Apresenta-se o momento de ler a carta de nosso mestre a Vitet (carta citada acima); toma-a e, depois de lê-la, observa reconhecer nela uma voz digna dos primeiros Pais da Igreja; que jamais foi pregada mais bela moral em mais bela linguagem.
“Vinte testemunhas foram unânimes quanto à veracidade dos transportes; nenhum manifestou a mais leve suspeita. Daí a declaração de incompetência do tribunal. Somente Vitet e seu criado Muson contestaram a marcha miraculosa; mas no mesmo instante lhes foi contraposto os autos do depoimento, redigido nesse mesmo dia por Vitet, escrito do próprio punho e trazendo a sua e a assinatura de Muson. Dois membros de nossa sociedade foram ouvidos. O presidente não temeu, por causa de seus depoimentos, provocar discussão sobre certos pontos da doutrina; um e outro responderam perfeitamente e venceram, para satisfação de todos os espíritas.
“O advogado de Hillaire foi muito breve – e nem podia deixar de ter sido – no que se referia especialmente ao chefe da acusação. Mas sobre a doutrina, os seus ensinamentos, as suas conseqüências, os seus progressos no mundo; sobre a perseverança desses homens da localidade, pelo menos, dizia ele, nossos iguais em ciência, em inteligência, em moralidade, em posição social; sobre os fatos publicados diariamente na imprensa; sobre a multiplicidade das obras, dos jornais especiais, ele sempre falou com eloqüência e convicção. Seu último golpe foi a leitura de uma carta do Sr. Jaubert. Nessa carta o citado senhor refere que ele mesmo e seus amigos, ocupando-se de manifestações físicas, viram e viram bem, tanto à luz das lâmpadas quanto à luz do dia, fatos análogos aos obtidos por Hillaire, dos quais dá conta nos mínimos detalhes. Essa leitura, seguida em tom solene da profissão de fé do próprio Sr. Jaubert, magistrado, vice-presidente com funções no tribunal civil da capital de um Departamento, comoveu todo o auditório. (O Journal de Saint-Jean d’Angely, de 12 de fevereiro, analisa essa notável defesa. Ver também a Revue de l’Ouest, de Niort, de 18 de fevereiro).
“Em seu requisitório, o ministério público difama o acusado. Quanto aos fatos das manifestações, explica-os por meios vulgares; cada um, diz ele, pode produzi-los em seus salões à vontade, com a maior facilidade: basta a menor habilidade. Cita fatos mediúnicos históricos, para os quais conclui pela alucinação.
No que concerne à doutrina, sempre foi digno e respeitoso para com os sectários dedicados. Sobretudo aplaudiu calorosamente a coragem, a sinceridade e a boa-fé das testemunhas que vieram afirmar sua crença, sem serem detidas nem pelo temor dos sarcasmos e das piadas, nem por seus interesses materiais, que com isto podem ser prejudicados.”
O Espiritismo não apenas saiu incólume desta prova, como dela saiu com as honras da guerra. É verdade que o julgamento não proclamou absolutamente a realidade das manifestações de Hillaire, mas as pôs fora de causa por sua declaração de incompetência; por isto mesmo não as declarou fraudulentas. Quanto à doutrina, ali obteve um notável sufrágio.
Para nós é o ponto essencial, porque o Espiritismo está menos nos fenômenos materiais do que em suas conseqüências morais. Pouco nos importa que neguem fatos, constatados diariamente em todos os pontos da Terra. Não está longe o dia em que todos serão forçados a se renderem à evidência; o principal é que a doutrina daí resultante seja reconhecida como digna do Evangelho, sobre o qual se apóia. Certamente o sr. juiz substituto não é espírita; ao que saibamos, o presidente também não o é. Mas estamos felizes por constatar que sua opinião pessoal nada retira à sua imparcialidade.
Os elogios feitos às testemunhas são uma homenagem brilhante prestada à coragem da opinião e à sinceridade das crenças.
Devíamos a esses firmes sustentáculos de nossa fé um testemunho especial. Apressamo-nos em o dar, por meio da mensagem seguinte, que lhes remetemos: Paris, 21 de janeiro de 1865.
Do Sr. Allan Kardec aos espíritas devotados no caso Hillaire.
Caros irmãos em Espiritismo, Venho, em meu nome pessoal e no da Sociedade Espírita de Paris, pagar um justo tributo de elogios a todos quantos, na triste circunstância que nos afligiu, sustentaram sua fé e defenderam a verdade com coragem, dignidade e firmeza. Um brilhante e solene testemunho lhes foi prestado pelos órgãos da justiça; o de seus irmãos em crença não lhes podia faltar. Pedi a sua lista, tão exata e completa quanto possível, a fim de inscrever seus nomes ao lado dos que bem mereceram do Espiritismo. Não é para lhes conferir uma publicidade que lhes feriria a modéstia e que, aliás, na hora que passa, é mais prejudicial do que útil; mas nosso século está tão preocupado que é esquecido. É preciso que a memória dos devotamentos verdadeiros, puros de qualquer pensamento preconcebido de interesse, não se perca para os que vierem depois de nós. Os arquivos do Espiritismo lhes dirão os que têm direito legítimo ao seu reconhecimento.
