Examinai, antes, o que é mais lógico, o que melhor corresponde às vossas aspirações, que melhor pode alcançar o objetivo. O mais verdadeiro será, evidentemente, aquele que explica melhor, que melhor dá a razão de tudo. Se se puder opor a um sistema um único fato em contradição com a sua teoria, é que a teoria é falsa ou incompleta. A seguir, examinai os resultados práticos de cada sistema; a verdade deve estar do lado de quem produz maior soma de bem, exerce uma influência mais salutar, produz mais homens bons e virtuosos e impele ao bem pelos motivos mais puros e mais racionais. A felicidade é o objetivo constante a que aspira o homem. A verdade estará do lado do sistema que proporciona maior soma de satisfação moral; numa palavra, que torna o homem mais feliz.
Como o ensino vem dos Espíritos, os diversos grupos, assim como os indivíduos, acham-se sob a influência de certos Espíritos que presidem aos seus trabalhos, ou os dirigem moralmente. Se esses Espíritos não estiverem de acordo, a questão será saber qual o que merece mais confiança. Evidentemente, será aquele cuja teoria não pode suscitar nenhuma objeção séria; em suma, aquele que, em todos os pontos, dá mais provas de sua superioridade. Se tudo for bom, racional nesse ensino, pouco importa o nome que toma o Espírito; e, neste sentido, a questão da identidade é absolutamente secundária. Se, sob um nome respeitável, o ensino peca pelas qualidades essenciais, podeis, sem qualquer vacilação, concluir que é um nome apócrifo e que é um Espírito impostor, ou que se diverte. Regra geral: jamais o nome é uma garantia; a única, a verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira por que este é expresso. Os Espíritos enganadores são capazes de imitar tudo, tudo mesmo, exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento.
Não tenho intenção, senhores, de vos dar aqui um curso de Espiritismo, e talvez esteja abusando de vossa paciência com todos esses detalhes. Entretanto, não me posso furtar a acrescentar mais algumas palavras.
Acontece muitas vezes que os Espíritos, para fazer adotar certas utopias, afetam um falso saber e tentam impô-las retirando do arsenal de palavras técnicas tudo quanto possa fascinar aquele que acredita muito facilmente. Dispõem, ainda, de um meio mais fácil, que é o de aparentar virtudes. Arrimados nas grandes palavras: caridade, fraternidade e humildade, esperam fazer passar os mais grosseiros absurdos. É isso que acontece com freqüência, quando não se está prevenido; é preciso, pois, não se deixar levar pelas aparências, tanto da parte dos Espíritos quanto dos homens. Confesso: eis aí uma das maiores dificuldades.
Contudo, jamais se disse que o Espiritismo fosse uma ciência fácil.
Ele tem os seus escolhos, que só podem ser evitados pela experiência. Para não cair na cilada é necessário, primeiro, guardar-se contra o entusiasmo que cega, do orgulho que leva certos médiuns a se julgarem os únicos intérpretes da verdade. É preciso tudo examinar friamente, pesar tudo maduramente, tudo controlar; e, se se desconfia do próprio julgamento, o que muitas vezes é mais prudente, é preciso reportar a outros, conforme o provérbio de que quatro olhos vêem mais do que dois. Um falso amor-próprio ou uma obsessão podem, por si só, fazer persistir uma idéia notoriamente falsa e que é repelida pelo bom-senso de cada um.
Não ignoro, senhores, ter aqui muitos adversários. Isto vos espanta, e, no entanto, nada é mais verdadeiro. Sim, aqui há os que me ouvem com indignação; não digo entre vós – graças a Deus!
– onde só espero ter amigos. Quero falar dos Espíritos enganadores, que não querem que vos dê os meios de os desmascarar, porque descubro as suas astúcias e porque, pondo-vos em guarda, eu lhes tiro o domínio que poderiam ter sobre vós. A tal respeito, senhores, vos direi que seria um erro imaginar que eles não exerçam esse domínio senão sobre os médiuns. Ficai certos de que, estando em toda parte, os Espíritos agem incessantemente sobre nós, sem o sabermos, quer se seja, ou não, espírita ou médium.
A mediunidade não os atrai; ao contrário, fornece-lhes o meio de conhecerem o inimigo, que se trai sempre. Sempre, ouvi bem, e que só abusa dos que se deixam abusar.
