Romance Espírita – O Assassinato da Ponte Vermelha, por Ch. Barbara
Lendo o romance do Sr. Charles Barbara, poder-se-ia crer que fosse espírita fervoroso e, contudo, não o era. Como dissemos, morreu numa casa de saúde, atirando-se pela janela num acesso de febre ardente. Era um suicídio, mas atenuado pelas circunstâncias. Evocado pouco tempo depois na Sociedade de Paris, e interrogado quanto às suas idéias a respeito do Espiritismo, eis a comunicação que deu a respeito: (Paris, 19 de outubro de 1866 – Médium: Sr. Morin) Permiti, senhores, a um pobre Espírito infeliz e sofredor, vos pedir autorização para vir assistir às vossas sessões, todas de instrução, de devotamento, de fraternidade e de caridade. Sou o infeliz que tinha o nome de Barbara e, se vos peço esta graça, é que o Espírito despojou o homem velho, e já não se crê mais tão superior em inteligência, como se julgava em vida. Agradeço ao vosso chamamento e, tanto quanto estiver em meu poder, vou tentar responder à questão motivada por uma página de uma de minhas obras. Mas eu vos pediria, previamente, levar em conta o meu estado atual, que se ressente fortemente da perturbação, aliás muito natural, que se experimenta ao passar bruscamente de uma a outra vida. Estou perturbado por duas causas principais: a primeira é devida à minha provação, que era de suportar as dores físicas que experimentei, ou, antes, que meu corpo experimentou, quando me suicidei. – Sim, senhores, não temo dizê-lo, eu me suicidei, porque se meu Espírito estava perdido por momentos, eu o recobrei antes de me arrebentar no chão e... disse: tanto melhor!... Que falta e que fraqueza!... As lutas da vida material estavam terminadas para mim, meu nome era conhecido, doravante não tinha senão que marchar a via que me era aberta e tão fácil de seguir!... Tive medo!... e, contudo, nas horas de incerteza e de desânimo, tinha lutado a despeito de tudo. A miséria e suas conseqüências não me tinham desalentado, e foi quando tudo se acabou para mim que exclamei: O passo está dado; tanto melhor!... não terei mais que sofrer! Egoísta e ignorante!... A segunda é que, depois de haver errado na vida, entre a convicção do nada e o pressentimento de um Deus que não podia ser senão uma força, única, grande, justa, boa e bela, nós nos encontramos em presença de uma inumerável multidão de seres ou Espíritos que nos conheceram, que nos amaram; que descobrimos vivas as nossas afeições, as nossas ternuras e amores; numa palavra, quando percebemos que apenas mudamos de domicílio. Então concebeis, senhores, que é muito natural que um pobre ser que viveu entre o bem e o mal, entre a crença a incredulidade sobre uma outra vida, é muito natural, repito, que fique perturbado... de felicidade, de alegria, de emoção, um pouco de vergonha, vendo-se obrigado a confessar a si mesmo que, em seus escritos, o que atribuía à sua imaginação em trabalho, era uma profunda realidade, e que muitas vezes o homem de letras, que se infla de orgulho, vendo ler e ouvindo aplaudir páginas que julgava obra sua, por vezes não passa de um instrumento que escreve sob influência dessas mesmas potências ocultas, cujo nome lança ao acaso da pena num livro. Quantos grandes autores de todos os tempos escreveram, sem conhecer todo o valor filosófico, páginas imortais, marcos do progresso, colocadas por eles e por ordem de um poder superior, a fim de que, num dado tempo, a reunião de todos esses materiais esparsos forme um todo, tanto mais sólido quanto é o produto de várias inteligências, porque a obra coletiva é melhor: é, aliás, o que Deus assinará ao homem, pois a grande lei da solidariedade é imutável. Não, senhores, não; eu não conhecia absolutamente o Espiritismo quando escrevia esse romance, e confesso que eu mesmo notei com surpresa o profundo modo de dizer de algumas linhas que lestes, sem compreender todo o alcance que, hoje, vejo claramente. Depois de as haver escrito, aprendi a rir do Espiritismo, para fazer como os meus esclarecidos colegas e não querer parecer mais adiantado no ridículo do que eles próprios queriam. Ri!...; agora choro; mas também espero, porque mo ensinaram aqui: todo arrependimento sincero é um progresso, e todo progresso leva ao bem. Não duvideis, senhores, de que muitos escritores são, por vezes, instrumentos inconscientes para a propagação das idéias que as forças invisíveis julgam úteis ao progresso da Humanidade. Não vos admireis, pois, de os ver escrever sobre o Espiritismo sem nele crer; para eles é um assunto como outro qualquer, que se presta ao efeito, e não suspeitam que a ele sejam levados sem o saber. Todos esses pensamentos espíritas, que vedes emitidos por aqueles mesmos que, ao lado disso, fazem oposição, lhes são sugeridos, mas nem por isso deixam de fazer o seu caminho. Eu fui deste número. Orai por mim, senhores, porque a prece é um bálsamo inefável. A prece é a caridade que se deve fazer aos infelizes do outro mundo, e eu sou um deles. Barbara
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Mês Janeiro
Ano 1867