O Zuavo Jacob
A impressão do primeiro momento foi de estupor: ninguém riu. A própria imprensa facciosa simplesmente relatou os fatos e os boatos, sem fazer comentários. Diariamente ela dava o boletim, sem se pronunciar pró, nem contra, e foi possível notar que a maioria dos artigos não eram escritos em tom de zombaria; exprimiam a dúvida, a incerteza quanto à realidade de fatos tão estranhos, inclinando-se, porém, mais para a afirmação do que para a negação. É que o assunto, por si mesmo, era sério; tratava-se do sofrimento e o sofrimento tem algo de sagrado, que impõe respeito; em semelhante caso a pilhéria seria inconveniente e universalmente reprovada. Jamais se viu a verve zombeteira exercitar-se diante de um hospital, mesmo de loucos, ou de um comboio de feridos. Homens de coração e de senso não podiam deixar de compreender que, numa coisa que diz respeito a questões de humanidade, a zombaria teria sido indecorosa, por insultar a dor. Assim, é com um sentimento penoso e uma espécie de desgosto que hoje se vê o espetáculo desses infelizes doentes reproduzido grotescamente nos teatros de feira e traduzido em canções burlescas. Admitindo de sua parte uma credulidade pueril e uma esperança mal fundada, não é uma razão para faltar ao respeito que se deve ao sofrimento. Em presença de tal repercussão, a denegação absoluta era difícil; a dúvida só é permitida àquele que não sabe ou que não viu. Entre os incrédulos de boa-fé e por ignorância, muitos compreenderam que seria imprudência inscrever-se prematuramente em falso contra fatos que, um dia ou outro, poderiam receber uma consagração e lhes dar um desmentido. Assim, sem nada negar nem afirmar, a imprensa geralmente limitou-se a registrar o estado de coisas, deixando à experiência o cuidado de os confirmar ou desmentir e, sobretudo, de os explicar. Era o partido mais prudente. Passado o primeiro momento de surpresa, os adversários obstinados de toda coisa nova que contraria as suas idéias, atordoados em alguns momentos pela violência da irrupção, tomaram coragem, principalmente quando viram que o zuavo era paciente e de humor pacífico. Começaram o ataque a todo vapor, servindo-se das armas habituais dos que não têm boas razões para objetar: o gracejo e a calúnia excessivos. Mas a sua polêmica acrimoniosa denuncia cólera e evidente embaraço, e seus argumentos, quase sempre assentados em falso e sobre alegações notoriamente inexatas, não são dos que convencem, porque se refutam por si mesmos. Seja como for, não se trata aqui de uma questão pessoal. Que o Sr. Jacob sucumba, ou não, na luta, é uma questão de princípios que está em jogo, posta com imensa repercussão e que seguirá seu curso. Traz à memória inumeráveis fatos do mesmo gênero, que a História menciona, e que se multiplicam em nossos dias. Se é uma verdade, não está encarnada num homem, e nada poderia abafá-la; a própria violência dos ataques prova que temem que seja uma verdade. Nesta circunstância, os que testemunham menos surpresa e menos se emocionam são os espíritas, porque essas espécies de fatos nada têm de que eles não se dêem conta perfeitamente. Conhecendo a causa, não se admiram dos efeitos. Quanto aos que não conhecem a causa do fenômeno, nem a lei que o rege, naturalmente se perguntam se é uma ilusão ou uma realidade; se o Sr. Jacob é um charlatão; se realmente cura todas as doenças; se é dotado de um poder sobrenatural e de quem o tem; se voltamos ao tempo dos milagres. Vendo a multidão que o envolve e o segue, como outrora a que seguia a Jesus na Galiléia, alguns se perguntam mesmo se não seria o Cristo reencarnado, enquanto outros pretendem que sua faculdade seja um presente do diabo. Desde muito tempo todas estas questões estão resolvidas para os espíritas, que têm a sua solução nos princípios da doutrina. Não obstante, como daí podem sair vários ensinamentos importantes, nós os examinaremos num próximo artigo, no qual faremos ressaltar igualmente a inconseqüência de certas críticas. Dissertações Espíritas
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Mês Outubro
Ano 1867