(6 de janeiro de 1865 – Médium: Sr. d’Ambel) Há médiuns que, por suas aquisições anteriores, por seus estudos particulares na existência que hoje percorrem, acham-se mais aptos, quando não mais úteis que outros. Aqui a questão moral não é levada em conta: é simplesmente uma questão de capacidade intelectual. Mas não se deve ignorar que a maior parte desses médiuns não são devotados e que muitos recebem dos Espíritos comunicações de ordem elevada, que só a eles aproveitam. Mais de uma obra-prima da literatura e das artes é produto de uma mediunidade inconsciente; sem isto, de onde viria a inspiração? Afirmai corajosamente que as comunicações recebidas por Delphine de Girardin, Auguste Vaquerie e outros estavam à altura do que se tinha o direito de esperar dos Espíritos que se comunicavam por eles. Nessas ocasiões, infelizmente muito raras no Espiritismo, as almas dos que queriam comunicar-se tinham à mão bons, excelentes instrumentos, ou, melhor, médiuns cuja capacidade cerebral forneciam todos os elementos de palavras e de pensamentos necessários à manifestação dos Espíritos inspiradores. Ora, na maior parte das circunstâncias em que os Espíritos se comunicam – os grandes Espíritos, bem entendido – estão longe de ter sob a mão elementos suficientes para a emissão de seus pensamentos na forma, com a fórmula que eles lhe teriam dado quando vivos. É isso um motivo para não receber suas instruções? Por certo, não! Porque se algumas vezes a forma deixa a desejar, o fundo é sempre digno do signatário das comunicações.
Quanto ao mais, são querelas de palavras. A comunicação existe ou não existe? Eis o essencial. Se existe, que importa o Espírito e o nome que este toma? Se não se acredita nisto, importa ainda menos com ela se preocupar. Os Espíritos tratam de convencer; quando não o conseguem, é um inconveniente sem importância; é simplesmente porque o encarnado ainda não está pronto para ser convencido. Todavia, estou bem à vontade para aqui afirmar que, em cem indivíduos de boa-fé, que experimentam por si ou por médiuns que lhes são estranhos, mais de dois terços tornam-se partidários sinceros da Doutrina Espírita, porquanto, nesses períodos excepcionais, a ação dos Espíritos não se circunscreve apenas ao ato do médium, mas se manifesta por mil aspectos materiais ou espirituais sobre o próprio evocador.
Em suma, nada é absoluto, e sempre chegará uma hora mais fecunda, mais produtiva que a hora precedente. Eis, em poucas palavras, minha resposta à pergunta feita pelo vosso presidente.
Erasto (20 de janeiro de 1865 – Médium: Srta. M. C.)
Perguntais por que os Espíritos que na Terra brilharam por seu gênio, não dão aos médiuns comunicações à altura de suas produções terrenas, quando, de preferência, deveriam dá-las superiores, já que o tempo decorrido desde sua morte deve ter sido acrescentado às suas faculdades. Eis a razão.
Para se fazer ouvir, é preciso que os Espíritos atuem sobre instrumentos que estejam ao nível de sua ressonância fluídica. Que pode fazer um bom músico com um instrumento detestável? Nada. Ah! muitos médiuns, se não a maior parte, são para nós instrumentos muito imperfeitos. Compreendei que em tudo é necessário similitude, tanto nos fluidos espirituais quanto nos fluidos materiais. Para que os Espíritos avançados possam se vos manifestar, necessitam de médiuns capazes de vibrar em uníssono; do mesmo modo, para as manifestações físicas, é preciso que os encarnados possuam fluidos materiais da mesma natureza que os dos Espíritos errantes, tendo ainda ação sobre a matéria.
Assim, Galileu só se manifestará realmente a um astrônomo capaz de o compreender e transmitir sem erro os seus dados astronômicos; Alfred de Musset e outros poetas terão necessidade de um médium que ame e compreenda a poesia; Beethoven, Mozart procurarão músicos dignos de poder transcrever seus pensamentos musicais; os Espíritos instrutores que vos desvendam os segredos da Natureza, segredos pouco conhecidos, ou ainda ignorados, precisam de médiuns que já compreendam certos efeitos magnéticos e que tenham estudado bem a mediunidade.
Compreendei isto, meus amigos; refleti que não encomendais uma roupa ao chapeleiro, nem vossas cabeleiras ao alfaiate. Deveis compreender que necessitamos de bons intérpretes, e que alguns de nós, por não encontrar esses intérpretes, se recusem à comunicação. Mas, então, o lugar é ocupado. Não vos esqueçais de que os Espíritos levianos são em grande número, e que aproveitam as vossas faculdades com tanto mais facilidade quanto muitos dentre vós, envaidecidos pelas assinaturas notáveis, pouco se inquietam em se informarem na fonte verdadeira e confrontarem o que obtêm com o que deveriam ter obtido. Regra geral: quando quiserdes um calculador, não vos dirijais a um dançarino.
Um Espírito protetor Observação – Esta comunicação apóia-se num princípio verdadeiro, que resolve perfeitamente a questão do ponto de vista científico; contudo, não deve ser tomada num sentido muito absoluto. À primeira vista, esse princípio parece contradizer os fatos tão numerosos de médiuns que tratam de assuntos fora de seus conhecimentos, e pareceria implicar, para os Espíritos superiores, a possibilidade de não se comunicarem senão a médiuns que estivessem à sua altura. Ora, isto só se deve entender quando se trata de trabalhos especiais e de uma importância excepcional.
Concebe-se que se Galileu quiser tratar de uma questão científica, se um grande poeta quiser ditar uma obra poética, tenham necessidade de um instrumento que responda ao seu pensamento, o que não quer dizer que, para outras coisas, uma simples questão de moral, por exemplo, um bom conselho a dar, não poderão fazê-lo por um médium que não seja cientista, nem poeta. Quando um médium trata com facilidade e superioridade assuntos que lhe são estranhos, é um indício de que seu Espírito possui um desenvolvimento inato e faculdades latentes, fora da educação que recebeu.