Frenologia Espiritualista e Espírita – Perfectibilidade da Raça Negra
Evidentemente, não. Uma única solução é possível: a preexistência da alma, sua anterioridade ao nascimento do corpo, o desenvolvimento adquirido conforme o tempo vivido e as várias migrações percorridas. Unindo-se ao corpo, a alma traz, pois, o que adquiriu, suas qualidades boas ou más. Daí as predisposições instintivas, de onde se pode dizer com certeza que aquele que nasceu poeta já cultivou a poesia; que o que nasceu músico cultivou a música; o que nasceu celerado, já foi mais celerado. Tal é a fonte das faculdades inatas que produzem, nos órgãos afetados à sua manifestação, um trabalho interior, molecular, que provoca o seu desenvolvimento. Isto nos conduz ao exame da importante questão da inferioridade de certas raças e de sua perfectibilidade. Antes de mais, admitamos como princípio que todas as faculdades, todas as paixões, todos os sentimentos, todas as aptidões estão em a Natureza; que são necessárias à harmonia geral, posto que Deus nada faz de inútil; que o mal resulta do abuso, assim como da falta de contrapeso e de equilíbrio entre as diversas faculdades. Porque as faculdades não se desenvolvem simultaneamente, resulta que o equilíbrio não pode se estabelecer senão com o tempo; que essa falta de equilíbrio produz os homens imperfeitos, nos quais o mal domina momentaneamente. Tomemos para exemplo o instinto da destruição. Ele é necessário porque na Natureza é preciso que tudo seja destruído para se renovar. Por isso todas as espécies vivas são, ao mesmo tempo, agentes destruidores e reprodutores. Mas o instinto de destruição isolado é um instinto cego e brutal; impera entre os povos primitivos, entre os selvagens cuja alma ainda não adquiriu qualidades reflexivas próprias a regular a destruição em justa medida. Numa única existência, poderá o selvagem adquirir as qualidades que lhe faltam? Seja qual for a educação que lhe derdes desde o berço, dele fareis um São Vicente de Paulo, um sábio, um orador, um artista? Não; é materialmente impossível. E, no entanto, o selvagem tem uma alma. Qual a sorte dessa alma depois da morte? É punida pelos atos bárbaros que ninguém reprimiu? É colocada em igualdade com o homem de bem? Um não é mais racional que o outro. É, então, condenada a ficar eternamente num estado misto, que nem é felicidade, nem infelicidade? Isto não seria justo, porque se ela não é mais perfeita, não dependeu dela. Só podeis sair deste dilema admitindo a possibilidade de progresso. Ora, como pode a alma progredir, a não ser tendo novas existências? Dir-se-á que poderá progredir como Espírito, sem voltar à Terra. Mas, então, por que nós, civilizados, esclarecidos, nascemos na Europa e não na Oceania? em corpos brancos, ao invés de corpos negros? Por que um ponto de partida tão diferente, se só se progride como Espírito? Por que Deus nos liberou da longa rota percorrida pelos selvagens? Seriam nossas almas de natureza diversa das suas? Por que tentar torná-los cristãos? Se os tornais cristãos, é que os olhais como vosso igual perante Deus. E se é vosso igual perante Deus, por que Deus vos concede privilégios? Por mais que façais, não chegareis a nenhuma solução, a menos que admitais para nós um progresso anterior e para os selvagens um progresso ulterior. Se a alma do selvagem deve progredir posteriormente, é que nos alcançará; se progredimos anteriormente, é que fomos selvagens, pois se for diferente o ponto de partida, não haverá mais justiça, e se Deus não for justo, já não será Deus. Eis, pois, forçosamente, duas existências extremas: a do selvagem e a do homem ultracivilizado; mas, entre esses dois extremos, não haverá nenhum ponto intermediário? Segui a escala dos povos e vereis que é uma corrente ininterrupta, sem solução de continuidade. Ainda uma vez, todos esses problemas são insolúveis sem a pluralidade das existências. Dizei que os zelandeses renascerão num povo um pouco menos bárbaro, e assim por diante até a civilização, e tudo se explica; que se, em vez de seguir os degraus da escala os transpuser de um salto e chegar sem transição entre nós, dará o hediondo espetáculo de um Dumollard, que para nós é um monstro e que nada teria apresentado de anormal entre os povos da África central, de onde talvez tenha saído. É assim que, ao nos restringirmos numa existência única, tudo é obscuridade, tudo é problema sem saída, ao passo que com a reencarnação, tudo é claridade, tudo é solução. Voltemos à frenologia. Ela admite órgãos especiais para cada faculdade e julgamos que esteja certa. Mas vamos mais longe. Vimos que cada órgão cerebral é formado de um feixe de fibras; pensamos que cada fibra corresponda a uma nuança de faculdade. Isto não passa de uma hipótese, é verdade, mas que poderá abrir caminho a novas observações. O