A causa dos sonhos jamais foi explicada pela Ciência. Ela os atribuiu a um efeito da imaginação, mas não nos diz que é a imaginação, nem como se dá a produção dessas imagens tão claras e tão nítidas que às vezes nos aparecem. Equivale a explicar uma coisa que não é conhecida, por outra mais desconhecida ainda. A questão, portanto, ainda está por resolver.
Dizem ser uma recordação das preocupações da véspera. Porém, mesmo que se admita esta solução, que nada resolve, ainda restaria saber qual o espelho mágico que conserva assim a impressão das coisas. Como explicar, sobretudo, essas visões de coisas reais, que a pessoa nunca viu no estado de vigília e nas quais jamais pensou? Só o Espiritismo nos poderia dar a solução desse estranho fenômeno, que passa despercebido em razão da sua própria vulgaridade, como sucede com todas as maravilhas da Natureza que não merecem do homem a devida atenção.
Os sábios não se dignaram de se ocupar com a alucinação. Entretanto, quer seja real, quer não, ela constitui um fenômeno que a Fisiologia tem que se mostrar capaz de explicar, sob pena de confessar a sua inabilidade. Se algum dia um sábio resolver dar desse fenômeno, não uma definição — entendamo-nos bem — mas uma explicação fisiológica, veremos se a sua teoria resolve todos os casos, sobretudo se não omite os fatos tão comuns de aparições de pessoas no momento da morte, e se esclarece a razão da coincidência da aparição com a morte da pessoa. Se fosse um fato isolado, poder-se-ia atribuí-lo ao acaso; como, porém, é muito frequente, o acaso não se presta a essas reincidências. Se ao menos aquele que viu a aparição tivesse pensado que a pessoa que lhe apareceu estava prestes a morrer, tudo bem. Mas, quase sempre, quem aparece é justamente a pessoa em quem menos se pensa. Logo, a imaginação não se aplica ao caso. Mais difícil ainda é explicar, pela imaginação, as circunstâncias em que se deu a morte, quando não se tem a menor ideia do que de fato aconteceu.
Mas — retrucarão os partidários da alucinação — a alma, se é que existe uma alma, tem momentos de superexcitação em que suas faculdades se exaltam. Estamos de pleno acordo; porém, quando o que ela vê é real, já não pode haver ilusão. Se, na sua exaltação, a alma vê uma coisa que não está presente, é que ela se transportou para aquele lugar. Ora, se a nossa alma pode transportar-se para junto de uma pessoa ausente, por que não poderia a alma dessa pessoa transportar- se para junto de nós? Dignem-se eles, na sua teoria da alucinação, de levar em conta estes fatos, e não se esqueçam de que uma teoria, a que se podem opor fatos que a contrariem, é necessariamente falsa ou incompleta.
Enquanto aguardamos a explicação que os partidários da alucinação venham a oferecer, vamos tentar emitir algumas ideias a esse respeito.