Constituição do Espiritismo
Hoje, que a nossa obra pessoal se aproxima do seu termo, as necessidades já não são as mesmas; a Revista se tornará, como as nossas outras obras, feitas e por fazer, propriedade coletiva da comissão, que lhe tomará a direção, para maior vantagem do Espiritismo, sem que, por isso, renunciemos a lhe prestar a nossa colaboração. Para completar a obra doutrinária, falta-nos publicar vários trabalhos, que não formam a parte menos difícil, nem menos penosa. Conquanto já disponhamos de todos os elementos para os executar e o programa de cada um esteja traçado até o último capítulo, poderíamos dispensar-lhes mais acurada atenção e ativá-los, se, por instituída a comissão central, estivéssemos livres de outros cuidados que nos absorvem grande parte do tempo. *** O primeiro período do Espiritismo foi consagrado ao estudo dos princípios e das leis, que em seu conjunto tinham de constituir a Doutrina; numa palavra: a preparar os materiais, ao mesmo tempo que à vulgarização da ideia. Foi o do plantio da semente que, semelhante à da Parábola do Evangelho, não frutificaria igualmente por toda parte. A criança cresceu; tornou-se adulto e chegado é o momento em que, amparado por adeptos sinceros e devotados, tem que avançar para o objetivo que lhe está posto, sem ser obstado pelos retardatários. Mas como fazer essa seleção? Quem ousaria assumir a responsabilidade de um julgamento a incidir sobre as consciências individuais? O melhor seria que a seleção se fizesse por si mesma e o meio era bem simples: bastava desfraldar um estandarte e dizer — sigam-no os que o adotem. Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender, a obra que haja começado e de ser juiz da oportunidade. Desde o instante em que cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode queixar de sofrer uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo, para atender às necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita (Ver Revista Espírita, abril de 1866). Depois de tudo o que fica dito, facilmente se compreenderá quão impossível e prematuro fora estabelecer essa constituição logo no princípio. Se a Doutrina Espírita se houvera formado em conjunto, como toda concepção pessoal, teria sido completada desde o primeiro dia e, então, nada mais simples do que constituí-la. No entanto, tendo ela surgido gradualmente, em consequência de aquisições sucessivas, a sua constituição teria congregado todos os amantes de novidades; em breve, porém, estaria abandonado pelos que não lhe aceitassem todas as consequências. Entretanto, alguns porventura dirão: não estais assim provocando uma cisão entre os adeptos? Abrindo dois campos, não enfraqueceis a falange? Nem todos os que se dizem espíritas pensam do mesmo modo sobre todos os pontos; a divisão existe, de fato, e é muito mais prejudicial, porque pode acontecer que não se saiba se, num espírita, está um aliado ou um antagonista. O que faz a força é a universalidade: ora, uma união franca não poderia existir entre pessoas interessadas, moral ou materialmente, em não seguir o mesmo caminho e que não objetivam o mesmo fim. Dez homens unidos por um pensamento comum são mais fortes do que cem que não se entendam. Em tal caso, a miscelânea de vistas divergentes tira a força de coesão entre os que desejariam andar juntos, exatamente como um líquido que, infiltrando-se num corpo, ergue obstáculo à agregação das moléculas desse corpo. Se a constituição tem por efeito diminuir momentaneamente o número aparente dos espíritas, terá, por outro lado, como consequência, dar mais força aos que caminharem de comum acordo para a realização do grande objetivo humanitário que o Espiritismo há de alcançar. Eles se conhecerão e se estenderão mutuamente as mãos, de um extremo a outro do mundo. Terá, além disso, por efeito opor barreira às ambições que, se se impusessem, tentariam desviá-lo em proveito próprio. Tudo está calculado, visando esse resultado, pela supressão de toda autocracia ou supremacia pessoal.
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Constituição do Espiritismo
Tema X – Allan Kardec e a nova constituição