21. Do caráter essencialmente sério das reuniões não se deve inferir que se deva proscrever sistematicamente as manifestações físicas. Como dissemos em O Livro dos Médiuns (no 326), elas são de incontestável utilidade, do ponto de vista do estudo dos fenômenos e para a convicção de certas pessoas; mas, para que se possa tirar proveito desse duplo ponto de vista, deve-se excluir todo pensamento frívolo. Uma reunião que possuísse um bom médium de efeitos físicos e que se ocupasse desse gênero de manifestações com ordem, método e gravidade, cuja condição moral oferecesse toda garantia contra o charlatanismo e a fraude, não só poderia obter coisas notáveis, do ponto de vista fenomênico, mas produziria muito bem. Assim, aconselhamos a não desprezarem esse gênero de experimentação, caso disponham de médiuns apropriados, organizando, para esse efeito, sessões especiais, independentes daquelas voltadas para as comunicações morais e filosóficas. Os médiuns poderosos dessa categoria são raros; mas há fenômenos que, não obstante vulgares, não são menos interessantes e concludentes, porque provam, de maneira insofismável, a independência do médium. Deste número são as comunicações pela tiptologia alfabética que, muitas vezes, dá os mais imprevistos resultados. A teoria desses fenômenos é necessária para explicar a maneira como se operam, pois é raro que levem a uma convicção profunda os que não os compreendem.
Tem, além disso, a vantagem de dar a conhecer as condições normais em que aqueles se podem produzir e, conseqüentemente, evitar tentativas inúteis e permitir descobrir a fraude, caso esta se insinue em alguma parte.
Equivocaram-se imaginando que fôssemos sistematicamente contrários às manifestações físicas; preconizamos e preconizaremos sempre as comunicações inteligentes, sobretudo as que têm alcance moral e filosófico, porque só elas tendem para o objetivo essencial e definitivo do Espiritismo; quanto às outras, nunca lhes contestamos a utilidade, mas nos levantamos contra o abuso deplorável que delas fazem, ou podem fazer, contra a exploração feita pelo charlatanismo, contra as más condições em que freqüentemente são realizadas, e que se prestam ao ridículo; dissemos e repetimos que as manifestações físicas são o começo da ciência, e que não se avança ficando no á-bê-cê; que, se o Espiritismo não tivesse saído das mesas girantes, não teria crescido como cresce e talvez hoje nem mais se falasse dele. Eis por que nos esforçamos por fazê-lo entrar na via filosófica, certos de que, dirigindo-se mais à inteligência do que aos olhos, tocaria o coração e não seria um capricho da moda. É com esta condição única que poderia dar a volta ao mundo e implantar-se como doutrina. Ora, o resultado ultrapassou, e de muito, a nossa expectativa. Não atribuímos às manifestações físicas senão uma importância relativa, e não absoluta. Sob a óptica de certas pessoas, aí está o nosso erro, porquanto dela fazem uma ocupação exclusiva e nada mais vêem.
Se não nos ocupamos pessoalmente dos fenômenos é porque nada de novo nos ensinariam e temos coisas mais essenciais a fazer. Ao contrário, longe de censurar os que deles se ocupam, nós os encorajamos, desde que o façam em condições realmente proveitosas. Sempre que conhecermos reuniões desse gênero, merecedoras de toda a nossa confiança, seremos os primeiros a recomendá-las à atenção dos novos adeptos. Tal é, sobre o assunto, nossa profissão de fé categórica.
22. Dissemos no começo que diversos círculos espíritas pediram para se unir à Sociedade de Paris; utilizaram até mesmo a palavra filiar-se. A respeito, faz-se necessária uma explicação.
A Sociedade de Paris foi a primeira a ser regularizada e legalmente constituída. Por sua posição e pela natureza de seus trabalhos, teve uma grande parte no desenvolvimento do Espiritismo e, em nossa opinião, justifica o título de Sociedade Iniciadora, que lhe deram certos Espíritos. Sua influência moral se fez sentir longe e, embora restrita, numericamente falando, tem consciência de ter feito mais pela propaganda do que se tivesse aberto as portas ao público. Formou-se com o único objetivo de estudar e aprofundar a ciência espírita. Para isto não necessita de um auditório numeroso, nem de muitos membros, pois sabe muito bem que a verdadeira propaganda é feita pela influência dos princípios; como não é movida por nenhum interesse material, um excedente numérico ser-lhe-ia mais prejudicial do que útil. Assim, verá com prazer multiplicarem-se à sua volta reuniões particulares, formadas em boas condições, e com as quais poderia estabelecer relações de confraternidade. Ela nem seria conseqüente com seus princípios, nem estaria à altura de sua missão, se pudesse conceber a sombra da inveja; quem disso a julgasse capaz, provaria que não a conhece.
