Capítulo 38
— “Quando encarnados, na Crosta — observa Sertório, em MISSIONÁRIOS DA LUZ —, não temos bastante consciência dos serviços realizados durante o sono físico; contudo, esses trabalhos são inexprimíveis e imensos. Se todos os homens prezassem seriamente o valor da preparação espiritual, diante de semelhante gênero de tarefa, certo efetuariam as conquistas mais brilhantes, nos domínios psíquicos, ainda mesmo quando ligados a envoltórios inferiores. Infelizmente, porém, a maioria se vale, inconscientemente, do repouso noturno para sair à caça de emoções frívolas ou menos dignas. Relaxam-se as defesas próprias e certos impulsos, longamente sopitados durante a vigília, extravasam em todas as direções, por falta de educação espiritual, verdadeiramente sentida e vivida.” Ouçamos agora Aulus, em NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE: — “Raros Espíritos encarnados conseguem absoluto domínio de si próprios, em romagens de serviço edificante fora do carro de matéria densa. Habituados à orientação pelo corpo físico, ante qualquer surpresa menos agradável, na esfera de fenômenos inabituais, procuram instintivamente o retorno ao vaso carnal, à maneira do molusco que se refugia na própria concha, diante de qualquer impressão em desacordo com os seus movimentos rotineiros.” Aliás, seria bom reler todo o capítulo 11 — “Desdobramento em serviço”, dessa obra, tanto quanto o capítulo 21 — “Desdobramento”, de MECANISMOS DA MEDIUNIDADE, que estuda o sono, o sonho e o desdobramento espiritual. Vejamos, por exemplo, esta observação, já nos parágrafos finais do capítulo: “É imperioso notar, porém, que considerável número de pessoas, principalmente as que se adestraram para esse fim, efetuam incursões nos planos do Espírito, transformando-se, muitas vezes, em preciosos instrumentos dos Benfeitores da Espiritualidade, como oficiais de ligação entre a esfera física e a esfera extrafísica”. Não faltam, pois, advertências muito pormenorizadas sobre a responsabilidade do trabalho que se realiza nas chamadas horas “mortas” da noite. Do ponto de vista do espírito, não resta dúvida de que são mais vivas, essas horas, do que as de vigília. Insistimos, pois, em enfatizar que o assunto merece cuidadoso estudo, profundas meditações e cautelosa aplicação prática, pois as responsabilidades envolvidas são enormes. Por outro lado, não nos deve atemorizar o vulto de tais responsabilidades. André Luiz assegura-nos que podemos ser adestrados para essa atividade, com real proveito para o nosso trabalho e, logicamente, para o nosso desenvolvimento espiritual. Cautela, sim; temor, não, O temor paralisa, imobiliza os esforços, na ansiosa expectativa. É preciso vencer a inibição inicial e caminhar. A prece será sempre boa conselheira, a par de recomendações óbvias, que ressaltam dos textos que examinamos aqui, e de outros que o leitor descobrirá: vigilância com os próprios hábitos diários, cuidado com a alimentação, atenção com a saúde do corpo físico, desejo de aprender, para servir melhor. Antes de encerrar estas notas, uma observação ainda parece oportuna e necessária. Com frequência, nossos médiuns contam-nos episódios em que participaram de trabalhos no plano espiritual, nos quais funcionaram como médiuns, também lá, desdobrados. Isso é perfeitamente possível e tem o decidido suporte da experiência. Em casos de meu conhecimento, nossos médiuns compareceram a reuniões de instrução e funcionaram mediunicamente, transmitindo mensagens de outros planos, sempre que para isto se prepararam devidamente. É possível, porém, um desdobramento, depois de já desdobrado do corpo físico, ou separado dele definitivamente, pela desencarnação? Não temos o direito de pôr sob suspeita o testemunho de alguns companheiros de confiança, como, por exemplo, André Luiz, em NOSSO LAR, capítulo 36 — “O Sonho”, ao encontrar-se em plano muito elevado, em companhia do luminoso Espírito de sua mãe: “O sonho não era propriamente qual se verifica na Terra. Eu sabia, perfeitamente, que deixara o veículo inferior no apartamento das Câmaras de Retificação, em Nosso Lar , e tinha absoluta consciência daquela movimentação em plano diverso. Minhas noções de espaço e tempo eram exatas. A riqueza de emoções, por sua vez, afirmava-se cada vez mais intensa.” Disso tudo podemos sumarizar uma observação final: a maior parte do trabalho mediúnico, não é a que se realiza em torno da mesa, no dia da sessão; é a que se desdobra para além dos nossos grosseiros sentidos físicos, enquanto nosso corpo repousa. Aqui e ali, em modestas posições de meros aprendizes, participamos de tais atividades. Tenhamos cuidado para não comprometê-los com o nosso despreparo e a nossa incúria. Aproximemo-nos com respeito da hora em que nos preparamos para adormecer, cansados das lutas do dia. Os companheiros que nos estão esperando podem ser aqueles que nos arrastam para os porões escuros do desvario, ou os que nos guiam os passos incertos nas trilhas do bem. Depende de nós a decisão: vamos pela escura e tortuosa viela que desce, ou preferimos a estrada que sobe, reta e iluminada?
TAG Valor
Nome do Capítulo Sonhos e desdobramentos
Parte Quarta