Capítulo 5
É de um jornal de 13 de junho de 1862 a seguinte narrativa: “A Srta. Palmira, modista, residia com os pais. Era dotada de um físico encantador, ao qual se aliava um caráter muito amável. Por isso, era muito assediada com propostas de casamento. Entre os aspirantes à sua mão, havia preferido o Sr. B..., que por ela nutria viva paixão. Embora o amasse muito, mas premida pelo respeito filial, julgou-se no dever de ceder à vontade dos pais, de desposar o Sr. D..., cuja posição social lhes parecia mais vantajosa que a do rival. O casamento foi celebrado há quatro anos. Os Srs. B... e D... eram amigos íntimos. Conquanto não tivessem nenhum interesse comum, não deixaram de se ver. O amor recíproco do Sr. B... e de Palmira, transformada na Sra. D..., não havia diminuído e, como se esforçassem por reprimi-lo, ele aumentava cada vez mais, em razão da própria violência que lhe faziam. Para tentar apagá-lo, B... decidiu casar-se. Desposou uma jovem de excelentes qualidades e fez todo o possível para amá-la. Mas não tardou a perceber que esse meio heroico era impotente para o curar. Todavia, durante quatro anos, nem B... nem a Sra. D... faltaram aos seus deveres. Impossível descrever o que eles sofreram, porquanto D..., que estimava verdadeiramente o seu amigo, o atraía sempre para a sua casa e, quando ele queria retirar-se, insistia para que ficasse. Os dois amantes, aproximados um dia por circunstâncias fortuitas e independentes da própria vontade, deram-se ciência do mal que os torturava e acharam que a morte era, no caso, o único remédio aos males que experimentavam. Combinaram que se suicidariam juntamente, no dia seguinte, em que o Sr. D... estaria ausente de casa por tempo mais prolongado. Feitos os últimos preparativos, escreveram longa e tocante carta, explicando a causa da sua resolução: não faltar a seus deveres conjugais. Essa carta terminava pedindo que lhes perdoassem e, mais, para serem enterrados na mesma sepultura. De regresso a casa, o Sr. D... encontrou-os asfixiados. Respeitou-lhes os últimos desejos, providenciando para que os corpos não fossem separados no cemitério.”⁷⁹ Sendo esta ocorrência submetida à Sociedade de Paris, como assunto de estudo, um Espírito respondeu: “Os dois amantes que se suicidaram não vos podem responder ainda. Eu os vejo. Estão mergulhados na perturbação e assustados pela perspectiva da eternidade. As consequências morais da falta cometida lhes pesarão por migrações sucessivas, durante as quais suas almas separadas se buscarão incessantemente, sofrendo o duplo suplício de se pressentirem e de se desejarem em vão. Terminada a expiação, ficarão reunidos para sempre, no seio do amor eterno. Dentro de oito dias, na próxima sessão, podereis evocá-los. Eles aqui virão sem se avistarem; uma noite profunda os oculta do outro por muito tempo.”
TAG Valor
Parte Segunda
Nome do Capítulo Suicidas
Tema Duplo suicídio, por amor e por dever