Estas observações são suficientes para mostrar que a Sociedade de Paris não poderia ter a pretensão de absorver as demais Sociedades que se formassem, em Paris ou alhures, com os mesmos procedimentos habituais. A palavra filiação seria, pois, imprópria, porque suporia de sua parte uma espécie de supremacia material, à qual ela absolutamente não aspira, e que teria mesmo inconvenientes. Como Sociedade iniciadora e central, pode estabelecer com os outros grupos ou sociedades relações puramente científicas, limitando-se aí o seu papel; não exerce nenhum controle sobre essas sociedades, que em nada dependem dela e ficam inteiramente livres para se constituírem como bem o entenderem, sem ter de prestar contas a ninguém, e sem que a Sociedade de Paris tenha que se imiscuir no que for em seus negócios. Assim, as sociedades estrangeiras podem formar-se nas mesmas bases, declarar que adotam os mesmos princípios, sem depender da de Paris senão pela concentração dos estudos, dos conselhos que lhe podem pedir e que ela terá prazer em dar.
Aliás, a Sociedade de Paris não se vangloria de estar, mais que as outras, ao abrigo das vicissitudes. Se, por assim dizer, as tivesse em suas mãos e se, por uma causa qualquer, deixasse de existir, a falta de um ponto de apoio resultaria em perturbação. Os grupos ou sociedades devem buscar um ponto de apoio mais sólido que numa instituição humana, frágil por natureza; devem haurir sua vitalidade nos princípios da doutrina, que são os mesmos para todas e que a todas sobrevivem, estejam ou não esses princípios representados por uma sociedade constituída.
23. Estando claramente definido o papel da Sociedade de Paris, para evitar qualquer equívoco ou falsa interpretação, as relações que vier a estabelecer com as sociedades estrangeiras tornam-se extremamente simplificadas; limitam-se a relações morais, científicas e de mútua benevolência, sem qualquer sujeição; permutarão o resultado de suas observações, quer através de publicações, quer de correspondência. Para que a Sociedade de Paris possa estabelecer essas relações é preciso, necessariamente, que seja designada pelas sociedades estrangeiras, que marcharão no mesmo caminho e adotarão a mesma bandeira; ela os inscreverá na lista de seus correspondentes. Se houver vários grupos numa cidade, serão representados pelo grupo central, de que falamos no parágrafo 18.
24. Indicaremos agora alguns trabalhos aos quais poderão concorrer as diversas sociedades de maneira proveitosa.
Mais tarde indicaremos outros.
Sabe-se que os Espíritos, não possuindo todos a soberana ciência, podem considerar certos princípios de seu ponto de vista pessoal e, conseqüentemente, nem sempre estarão de acordo. O melhor critério da verdade está naturalmente na concordância dos princípios ensinados sobre diversos pontos, por Espíritos diferentes e por meio de médiuns estranhos uns aos outros. Desse modo foi composto O Livro dos Espíritos. Mas ainda restam muitas questões importantes a serem resolvidas desta maneira, cuja solução terá mais autoridade quando obtida por grande maioria. Assim, poderá a Sociedade de Paris dirigir, ocasionalmente, perguntas dessa natureza a todos os grupos correspondentes que, através de seus médiuns, pedirão a solução a seus guias espirituais.
Um outro trabalho consiste em pesquisas bibliográficas. Existe um grande número de obras antigas e modernas, nas quais se encontram testemunhos mais ou menos diretos em favor das idéias espíritas. Uma coleção desses testemunhos seria muito preciosa, mas é quase impossível ser feita por uma só pessoa. Torna-se fácil, ao contrário, se cada um colher alguns elementos em suas leituras e estudos e os transmitir à Sociedade de Paris, que os coordenará.
25. No estado atual das coisas está é a única organização possível do Espiritismo. Mais tarde as circunstâncias poderão modificá-la, mas nada dever ser feito intempestivamente; já é muito que em tão pouco tempo os adeptos se tenham multiplicado para chegar a este resultado. Há nesta simples disposição um panorama que pode estender-se ao infinito, pela simples disposição das engrenagens. Não procuremos, pois, complicá-las, temendo encontrar obstáculos. Os que quiserem testemunhar-nos a sua confiança podem estar certos de que não os deixaremos na retaguarda e que tudo virá a seu tempo. Só a eles, como dissemos, nos dirigimos nestas instruções, sem a pretensão de nos impor aos que não marcham conosco.
Disseram, por pura maldade, que queríamos fazer escola no Espiritismo. E por que não teríamos esse direito? O Sr.