A Doutrina Espírita muda inteiramente a maneira de encarar o futuro. A vida futura não é mais uma hipótese, mas uma realidade; o estado das almas depois da morte não é mais um sistema, mas resultado da observação. O véu está levantado; o mundo invisível nos aparece em toda a sua realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever sua situação. Nós aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da felicidade e da desgraça; assistimos a todas as peripécias da vida de além-túmulo. Aí está para os espíritas a razão da calma com que encaram a morte, da serenidade de seus últimos instantes na Terra. O que os sustenta não é só a esperança, é a certeza; sabem que a vida futura é apenas a continuação da vida presente em melhores condições, e a esperam com a mesma confiança com que aguardam o nascer do sol, após uma noite de tempestade. Os motivos desta confiança estão nos fatos de que são testemunhas, e no acordo desses fatos com a lógica, a justiça e a bondade de Deus, e as aspirações íntimas do homem.
Demais, a crença vulgar coloca as almas em regiões apenas acessíveis ao pensamento, onde se tornam de alguma sorte estranhas aos vivos; a própria Igreja põe entre umas e outras uma barreira intransponível, declarando rotas todas as relações e impossível qualquer comunicação. Se as almas estão no inferno, perdida é toda a esperança de as rever, a menos que lá se vá ter também; se estão entre os eleitos, vivem completamente absortas em contemplativa beatitude. Tudo isso interpõe entre mortos e vivos uma distância tal que faz supor eterna a separação, e é por isso que muitos preferem ter, junto de si, embora sofrendo, os entes caros, antes que vê-los partir, ainda mesmo que para o céu. E a alma que estiver no céu será realmente feliz vendo, por exemplo, arder eternamente seu filho, seu pai, sua mãe ou seus amigos?
Para os espíritas a alma não é mais uma abstração; tem um corpo etéreo, que dela faz um ser definido, que o pensamento abarca e concebe; já é muito para fixar idéias sobre sua individualidade, aptidões e percepções. A lembrança dos que nos são caros repousa sobre algo de real. Não mais são representadas como chamas fugidias, que nada lembram ao pensamento, mas sob uma forma concreta, que no-las mostra melhor como seres vivos.
Depois, em vez de estarem perdidas nas profundezas do espaço, estão à nossa volta; o mundo visível e o mundo invisível estão em perpétuas relações e se assistem mutuamente. Não mais sendo permitida a dúvida sobre o futuro, o temor da morte não tem mais razão de ser; encaramo-la com sangue-frio, como uma libertação, como a porta da vida, e não como a do nada.