com quem te encontravas no momento em que te venderam os botões.” X não deixou de observar essas instruções. Eu mandei perguntar à Sra. C. e ela me respondeu que tua irmã estava com teu irmão, a quem fez grandes elogios, dizendo que, em sua idade não se poderia imaginar que tivesse respostas tão fáceis e, sobretudo, tão pouca timidez. É bom dizer que o pequeno estava na escola desde a manhã e só deveria retornar às sete horas da noite e que, além disso, é muito tímido e não tem essa facilidade que lhe querem reconhecer. Não é bastante curioso? Creio que a mão de Deus não é inteiramente alheia a essas coisas inexplicáveis.
7 de maio de 1855.
Não sou mais crédula do que se deve ser e não me deixo dominar por idéias supersticiosas. Entretanto, não posso recusar-me a crer em fatos que se realizaram sob meus olhos. Eu necessitava de provas bastante evidentes para não infligir à tua irmã os castigos que algumas vezes me via obrigada a lhe dar, receando que ela quisesse brincar conosco e abusar de nossa confiança.
Ontem, eram cinco horas aproximadamente quando o invisível disse a X: “É provável que mamãe te mande a alguma parte, a fim de dares um recado. No caminho serás agradavelmente surpreendida pela chegada da família de teu tio.” Imediatamente X me transmitiu o que o invisível lhe houvera dito; eu estava longe de esperar esses parentes e mais surpresa ainda de o saber dessa maneira. Tua irmã saiu e as primeiras pessoas que encontrou foram efetivamente meu irmão, sua esposa e seus filhos, que vinham nos visitar. X apressou-se em dizer que eu tinha uma prova a mais da veracidade de tudo quanto me dizia.
10 de maio de 1855.
Hoje já não posso duvidar de algo extraordinário em casa; vejo sem medo se realizarem todos esses fatos singulares, mas deles não posso extrair nenhum ensinamento porque, para mim, esses mistérios são inexplicáveis.
Ontem, depois de ter posto ordem na casa – e sabes que faço questão dessas coisas – o invisível disse a X que, malgrado as provas que havia dado de sua intervenção em todos os fatos curiosos que te narrei, eu sempre tinha dúvidas, que ele queria fazer desaparecerem completamente. Sem que se tivesse ouvido qualquer ruído, um minuto foi suficiente para pôr os cômodos em completa desordem. Sobre o assoalho uma substância avermelhada havia sido derramada; creio que era sangue. Se tivessem sido somente algumas gotas, eu teria pensado que X se tivesse cortado ou sangrado o nariz; mas imagina que o assoalho estava inundado.
Essa prova bizarra deu-nos um trabalho considerável para fazer com que o piso do salão readquirisse o seu brilho primitivo.
Antes de abrir as cartas que nos envias, X conhece o conteúdo. O invisível lho transmite.
16 de maio de 1855.
X não aceitou uma observação que lhe fez sua irmã, não sei a propósito de quê. Deu uma resposta inconveniente e recebeu merecido troco. Castiguei-a e ela foi-se deitar sem haver jantado. Como de costume, antes de deitar-se faz uma prece. Essa noite ela o esqueceu, mas, alguns momentos depois de deitada o invisível apareceu-lhe e lhe apresentou um castiçal e um livro de preces semelhante ao que costumava utilizar, dizendo-lhe que, apesar da punição que ela bem merecera, não devia esquecer de cumprir seu dever. Então ela se levantou, fez o que lhe era ordenado e, tão logo terminada a prece, tudo desapareceu.
Na manhã do dia seguinte, depois de ter-me abraçado, X perguntou-me se o castiçal que se encontrava sobre a mesa num andar acima de seu quarto tinha sido retirado. Ora, esse castiçal, semelhante ao que lhe havia sido apresentado na véspera, não tinha mudado de lugar, assim como o seu livro de preces.
4 de junho de 1855.
Desde algum tempo nenhum fato chamou a atenção, a não ser o seguinte. Eu estava resfriada nestes últimos dias. Antes de ontem tuas irmãs estavam ocupadas e eu não dispunha de ninguém para mandar comprar uma pomada peitoral. Disse a X que quando ela tivesse acabado sua tarefa fosse procurar alguma coisa na farmácia mais próxima. Ela esqueceu minha recomendação e eu mesma não pensei mais nisso. Estou certa de que ela não saiu, nem deixou o trabalho senão para ir buscar uma sopeira de que necessitávamos. Grande foi sua surpresa ao retirar-lhe a tampa e encontrar um pacote de pastilhas de cevada que o invisível havia trazido e ali depositado, a fim de poupar-me de uma caminhada e, também, para satisfazer meu desejo, que havia sido esquecido.
