismo ainda não teria saído do seu foco de origem; ainda estaria, para as massas, no estado de teoria, de opinião pessoal, sem consistência. Foi a sanção prática que cada um encontrou nas manifestações, provocadas ou espontâneas, de um extremo a outro do mundo, que vulgarizou a doutrina e lhe deu uma força irresistível, a despeito dos que a combatem. Embora os teósofos tenham tido pouca repercussão e apenas hajam saído da obscuridade, seus trabalhos não foram perdidos para a causa; semearam germens que só deviam frutificar mais tarde, mas que formaram homens predispostos à aceitação das idéias espíritas, como fez a seita dos “swedenborgianos” e, mais tarde, a dos “fourieristas.” É de notar que jamais uma idéia um tanto grande sofre uma interrupção brusca no mundo. Muitas vezes ela lança os seus balões de ensaio muitos séculos antes de sua eclosão definitiva. É a gestação. Nota Bibliográfica
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Mês Setembro
Ano 1867