Capítulo 29
Não aceitaremos a intimidação, mas não a devolveremos com uma palavra ou um gesto de desafio que de provocação. É necessário não intimidar-se diante da bravata, mas sem cometer o engano de ridicularizá-la. Há uma diferença considerável em ser intimorato e ser temerário. Nossa bagagem de erros ainda a resgatar não nos permite usar o manto da invulnerabilidade, mas não deve deter os nossos passos na ajuda ao irmão que sofre. Mesmo que ele nos fira, com a peçonha de seu rancor inconsciente, quando lhe estendermos a mão, para ajudá-lo a levantar-se, ele nos será muito grato se o conseguirmos e, no fundo, bem no fundo de si mesmo, ele, mais do que ninguém, deseja e espera que nós consigamos salvá-lo, pois que, por si mesmo, com seus próprios recursos, ele não o conseguiu ainda. E, afinal de contas, se os espinhos nos ferirem, aqui e ali, também estaremos nos libertando das nossas próprias culpas. A regra, portanto, é esta: não ridicularizar a bravata, nem desafiar a ameaça; não responder à ironia com a mofa; não se intimidar, mas não ser imprudente. Regra semelhante poderia ser sugerida para responder à proposta, e esta precisa, igualmente, de algumas considerações à parte. Um grupo bem orientado e bem guardado pelos amigos espirituais invisíveis começará, pouco a pouco, a obter resultados que surpreenderão não apenas aos próprios componentes encarnados, como também aos desequilibrados Espíritos manifestantes. Estes não compreendem como pode um pequeno grupo, aparentemente tão frágil, tão reduzido, resistir à investida de tremendas e poderosas organizações espirituais, votadas, há um tempo enorme, à prática do mal. Inúmeros outros seres e grupos que tentaram, no passado, impedir seus passos, deram-se mal, e foram afastados sumariamente. De modo que, passado o rompante das primeiras agressões, os companheiros desvairados proporão barganhas e tréguas, ou pequenas concessões. A imaginação é fértil e a experiência deles é longa, no trato de situações como essa, a da resistência inesperada. A proposta pode ser um simples negócio. Estão acostumados a tais ajustes e transações. Acham que tudo tem seu preço e dispõem-se sempre a pagar o preço combinado por aquilo que lhes interessa. Se podem comprar nossa desistência, por exemplo, não hesitarão em propor uma barganha: — Está bem. O que você deseja para parar com isso? “Parar com isso” é deixá-los fazer o que entendem, encerrar as atividades do grupo ou dedicar-se a outros afazeres mais inócuos e menos prejudiciais aos seus interesses. Concordarão, por exemplo, em deixar de atormentar alguém, a que particularmente estejamos dedicados, ou em liberar outros, que mantêm prisioneiros no mundo espiritual. Ou então nos oferecem coisas mais terra-a-terra, como dinheiro, posição, prazeres. De outras vezes a proposição é mais sutil. Começam com elogios, exaltando nossas fabulosas “virtudes”: — Você não sabe a força que tem! Poderia arrastar multidões, dominar mentes... A um desses respondi que não sabia, ainda, como dominar a minha... E ele, imperturbável: — Sabe, sim. Você sabe... Por que não fazemos um acordo? Outro convidou-me para “pregar”, na sua instituição. Já referi aqui, também, àquele que me propunha desfazer um “trabalho”, feito contra mim, ao que tudo indicava, por ele mesmo... Há os que propõem desembaraçar-nos de pessoas que supostamente nos estariam atrapalhando, bem como, aqueles que nos acenam com “belíssimas” posições, nas suas organizações. Como dizia há pouco, a imaginação deles é fértil e a habilidade ilimitada, e muitos são os que se deixam fascinar por esse cântico funesto. Um deles me disse, certa vez, que eu ficaria estarrecido, se soubesse daqueles que haviam concordado com arranjos semelhantes. De um Espírito encarnado, que nosso grupo estava particularmente interessado em socorrer, nos foi dito que desistíssemos, porque ele não voltaria: já havia “cruzado a ponte”, para o lado de lá... Tinha tudo quanto queria, estava muito feliz, O negócio, evidentemente, fora bom para ambos os lados, o que, na prática comercial, indica uma boa transação concluída de maneira auspiciosa. Duas observações básicas é preciso ainda fazer, sobre tais propostas e acomodações: a primeira, é mais do que óbvia, ou seja, as concessões que nos oferecem têm elevado preço, por mais inocentes que se apresentem, à primeira vista. Além do mais, nada impede que desfaçam o trato, a qualquer tempo, quando não mais interessar-lhes o nosso concurso ou caducar a razão pela qual se valeram da nossa ingenuidade infantil. A cobrança virá, então, sobre aquele que concordou com o trato e que, de suposto aliado, passa a vítima inerme de sua própria tolice. A segunda observação é a de que, quando os nossos irmãos atormentados propõem semelhantes transações, com a finalidade de nos levarem a abandonar o trabalho, deixar de ajudar alguém, ou fazer, enfim, qualquer concessão, é porque estão começando a sentir-se algo perplexos, ante a resistência inesperada à sua vontade. Eles não estão habituados