Processos para Afastar os Espíritos Maus
Entre os Espíritos inferiores que se intrometem nas comunicações, há os que, por assim dizer, se insinuam furtivamente, como para fazer uma brincadeira, mas que se retiram tão facilmente como vieram, e isto na primeira intimação; outros, ao contrário, são tenazes, agarram-se ao indivíduo e não cedem senão a contragosto e com persistência. Apoderam-se dele, subjugam-no e o fascinam a ponto de fazê-lo tomar os mais grosseiros absurdos por coisas admiráveis. Feliz dele quando criaturas de sangue-frio conseguem abrir-lhe os olhos, o que nem sempre é fácil, já que tais Espíritos são mestres em inspirar a desconfiança e o afastamento de quem quer que os possa desmascarar. Daí se segue que devemos ter por suspeito de inferioridade ou de má intenção todo Espírito que prescreve o isolamento e o afastamento das pessoas que podem dar bons conselhos. O amor-próprio vem em seu auxílio, porque nos é penoso confessar que fomos vítimas de uma mistificação e reconhecer um velhaco naquele sob cujo patrocínio nos sentíamos honrados em nos colocar. Essa ação do Espírito é independente da faculdade de escrever. À falta da escrita, o Espírito malévolo dispõe de cem maneiras diferentes de agir e ludibriar. Para ele a escrita é um meio de persuasão, mas não é uma causa; para o médium, é um meio de esclarecer-se. Passando todas as comunicações escritas pelo controle das considerações precedentes, reconheceremos facilmente a sua origem e poderemos frustar a malícia dos Espíritos enganadores, que só se dirigem àqueles que se deixam enganar voluntariamente. Se perceberem que nos dobramos ante as suas palavras, disso tirarão partido, exatamente como fariam os simples mortais. Compete, pois, a nós provar-lhes que perdem o tempo. Acrescen-temos que, para isso, a prece é poderoso auxílio; por ela atraímos a assistência de Deus e dos Espíritos bons, aumentando nossa própria força. É conhecido o preceito: “Ajuda-te, e o céu te ajudará.” Por certo Deus quer assistir-nos, contanto que, de nosso lado, façamos aquilo que é necessário. A esse preceito acrescentamos um exemplo. Um senhor que eu não conhecia veio ver-me certo dia, dizendo que era médium e recebia comunicações de um Espírito muito elevado, que o havia encarregado de vir a mim, fazer-me uma revelação a respeito de uma trama que, segundo ele, era urdida contra mim, por parte de inimigos secretos que designou. “Quereis – acrescentou – que eu escreva em vossa presença?” – “Com prazer – respondi – mas de início devo dizer-vos que esses inimigos são menos temerosos do que supondes. Sei que os tenho; quem não os tem? E os mais obstinados em geral são aqueles a quem mais beneficiamos. Tenho consciência de jamais ter feito volun-tariamente mal a quem quer que seja. O mesmo não poderão dizer aqueles que me fizeram mal e, entre nós, Deus será juiz. Vejamos, no entanto, o conselho que vosso Espírito quer dar-me.” Então esse senhor escreveu o seguinte: “Ordenei a C... (nome daquele senhor), que é o farol de luz dos Espíritos bons, dos quais recebeu a missão de a espalhar entre seus irmãos, que se dirigisse à casa do Sr. Allan Kardec, o qual deverá crer cegamente no que eu lhe disser, porque pertenço ao número dos eleitos prepostos por Deus para velar a salvação dos homens, e porque lhe venho anunciar a verdade...” É bastante – disse-lhe eu – não se dê ao trabalho de continuar. Este exórdio é suficiente para mostrar com que espécie de Espírito estais tratando. Acrescentarei apenas uma palavra: para um Espírito que pretende ser astucioso, ele é bem desajeitado. Esse senhor pareceu bastante escandalizado do pouco caso que eu fazia de seu Espírito, que havia tomado por algum arcanjo ou, pelo menos, por algum santo de primeira classe, vindo expressamente para ele. Disse-lhe eu: Esse Espírito se trai em cada uma das palavras que acaba de escrever e, convenhamos, esconde muito mal o seu jogo. Primeiro ele ordena; quer, portanto, manter-vos sob sua dependência, o que é característico dos Espíritos obsessores; ele vos chama de farol de luz dos Espíritos bons, linguagem sofrivelmente enfática e incompreensível, muito distante da simplicidade que caracteriza a dos Espíritos bons; por ela lisonjeia o vosso orgulho e vos exalta a importância, o que é suficiente para torná-lo suspeito. Coloca-se sem a menor cerimônia no rol dos eleitos prepostos de Deus: jactância indigna de um Espírito verdadeiramente superior. Por fim me diz que devo crer cegamente; isso coroa a obra. É bem o estilo desses Espíritos mentirosos, que querem que neles acreditemos sob palavra, pois sabem que num exame sério têm tudo a perder. Com um pouco mais de perspicácia saberia que não me deixo convencer por belas palavras, nem teria sido tão inábil a ponto de prescrever-me uma confiança cega. Daí concluo que sois joguete de um Espírito mistificador que abusa da vossa boa-fé. Exorto-vos seriamente a prestar muita atenção a isso, porque, se não vos acautelardes, podereis ser vítima de um golpe lamentável de sua parte. Não sei se aquele senhor aproveitou a advertência, pois não mais o vi, nem ao seu Espírito. Eu jamais terminaria se fosse narrar todas as comunicações desse gênero a mim submetidas, por vezes muito seriamente, como emanando dos maiores santos, da Virgem Maria e do próprio Cristo, e seria realmente curioso ver as torpezas debitadas à conta desses nomes venerados. É preciso ser cego para se deixar enganar quanto à sua origem, quando, muitas vezes, uma única palavra equívoca, um só pensamento contraditório é suficiente para fazer descobrir o embuste a quem se der ao trabalho de refletir. Como exemplos notáveis em seu apoio, concitamos nossos leitores a se reportarem aos artigos publicados na Revista Espírita referentes aos meses de julho e outubro de 1858.
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Mês Setembro
Ano 1859