Isto, senhores, leva-me a completar meu pensamento sobre o que acabo de dizer, a respeito das dissidências que poderiam surgir entre os diversos grupos, em conseqüência da diversidade de ensino. Eu disse que, não obstante algumas divergências, eles poderiam entender-se e devem entender-se, desde que sejam verdadeiros espíritas. Dei-vos o meio de controlar o valor das comunicações; agora vos darei o de apreciar a natureza das influências exercidas sobre cada um. Considerando-se que toda influência salutar emana de um Espíritos bom, que tudo quanto é mau vem de fonte má, que os Espíritos maus são os inimigos da união e da concórdia, o grupo que for assistido pelo Espírito do mal será aquele que lançar a pedra sobre o outro e não lhe estender a mão. Quanto a mim, senhores, eu vos considero a todos como irmãos, quer estejais com a verdade, quer com o erro. Mas vos declaro, alto e bom som, que estarei de corpo e alma com os que mostrarem mais caridade, mais abnegação. Se houvesse alguns – que Deus não permita! – que alimentassem sentimentos de ódio, inveja, ciúme, eu os lamentaria, porque estariam sob má influência, preferindo acreditar que esses maus pensamentos lhes vêm de um Espírito estranho do que de seu próprio coração. Mas isto só me tornaria suspeita a veracidade das comunicações que pudessem receber, em virtude do princípio de que um Espírito verdadeiramente bom não poderá sugerir senão bons sentimentos.
Terminarei, senhores, esta alocução, por certo já bem longa, com algumas considerações sobre as causas que devem assegurar o futuro do Espiritismo.
Compreendeis todos, pelo que tendes sob os olhos e pelo que sentis em vós mesmos, que dia virá em que o Espiritismo deverá exercer uma imensa influência sobre a estrutura social. Mas o dia em que essa influência será generalizada ainda está longe, sem dúvida. São necessárias gerações para que o homem se despoje do homem velho. Contudo, desde agora, se o bem não pode ser geral, já é individual, e porque esse bem é efetivo, a doutrina que o proporciona é aceita com tanta facilidade, direi mesmo com tanto entusiasmo, por muitos. Com efeito, pondo de lado a sua racionalidade, que filosofia é mais capaz de libertar o pensamento do homem dos laços terrenos, de elevar sua alma para o infinito?
Qual a que lhe dá uma idéia mais justa, mais lógica e apoiada sobre as provas mais patentes, de sua natureza e de seu destino? Que seus adversários a substituam por algo de melhor, uma doutrina mais consoladora, que melhor se ponha de acordo com a razão, que substitua a alegria inefável de saber que os seres que nos foram caros na Terra estão junto a nós, que nos vêem, nos ouvem, nos falam e nos aconselham; que dê um motivo mais legítimo à resignação; que faça temer menos a morte; que proporcione mais calma nas provas da vida; que, enfim, substitua essa doce quietude experimentada quando se pode dizer: sinto-me melhor. Ante uma doutrina que faça melhor que tudo isto, o Espiritismo deporá as armas.
O Espiritismo torna, pois, soberanamente feliz; com ele, não mais isolamento, nem desespero; ele já poupou muitas faltas, impediu vários crimes, levou a paz a inúmeras famílias, corrigiu muitas imperfeições. Que será, então, quando os homens forem alimentados por tais idéias! Porque, então, vindo o raciocínio, eles se fortificarão e não mais renegarão a alma. Sim, o Espiritismo torna feliz e é isto que lhe dá um poder irresistível e assegura o seu triunfo futuro. Os homens querem a felicidade; como o Espiritismo a oferece, eles se lançarão em seus braços.
Desejam aniquilá-lo? Então dêem ao homem uma fonte maior de felicidade e de esperança. Isto quanto aos indivíduos.
Duas outras forças parecem ter receado o seu aparecimento: a autoridade civil e a autoridade religiosa. Por quê?
Porque não o conhecem. Hoje a Igreja começa a ver que nele encontrará uma arma poderosa para combater a incredulidade, a solução lógica de vários dogmas embaraçosos e, finalmente, que ele já conduz aos seus deveres de cristãos um bom número de ovelhas desgarradas. Por seu lado, o poder civil começa a ter provas de sua benéfica influência sobre a moralidade das classes laboriosas, às quais essa doutrina, pela convicção, inculca idéias de ordem e de respeito à propriedade, fazendo compreender o nada das utopias.
Testemunha metamorfoses morais quase miraculosas e em breve entreverá, na difusão dessas idéias, um alimento mais útil ao pensamento que as alegrias dos cabarés ou o tumulto da praça pública e, conseqüentemente, uma salvaguarda para a sociedade.
Assim, povo, Igreja e poder, um dia vendo nele um dique contra a brutalidade das paixões, uma garantia da ordem e da tranqüilidade, um retorno às idéias religiosas que se extinguem, ninguém terá interesse em obstaculizar a sua marcha. Ao contrário, cada um buscará no Espiritismo um apoio. Aliás, quem poderia deter o curso dessa torrente de idéias, que já movimenta suas águas benfazejas nas cinco partes do mundo?