a fazer acordos para obter o que podem conseguir pela imposição e pela intimidação, ou pelo terror. Tenhamos, porém, o bom senso de não procurar tirar partido da situação, imatura e precipitadamente. A prudência continua a ser a melhor conselheira. Além disso, não podemos permitir-nos utilizar, jamais, métodos semelhantes aos seus. Eles compreenderão nossos escrúpulos e nosso jogo aberto e acabarão respeitando-nos por isso, estejam ou não convencidos ante a nossa argumentação. Se a uma proposta, por mais infantil que seja, da parte deles, tentarmos “virar a mesa”, estaremos sintonizando-nos com o mesmo diapasão ético com que eles nos experimentam e, com isso, irá por terra a precária ascendência moral que porventura tenhamos alcançado sobre eles. Não podemos, jamais, esquecer-nos de que são pobres irmãos desorientados, desesperados, dispostos a tudo, mas que necessitam de nós. Buscam aflitivamente alguém que não possam corromper com suas propostas, alguém que prove ser pelo menos um pouco melhor do que a média humana, com a qual estão acostumados a lidar. Não alimentemos a ilusão de demonstrar-lhes que, diante de nós, são simples vermes infestados de culpas, votados à maldade intrínseca, e nós, seres redimidos, que condescendemos em estender-lhes a mão salvadora que, depois, iremos desinfetar. Absolutamente. É bem possível que sejam mais atilados psicólogos do que nós, mais experimentados do que nós, nessas duvidosas transações. Encaram suas tarefas deploráveis como complexas partidas de xadrez, nas quais têm, às vezes, que sacrificar uma dama, ou um bispo valioso, para dar o xeque ao rei. São metódicos, dispõem de amplos e minuciosos planejamentos. Não os subestimemos jamais, que as consequências serão funestas para nós. Escarnecer de suas propostas, porque sentimos que estão fracos e algo perplexos, pode ser desastroso, e, além do mais, é desumano. São irmãos doentes, que precisam de ajuda e compreensão, e não de que os confirmemos nas suas práticas, retrucando aos seus processos ardilosos com ardis de idêntico teor. Em situações como esta, costumo ter uma resposta padronizada. Não recuso a proposta, e nem a aceito. Confesso-me simplesmente incapaz de decidir, o que é estritamente verdadeiro. Usualmente, digo qualquer coisa assim: — Não tenho autoridade para tratar com você. Procure um dos nossos companheiros espirituais, aí no mundo de vocês. O que ele resolver, está bem para mim. Às vezes eles insistem, pois sabem muito bem o que significa a minha resposta. O tom pode ser este, como tenho observado: — Está bem, mas você pode resolver a parte que lhe toca. Eles não poderão fazer nada, se não tiverem o grupo, e se você acabar com o grupo, estará tudo resolvido e não mais o incomodaremos. Caso contrário... você sabe... A posição do doutrinador tem que continuar firme, paciente, tranquila, e até mesmo respeitosa, pois a dor alheia jamais poderá constituir espetáculo de diversão, a não ser para aqueles que também estejam em desequilíbrio. É preciso respeitá-la. A criatura que está diante de nós, incorporada ao médium, encontra-se desatinada, necessitada de compreensão e de amparo. Merece nosso respeito. Seria profundamente desumano negacear com ela, tentando ludibriá-la com os mesmos recursos com que, no seu desespero, tentou enganar-nos. Que ela tente, isso é compreensível; mas que nós, também, experimentemos a mesma arma, é inadmissível. Se não podemos provar-lhes que somos melhores do que eles — e não podemos mesmo, pela simples razão de que não o somos, pelo menos na extensão que a nossa vaidade poderia sugerir — que, pelo menos, evidenciemos que nossos métodos são melhores. Um pobre irmão desses, extremamente desarvorado, atormentou-nos, por algum tempo, com ameaças terríveis; assediou-nos, semana após semana; deu murros na mesa, gritou e fez tudo quanto lhe foi possível para destroçar-nos ou quebrar o nosso moral. Acreditava na legitimidade incontestável da sua causa. Era profundamente honesto consigo mesmo e, portanto, todos aqueles que se lhe opunham tinham que ser removidos de qualquer maneira: pela intimidação ou pela lisonja, pela dor ou pela sedução; não importam os métodos, desde que os fins sejam alcançados. Tinha, porém, um grande e generoso coração, totalmente dedicado à sua ingrata causa. Não lutava especificamente contra nós, mas pelas suas ideias, e achava, como tantos outros, que combatia o bom combate de que nos falava Paulo. Um dia, convenceu-se de seu engano, com a graça de Deus. Desceu do seu pedestal de poder e arrogância — fora também um grande e, sem dúvida, um pobre transviado, no passado —, viu-se em toda a extensão de seus enganos. Nesse ínterim, um de nossos médiuns teve com ele um encontro, no mundo espiritual, em desdobramento. Estava recolhido a uma instituição socorrista, e arrasado de remorso, pelas atitudes agressivas e despropositadas ante o seu doutrinador e o próprio grupo, que tanto se esforçava por salvá-lo.
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Parte Quarta