Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
Netz, que é médium escrevente, havendo interrogado outro Espírito a esse respeito, obteve várias informações por sua conta, entre outras a de que era bastante rico quando vivo; de que morreu em um acidente de caça, num momento em que se achava completamente só. Tendo mais tarde interrogado o próprio dançarino sobre esses fatos, com o auxílio de seu médium, por meio de batidas, obteve respostas idênticas. Ora, a Sra. Netz não havia comunicado ao médium as primeiras respostas escritas. Por outro lado, já não era ela que servia de médium e, além disso, tinha formulado perguntas insidiosas que podiam levar a respostas contrárias. Havia, pois, de uma e de outra parte, independência de pensamento e a correlação das respostas é um fato característico. Outro fato igualmente curioso é que seu médium predileto para a dança, um dia, ao sair de casa, foi tomado de movimentos involuntários que o faziam andar em cadência pela rua. Por sua vontade e se endireitando, podia parar esse movimento; mas desde que se abandonava a si mesmo, suas pernas retomavam o modo de andar do dançarino. Nada havia de ostensivo para despertar a atenção dos transeuntes. Mas, por isso mesmo, compreende-se que Espíritos de outra ordem e mais mal-intencionados que o dançarino que, afinal de contas, não quer senão se divertir, possam provocar sobre certas organizações movimentos mais violentos e da natureza dos que se vêem entre os convulsionários em crise. 3o Relato de um fato de comunicação espontânea do Espírito de uma pessoa viva, feito pelo Sr. de G..., médium escrevente, e que lhe é pessoal. Este Espírito entrou em detalhes circunstanciados completamente ignorados do médium, cuja exatidão foi verificada. O Sr. de G... não conhece essa pessoa senão de vista, uma única vez, numa visita, não mais o tendo encontrado depois. Sabia apenas seu nome de família. Ora, o Espírito assinou ao mesmo tempo o seu nome de batismo, que era exatamente o seu. Essa circunstância, aliada a outras indicações de tempo e lugar, fornecidas pelo Espírito, é uma prova evidente de identidade. O Sr. conde de R... observa a respeito que esses tipos de comunicações por vezes podem ser indiscretos e pergunta se a pessoa em questão teria ficado satisfeita se tomasse conhecimento da conversa. A isto foi respondido que: 1o – se a pessoa se comunicou é porque o quis, como Espírito, desde que veio por vontade própria, considerando-se que o Sr. G..., não pensando nela, não a tinha chamado; 2o – desprendido do corpo, o Espírito sempre tem o livre-arbítrio, não dizendo senão o que quer; 3o – nesse estado, o Espírito é mesmo mais prudente do que em estado normal, porque melhor aprecia o alcance das coisas. Se esse Espírito tivesse visto um inconveniente qualquer em suas palavras, não as teria dito. 4o Leitura de uma comunicação de Lyon, dirigida à Sociedade, na qual, entre outras coisas, é dito: “Que a reforma da Humanidade se prepara pela encarnação na Terra de Espíritos melhores, que constituirão uma nova geração, dominada pelo amor do bem; que os homens votados ao mal e que fecham os olhos à luz reencarnarão numa nova falange de Espíritos simples e ignorantes, enviados por Deus para trabalhar na formação de um globo inferior à Terra. Só poderão encontrar-se com seus irmãos terrenos depois que houverem, através de rudes trabalhos, alcançado o nível onde estes últimos vão entrar, após esta geração, pois não será permitido aos Espíritos maus assistir ao começo desta brilhante transformação.” O Sr. Theubet observa que esta comunicação parece consagrar o princípio de uma marcha retrógrada, contrariando tudo quanto nos foi ensinado. Trava-se uma longa e profunda discussão a respeito, que assim se resume: O Espírito pode decair como posição, mas não em relação às aptidões adquiridas. Por princípio da não retrogradação deve entender-se o progresso intelectual e moral, isto é, o Espírito não pode perder o que adquiriu em inteligência e moralidade e não volta ao estado de infância espiritual. Em outras palavras, não se torna mais ignorante nem pior do que era, o que não o impede de reencarnar-se numa posição inferior mais penosa e entre outros Espíritos mais ignorantes do que ele, se o mereceu. Um Espírito muito atrasado que reencarnasse num povo civilizado, aí estaria deslocado e não poderia sustentar a sua posição; voltando aos selvagens em nova existência, apenas retomará o lugar que havia deixado cedo demais; mas as idéias que houver adquirido durante sua estada entre os homens mais esclarecidos não serão perdidas. Deve se dar o mesmo com os homens que irão concorrer para a formação de um mundo novo. Encontrando-se deslocados na Terra melhorada, irão para um mundo em consonância com seu estado moral. Estudos: 1o Evocação do negro do navio Constant, já evocado a 30 de setembro de 1859. Ele dá novas explicações sobre as circunstâncias que acompanharam a sua morte. Três comunicações espontâneas: a primeira, de Chateaubriand, pelo Sr. Roze; a segunda, de Platão, pelo Sr. Colin; a terceira, de Charlet, pelo Sr. Didier Filho, em continuação ao trabalho por ele começado sobre a natureza dos animais.
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Mês Fevereiro
Ano 1860