É preciso, além disso, notar que em todos os tempos existiram indivíduos dotados de faculdades especiais, que lhes permitiam comunicar com o invisível. A História, os livros sagrados de todos os povos, deles fazem menção quase a cada página. Os videntes da Gália, os oráculos e pitonisas da Grécia, as sibilas do mundo pagão, os grandes e pequenos profetas da Judéia, outra coisa não eram senão os médiuns de nossos dias. As potências superiores sempre se utilizaram desses intermediários para fazer ouvir seus ensinos, suas exortações à Humanidade. Só os nomes mudam; os fatos permanecem os mesmos, com a única diferença de que esses fatos se produzem em maior número, sob mais variadas formas, quando chega para a Humanidade a hora de começar um ciclo, uma nova ascensão para essas culminâncias do pensamento, que são o objetivo da sua trajetória.
Convém acrescentar que os Espíritos elevados não são os únicos a se manifestar; Espíritos de todas as categorias gostam de entrar em relação com os homens, desde que encontrem para isso os meios. Daí, a necessidade de distinguir, nas comunicações, o que procede de cima e o que vem de baixo; o que emana dos Espíritos de luz e o que provém dos atrasados. Há Espíritos de todos os caracteres e de todas as elevações; há mesmo, ao redor de nós, muito maior número de inferiores que de adiantados. São aqueles que produzem os fenômenos físicos, as manifestações estrondosas, tudo que é de índole vulgar, manifestações todavia úteis, como demonstramos, pois que nos facultam o conhecimento de todo um mundo ignorado ou esquecido.
Nesses fenômenos os médiuns desempenham um papel passivo, à semelhança do das pilhas, na eletricidade. São produtores, acumuladores de fluidos e é neles que os Espíritos haurem as forças necessárias para atuar sobre a matéria. Encontra-se essa categoria de médiuns um pouco por toda parte, até nos meios pouco esclarecidos. Seu concurso é puramente material; suas aptidões são antes um predicado físico que indício de elevação. Muito diferente é a parte dos médiuns nos fenômenos intelectuais, de todos os mais interessantes e nos quais melhor se revela a personalidade das inteligências invisíveis. É por eles que nos vêm os ensinos, as revelações que fazem do Espiritismo não somente um campo de explorações científicas, mas ainda, conforme a expressão de Russel Wallace, “um verbo, uma palavra”.
Passemos em revista alguns desses fenômenos:
O da escrita direta deve, em primeiro lugar, atrair nossa atenção. Em certas circunstâncias, vê-se aparecerem folhas de papel cobertas de escrita de origem não humana.(cix) Nós mesmos assistimos à produção de muitos fatos dessa natureza. Um dia entre outros, em Orange, no correr de uma sessão de Espiritismo, vimos descer pelo espaço, por cima de nossa cabeça, um pedaço de papel que parecia sair do teto e que veio, lentamente, cair no chapéu colocado em cima da mesa, ao pé de nós. Duas linhas com uma letra fina, dois versos estavam nele escritos. Exprimiam um aviso, uma predição que nos dizia respeito e que mais tarde se realizou.
A maior parte das vezes esse fenômeno se produz em ardósias duplas, fechadas, seladas, carimbadas, no interior das quais se coloca um fragmento de lápis. A comunicação é redigida em presença dos assistentes, às vezes em língua estrangeira, desconhecida do médium e das pessoas presentes, e responde a perguntas por estas formuladas.
O Doutor Gibier estudou esse gênero de manifestações durante trinta e três sessões, com o concurso do médium Slade.(cx) Censuraram este último por experimentar fora das vistas dos assistentes, colocando as ardósias debaixo da mesa. Citaremos, portanto, de preferência o caso do médium Eglinton, relatado na obra do professor Stainton Moses, da Universidade de Oxford, intitulada Psycography. Aí o fenômeno se produzia em plena luz, à vista de todos.
Nessa obra ele fala de uma sessão a que assistia o Senhor Gladstone. O grande estadista inglês escreve uma pergunta na ardósia e volta-a imediatamente, adaptando-a a uma outra; um pedaço de lápis é colocado no intervalo. Amarram-se as duas ardósias, sobre as quais o médium coloca a extremidade dos dedos para estabelecer a comunicação fluídica. Pouco depois, ouve-se o ranger do lápis. O olhar penetrante do Senhor Gladstone não se desviava do médium. Nessas condições de rigorosa verificação, foram obtidas respostas em várias línguas, algumas das quais ignoradas do médium, respostas em perfeita concordância com as perguntas formuladas.
A Revue Spirite de abril 1907 relata as experiências de escrita direta efetuadas pelo Doutor Roman Uricz, chefe de clínica do hospital de Bialy-Kamien, na Galícia. Assim se exprime ele:
“Muito tempo me ocupei de Espiritismo. Tenho agora um médium com quem durante três meses realizei experiências, duas vezes por semana, e obtive fenômenos verdadeiramente interessantes.