Aproveito esta ocasião, caros irmãos, para me entreter um instante convosco a respeito do que nos preocupa.
À primeira vista, podiam temer-se as conseqüências deste caso para o Espiritismo. Como o sabeis, jamais me inquietei com ele, porque, em todo o caso, não podia produzir senão uma emoção local e momentânea; porque a nossa doutrina, assim como a religião, não pode ser responsabilizada pelas faltas dos que não a compreendem. É em vão que os nossos adversários se esforçam em apresentá-la como nociva e imoral; seria necessário provar que ela provoque, desculpe ou justifique um só ato repreensível, ou que ao lado de seus ensinos ostensivos, ela os tenha secretos, sob os quais a consciência possa abrigar-se. Mas como no Espiritismo tudo se passa à luz do dia e ele não prega senão a moral do Evangelho, à prática da qual tende a conduzir os homens que dela se afastam, só uma intenção malévola lhe poderia imputar tendências perniciosas. Levando-se em conta que cada um pode julgar por si mesmo os seus princípios, altamente proclamados e claramente formulados em obras ao alcance de todos, só a ignorância ou a má-fé os podem desnaturar, como fizeram com os primeiros cristãos, acusados de todas as desgraças e de todos os acidentes que se sucediam em Roma, e de corromper os costumes.
Com o Evangelho na mão, o Cristianismo só podia sair vitorioso de todas essas acusações e da luta terrível investida contra ele.
Assim se dá com o Espiritismo, que também tem como bandeira o Evangelho. Para sua justificação, basta-lhe dizer: Vede o que ensino, o que recomendo e o que condeno. Ora, o que é que condeno?
Todo ato contrário à caridade, que é a lei ensinada pelo Cristo.
O Espiritismo não está apenas na crença na manifestação dos Espíritos. O erro dos que o condenam é crer que só consista na produção de fenômenos estranhos, e isto porque, não se dando ao trabalho de estudá-lo, só lhe vêem a superfície.
Esses fenômenos só são estranhos para os que lhes não conhecem a causa. Mas, quem quer que os aprofunde, neles não vê senão os efeitos de uma lei, de uma força da Natureza que não se conhecia e que, por isto mesmo, não são maravilhosos, nem sobrenaturais.
Esses fenômenos provam a existência dos Espíritos, que mais não são que as almas dos que viveram, provando, por conseguinte, a existência da alma, sua sobrevivência ao corpo, a vida futura com todas as suas conseqüências morais. A fé no futuro, assim apoiada em provas materiais, torna-se inabalável e triunfa sobre a incredulidade. Daí por que, quando o Espiritismo tornar-se crença de todos, não haverá mais incrédulos, nem materialistas, nem ateus.
Sua missão é combater a incredulidade, a dúvida, a indiferença; não se dirige aos que têm uma fé, e a quem esta fé é suficiente, mas aos que em nada crêem, ou que duvidam. Não diz a ninguém que deixe a sua religião; respeita todas as crenças, quando sinceras. Aos seus olhos a liberdade de consciência é um direito sagrado; se não a respeitasse, faltaria ao seu primeiro princípio, que é a caridade.
Neutro entre todos os cultos, será o laço que os reunirá sob uma mesma bandeira – o da fraternidade universal. Um dia eles se darão as mãos, em vez de se anatematizarem.
Longe de serem a parte essencial do Espiritismo, os fenômenos não passam de um acessório, um meio suscitado por Deus para vencer a incredulidade, que invade a sociedade; ele está, sobretudo, na aplicação de seus princípios morais. É nisto que se reconhecem os espíritas sinceros. Os exemplos de reforma moral provocada pelo Espiritismo já são bastante numerosos para que se possa julgar dos resultados que produzirá com o tempo. É preciso que sua força moralizadora seja bem grande para triunfar sobre os hábitos inveterados pela idade, e da leviandade da juventude.
O efeito moralizador do Espiritismo tem, pois, por causa primeira o fenômeno das manifestações, que deu a fé. Se esses fenômenos fossem uma ilusão, como o pretendem os incrédulos, seria preciso abençoar uma ilusão que dá ao homem a força de vencer as más inclinações.
Mas, se ainda se vêem, depois de dezoito séculos, tanta gente que professa o Cristianismo e o pratica tão pouco, é de admirar que em menos de dez anos todos os que crêem no Espiritismo dele não tenham tirado o proveito desejável? Nesse número, há os que apenas viram o fato material das manifestações, nos quais foi mais excitada a curiosidade do que tocado o coração.