Meu Amigo Hermann
“No dia seguinte encontraram Hermann morto em seu leito e, alguns meses depois, os jornais da Austrália noticiaram a execução de William Parker, com todas as particularidades descritas por sua duplicata.” Toda essa história é narrada com imperturbável sangue-frio e em tom sério; nada falta, nos detalhes que omitimos, para dar-lhe um cunho de verdade. Na presença dos estranhos fenômenos que testemunhamos, um fato dessa natureza poderia parecer se não real, pelo menos possível, e relacionado até certo ponto com aqueles que já citamos. Com efeito, não seria análogo àquele do rapaz que dormia em Boulogne, enquanto, ao mesmo tempo, conversava em Londres com seus amigos? Ao de Santo Antônio de Pádua que, no mesmo dia, pregava na Espanha e se mostrava em Pádua para salvar a vida do pai, acusado de homicídio? À primeira vista pode-se dizer que, se esses dois fatos forem exatos, também não é impossível que Hermann tenha vivido na Austrália, enquanto dormia na Alemanha, e reciprocamente. Embora nossa opinião esteja perfeitamente estabelecida a esse respeito, acreditamos dever referi-la aos nossos instrutores de além-túmulo, em uma das sessões da Sociedade. À pergunta: O fato relatado pelo Journal des Débats é real? Responderam: Não; é uma história feita especialmente para divertir os leitores. – Se não é real, é possível? – Não; uma alma não pode animar dois corpos diferentes. Realmente, na história de Boulogne, se bem o rapaz se tenha mostrado em dois locais diferentes simultaneamente, em verdade possuía apenas um corpo de carne e osso, que estava naquela cidade; em Londres havia apenas a aparência ou perispírito, tangível, é certo, mas não o próprio corpo, mortal; ele não poderia morrer em Londres e em Boulogne. Hermann, ao contrário, conforme a anedota, teria realmente dois corpos, desde que um foi enforcado em Melbourne e o outro enterrado na Alemanha. A mesma alma teria, assim, se defrontado com duas existências simultâneas, o que, conforme os Espíritos, não é possível. Os fenômenos do gênero do de Boulogne e de Santo Antônio de Pádua, embora muito freqüentes são, aliás, sempre acidentais e fortuitos num indivíduo, não tendo jamais um caráter de permanência, ao passo que o pretenso Hermann era assim desde a infância. Entretanto, a razão mais grave de todas é a diferença de caracteres. Seguramente, se esses dois indivíduos não tivessem tido senão uma só alma, esta não poderia ser, alternadamente, a de um homem de bem e a de um bandido. É verdade que o autor se baseia na influência do organismo. Nós o lamentamos, se tal é a sua filosofia e, ainda mais, que procure dar-lhe crédito, porquanto seria negar a responsabilidade dos atos; semelhante doutrina seria a negação de toda moral, porque reduziria o homem à condição de máquina.
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Mês Fevereiro
Ano 1859