“Tal a explicação que julgamos poder dar, no que diz respeito ao fato da rotação das mesas, tomado na sua maior simplicidade. Quanto ao movimento das mesas respondendo a perguntas: os pés que se levantam às ordens e que, pelo número de batidas, respondem às perguntas feitas, o mesmo sistema o explica se admitirmos que, entre os membros da corrente, haja algum no qual o estado de sono nervoso conserve uma certa duração. Tal indivíduo, hipnotizado à sua revelia, responde às perguntas e às ordens que lhe são dadas, inclinando a mesa ou fazendo-a dar pancadas, conforme o pedido. Voltando depois ao estado normal, esqueceu todos os atos assim realizados, como qualquer indivíduo magnetizado ou hipnotizado perde a lembrança dos atos executados nesse estado. O indivíduo que representa o papel mau grado seu, é, pois, uma espécie de dorminhoco acordado; não é absolutamente sui compos; está num estado mental que participa do sonambulismo e da fascinação. Não dorme; está encantado ou fascinado em virtude da forte concentração moral a que se impôs: é um médium. Como este último exercício é de ordem superior ao primeiro, não pode ser obtido em todos os grupos. Para que a mesa responda às perguntas feitas, levantando um de seus pés e dando pancadas, é necessário que os indivíduos que operam tenham praticado seguidamente o fenômeno da mesa girante, e que entre eles se encontre um sensitivo particularmente apto a cair naquele estado, o que se dá mais depressa pelo hábito e pela perseverança por mais tempo: numa palavra, é preciso um médium experimentado.
“Mas, dirão, vinte minutos ou meia hora nem sempre são necessários para obter o fenômeno da rotação de uma mesinha de pé-de-galo ou de uma mesa convencional. Muitas vezes, ao cabo de quatro ou cinco minutos, a mesa se põe em movimento. A tal observação responderemos que um magnetizador, quando trata com um sensitivo habitual ou com um sonâmbulo profissional, faz este cair em sonambulismo em um ou dois minutos, sem passes, sem aparatos, e apenas pela imposição fixa do olhar. Aqui, é o hábito que torna o fenômeno fácil e rápido. Do mesmo modo, os médiuns exercitados podem em pouco tempo chegar a esse estado de semi-sono nervoso, que deve tornar inevitável o fenômeno da rotação da mesa ou o movimento imprimido por ele ao móvel, conforme o pedido feito.”
Não sabemos como o Sr. Figuier explicaria sua teoria aos movimentos que ocorrem, aos ruídos que se ouvem, ao deslocamento dos objetos, sem o contato do médium, sem a participação de sua vontade, até mesmo contra a sua vontade. Mas há muitas outras coisas que ele não explica. Aliás, aceitando-se mesmo sua teoria, ela revelaria um fenômeno fisiológico dos mais extraordinários, e bem digno da atenção dos sábios. Por que, então, o desdenharam?
O Sr. Figuier termina o seu Tratado do Maravilhoso por uma breve notícia sobre O Livro dos Espíritos. Naturalmente ele o julga do seu ponto de vista: “A filosofia – diz ele – é antiquada e a moral enfadonha.” Certamente ele teria preferido uma moral galhofeira e excitante. Mas que fazer? É uma moral para uso da alma; aliás, ela teria sempre uma vantagem: a de fazer dormir. É, para ele, uma receita em caso de insônia...
Conversas Familiares de Além-Túmulo