“Esse médium é uma camponesa absolutamente ignorante. Freqüentou a escola de sua aldeia dois anos apenas, lê com dificuldade e escreve mal. Está empregada como criada de uma Sra. R., em Bialy-Kamien. As sessões, efetuadas em minha casa, assistem, além de mim e do médium, essa Sra. R. e um amigo, o Doutor W. Obtivemos a escrita direta. O que é notável e, que o saiba, inteiramente novo, é o modo pelo qual a obtivemos. Tenho visto muitas vezes a escrita produzida entre duas ardósias ou no papel, com um lápis, num quarto em condições de escuridade; mas as precauções que tomamos foram de tal ordem que excluem absolutamente qualquer possibilidade de fraude, não só da parte do médium, como de qualquer outra pessoa. Quis ver sem resquício de dúvida, como se produzia a escrita. Fiz, por conseguinte, construir, com o consentimento da Inteligência diretora, o seguinte aparelho:
“Uma caixinha de madeira, A B C D, munida, em lugar da tábua dianteira B D, de um saco em forma de funil S, feito de um tecido de seda escura, flexível mas encorpado, de 50 centímetros de comprimento.
“Na extremidade desse saco foi adaptado um pequeno tubo H, com um lápis, M N, introduzido de tal sorte que a parte posterior do lápis e, mesmo o lápis quase todo, fica dentro da caixa, ficando a ponta aguçada N saliente do tubo H e apoiada numa folha de papel P. O interior da caixa é inteiramente escuro e o saco em nada impede os movimentos do lápis. Com essa disposição logramos obter, à plena luz, com extrema rapidez e absoluta segurança, comunicações escritas por um processo visível aos olhos de todos. O médium coloca as mãos no tampo superior C D e, ao fim de alguns minutos, começa a escrita, enquanto a parte inferior do saco se intumesce, como se mão oculta se houvesse introduzido no interior.
“É em tais condições e por esse único meio que atualmente nos comunicamos com a Inteligência invisível. Quanto ao conteúdo das mensagens, às vezes muito longas, é consideravelmente superior à inteligência do médium e excede não raro a capacidade dos outros assistentes, pois que freqüentemente recebemos comunicações em alemão e em francês – o médium não fala senão o dialeto eslavo; – e um dia recebemos uma mensagem de cinco páginas, em inglês, língua que nenhum de nós conhece. As mensagens são, às vezes, muito engenhosas e sugestivas. Assim, uma noite, perguntei se os Espíritos eram imateriais. – “Sim, em certo sentido”, foi-me respondido. – “Então – repliquei –, estais fora do tempo e do espaço.” – “Não...” – “Como?” – “Um ponto geométrico é também imaterial, pois que não tem dimensões, e entretanto está no espaço. O que acabo de dizer não constitui mais que uma comparação, porque nós outros, Espíritos, temos dimensões, mas não como vós.”
Uma camponesa ignorante, de catorze anos, seria capaz de dar
semelhantes respostas?
“Outro dia, recebemos uma prova de identidade indubitável. Durante a sessão o lápis escreveu, em caracteres inteiramente novos para nós: “Agradeço-lhe a injeção que me fez, quando estava em meu leito de morte. O senhor me aliviou. – Carolina C...”
Perguntei a quem eram dirigidas essas palavras. “Ao senhor”,
respondeu a Inteligência. – “Quando se deu esse fato e quem
sois?”, perguntei. O lápis escreveu: “No dia 18 de setembro 1900,
no hospital de Lemberg.” Nesse ano era eu ainda estudante e
trabalhava nesse estabelecimento como auxiliar de clínica. Era tudo
de que me recordava a tal respeito.
“Dias depois da sessão, tive ensejo de ir a Lemberg. Dirigi-me ao hospital e encontrei, no registro de 1900, o nome em questão. Era de uma mulher de 56 anos, doente de câncer do estômago e que lá morrera. Fui então ao escritório dos assentamentos da Polícia e perguntei se havia em Lemberg alguém com o nome de C. Informaram-me que havia uma professora com esse nome. Fui nesse mesmo dia procurá-la e como me dissesse ela haver perdido a mãe em 1900, mostrei-lhe a comunicação recebida por escrita direta. Com grande espanto, reconheceu a senhora, imediatamente, a letra e a assinatura de sua falecida mãe, exibindo cartas por esta escritas, que provavam, sem dúvida possível, a identidade da comunicante. Deu-me de bom grado uma dessas cartas. Entretanto, não me lembro de ter dado injeção de morfina em Carolina C.”
Muito mais comum que o precedente, é o fenômeno da escrita mediúnica. O sensitivo, sob um impulso oculto, traça no papel comunicações, mensagens em cuja redação o seu pensamento e vontade apenas tiveram parte mínima. Essa faculdade apresenta aspectos muito variados. Puramente mecânica em certos médiuns, que ignoram, no momento em que escrevem, a natureza e sentido das comunicações obtidas – a ponto de poderem alguns falar enquanto escrevem, desviar a atenção e trabalhar na escuridade – no maior número é ela semimecânica; neste caso o braço e o cérebro são igualmente influenciados; as palavras surgem ao pensamento do médium no próprio momento em que as traça o lápis. Às vezes, é puramente intuitiva e, por conseguinte, de natureza menos convincente e mais difícil de verificar.