*** Evocamos esse Espírito numa das sessões da Sociedade e lhe dirigimos as perguntas que se seguem. O Sr. Adrien o viu sob o aspecto de um menino de dez a doze anos: bela cabeça, cabelos negros e ondulados, olhos negros e vivos, tez pálida, boca zombeteira, caráter leviano, mas bondoso. O Espírito disse não saber muito bem por que o evocavam.
Nosso correspondente, que estava presente à reunião, disse que eram exatamente esses os traços pelos quais a mocinha em várias circunstâncias o descreveu.
1. Ouvimos contar a história de tuas manifestações numa família de Bayonne e desejaríamos fazer-te algumas perguntas.
Resp. – Fazei-as e eu responderei. Mas fazei logo, pois estou com pressa e quero ir embora.
2. Onde apanhaste o dinheiro que davas à menina?
Resp. – Tirei da bolsa dos outros. Bem compreendeis que eu não iria me divertir a cunhar moedas. Tomo daqueles que podem dar.
3. Por que te ligaste àquela garota?
Resp. – Grande simpatia.
4. É verdade que foste seu irmão, que morreu com quatro anos de idade?
Resp. – Sim.
5. Por que eras visível a ela e não à sua mãe?
Resp. – Minha mãe deve estar privada de ver-me, mas minha irmã não tinha necessidade de castigo. Aliás, foi com permissão especial que lhe apareci.
6. Poderias explicar como te tornas visível ou invisível à vontade?
Resp. – Não sou bastante elevado e estou muito preocupado com o que me atrai para responder a essa pergunta.
7. Se quisesses, poderias aparecer em nosso meio, assim como te mostraste à vendedora do armarinho?
Resp. – Não.
8. Nesse estado, serias sensível à dor, se te batessem?
Resp. – Não.
9. O que aconteceria se a vendedora te houvesse batido?
Resp. – Ela não teria encontrado senão o vácuo.
10. Sob que nome podemos chamar-te quando falarmos de ti?
Resp. – Chamai-me de louquinho, se quiserdes. Deixai-me, é preciso que eu vá embora.
11. [A São Luís]: Seria útil que tivéssemos às nossas ordens um Espírito assim?
Resp. – Tende-os freqüentemente junto de vós, assistindo-vos sem que o suspeiteis.
CONSIDERAÇÕES SOBRE O LOUQUINHO DE BAYONNE Se compararmos esses fatos com os de Bergzabern, dos quais nossos leitores certamente não perderam a lembrança, veremos uma diferença capital. O de Bergzabern era mais que um Espírito batedor; era, e ainda o é até hoje, um Espírito perturbador em toda a acepção do termo. Sem fazer o mal, é um hóspede muito incômodo e muito desagradável, do qual falaremos em nosso próximo número, tendo em vista as suas novas e recentes proezas.
O de Bayonne, ao contrário, é eminentemente benévolo e cortês; é o tipo desses Espíritos bons serviçais, cujos feitos nos são narrados nas lendas alemãs, nova prova de que nas histórias lendárias pode haver um fundo de verdade. Convenhamos, aliás, que a imaginação pouca coisa teria a fazer para colocar esses fatos no âmbito de uma lenda, os quais poderiam ser tomados como uma história da Idade Média, se não se passassem, por assim dizer, aos nossos olhos.
Um dos traços mais salientes do Espírito a quem demos o nome de louquinho de Bayonne são as suas transformações. O que se dirá, agora, da fábula de Proteu? Entre os Espíritos de Bayonne e de Bergzabern há ainda a diferença de que este último somente se mostrou em sonhos, enquanto nosso pequeno duende tornava-se visível e tangível qual se fora uma pessoa real, não apenas à sua irmã, mas, também, às pessoas estranhas: testemunha-o a compra dos botões na loja de armarinhos. Por que não se mostrava a todos e em qualquer hora?
É o que não sabemos; parece que não tinha esse poder e nem mesmo podia permanecer por longo tempo em tal estado. Talvez necessitasse, para isso, de um trabalho íntimo, um poder de vontade acima de suas forças.
Novos detalhes nos foram prometidos acerca desses estranhos fenômenos; a eles voltaremos em momento oportuno.