nervo auditivo recebe os sons e os transmite ao cérebro. Mas se o nervo é homogêneo, como percebe sons tão variados? É, pois, lícito admitir que cada fibra nervosa é afetada por um som diferente, com o qual, de certo modo, vibra em uníssono, como as cordas de uma harpa. Todos os tons estão na Natureza. Imaginemos uma centena deles, do mais agudo ao mais grave. O homem que possuísse cem fibras correspondentes os perceberia a todos; o que só possuísse a metade, não perceberia senão a metade dos sons, pois os outros lhe escapariam e deles não teria nenhuma consciência. Dá-se o mesmo com as cordas vocais para exprimir os sons, com as fibras ópticas para a percepção das diversas cores, com as fibras olfativas para registrar todos os odores. O mesmo raciocínio pode aplicar-se aos órgãos de todos os gêneros de percepções e de manifestações. Todos os corpos animados encerram, incontestavel-mente, o princípio de todos os órgãos; uns, porém, em certos indivíduos, se acham num estado de tal forma rudimentar que não são susceptíveis de desenvolvimento; é exatamente como se não existissem. Assim, nessas pessoas, não pode haver percepções nem manifestações correspondentes a esses órgãos; numa palavra elas são, para tais faculdades, como os cegos em relação à luz e os surdos para a música. O exame frenológico dos povos pouco inteligentes constata a predominância das faculdades instintivas e a atrofia dos órgãos da inteligência. Aquilo que é excepcional nos povos avançados é a regra em certas raças. Por quê? Será uma injusta preferência? Não; é sabedoria. A Natureza é sempre previdente; nada faz de inútil. Ora, seria inútil dar um instrumento completo a quem não tenha os meios para dele se servir. Os Espíritos selvagens são ainda crianças, se assim podemos nos exprimir. Neles muitas faculdades ainda estão latentes. O que faria o Espírito de um hotentote no corpo de um Arago? Seria como alguém que nada sabe de música diante de um piano excelente. Por uma razão inversa, o que faria o Espírito Arago no corpo de um hotentote? Seria como Liszt diante de um piano contendo apenas algumas cordas desafinadas, das quais o seu talento não conseguiria jamais tirar sons harmoniosos. Arago entre os selvagens, com todo o seu gênio, será tão inteligente quanto o pode ser um selvagem, e nada mais; jamais será, numa pele negra, membro do Instituto. Seu Espírito induziria o desenvolvimento dos órgãos? Órgãos fracos, sim; órgãos rudimentares, não22. A Natureza, portanto, apropriou os corpos ao grau de desenvolvimento dos Espíritos que neles devem encarnar; eis por que os corpos das raças primitivas possuem menos cordas vibrantes que os das raças adiantadas. Há, pois, no homem dois seres bem distintos: o Espírito, ser pensante; o corpo, instrumento das manifestações do pensamento, mais ou menos completo, mais ou menos rico em cordas, conforme as necessidades. Chegamos agora à perfectibilidade das raças. Por assim dizer, essa questão é resolvida pela precedente: apenas temos que deduzir algumas conseqüências. Elas são perfectíveis para o Espírito que se desenvolve através de suas várias migrações, em cada uma das quais adquire pouco a pouco as faculdades que lhe faltam; mas, à proporção que essas faculdades se ampliam, necessita de um instrumento apropriado, como uma criança que cresce precisa de roupas maiores. Ora, sendo insuficientes os corpos constituídos para o seu estado primitivo, necessitam encarnar em melhores condições, e assim por diante, à medida que progridem. Assim, as raças são perfectíveis pelo corpo, pelo cruzamento com raças mais aperfeiçoadas, que trazem novos elementos, aí enxertando, por assim dizer, os germes de novos órgãos. Esse cruzamento se faz pelas migrações, as guerras e as conquistas. Sob esse ponto de vista, há raças, como há famílias, que se abastardam, se não misturarem sangues diversos. Então não se pode dizer que haja raça primitiva pura, porquanto, sem cruzamento, essa raça será sempre a mesma, pois seu estado de inferioridade se prende à sua natureza; degenerará, em vez de progredir, o que resultará no seu desaparecimento, ao cabo de certo tempo. Diz-se a respeito dos negros escravos: “São seres tão brutos, tão pouco inteligentes, que seria trabalho perdido querer instrui-los. É uma raça inferior, incorrigível e profundamente incapaz.” A teoria que acabamos de dar permite encará-los sob outra luz. Na questão do aperfeiçoamento das raças, deve-se sempre levar em conta dois elementos constitutivos do homem: o elemento espiritual e o elemento corporal. É preciso conhecer um e outro, e só o Espiritismo nos pode esclarecer sobre a natureza do elemento espiritual, o mais importante, por ser o que pensa e que sobrevive, enquanto o elemento corporal se destrói.
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Mês Abril
Ano 1862