Ensaio Sobre a Teoria da Alucinação
Tal como é, nossa explicação dá a razão de todos os casos de visão? Certamente, não, e desafiamos todos os fisiologistas a que dêem uma só, de seu ponto de vista exclusivo, que resolva a todos. Se, então, todas as teorias da alucinação são insuficientes para explicar todos os fatos, é que existe outra coisa além da alucinação propriamente dita, e esse algo não encontra sua solução senão na teoria espírita, que a todos abrange. Com efeito, se se examina com cuidado certos casos de visões muito freqüentes, ver-se-á que é impossível atribuir-lhes a mesma origem que a alucinação. Procurando dar a esta uma explicação plausível, quisemos mostrar em que ela difere da aparição. Num e noutro caso, é sempre a alma que vê, e não os olhos. No primeiro, ela vê uma imagem interior e no segundo uma coisa externa, se assim nos podemos exprimir. Quando uma pessoa ausente, na qual absolutamente não pensamos, e que julgamos com saúde se apresenta espontaneamente quando estamos perfeitamente despertos e vem revelar particularidades de sua morte, ocorrida naquele mesmo instante e da qual, conseqüentemente, não se podia ter conhecimento, tal fato não poderá ser atribuído a uma lembrança, nem à preocupação do espírito. Supondo se tenham tido apreensões sobre a vida dessa pessoa, restaria ainda por explicar a coincidência do momento da morte com a aparição e, sobretudo, as circunstâncias da morte, coisa que não se pode conhecer, nem prever. Pode-se, pois, classificar entre as alucinações as visões fantásticas, que nada têm de real, mas o mesmo não se dá com as que revelam atualidades positivas, confirmadas pelos acontecimentos. Explicá-las pelas mesmas causas seria absurdo e mais absurdo ainda atribuí-las ao acaso, esta suprema razão dos que nada têm a dizer. Só o Espiritismo lhes pode dar a razão, pela dupla teoria do perispírito e da emancipação da alma. Mas como crê na ação da alma, quando não se admite a sua existência? Não levando em nenhuma conta o elemento espiritual, a Ciência se acha impotente para resolver uma multidão de fenômenos e cai no absurdo ao querer tudo referir ao elemento material. É principalmente em Medicina que o elemento espiritual desempenha um papel importante; quando os médicos o levarem em consideração, enganar-se-ão com menos freqüência do que agora. Aí extrairão uma luz que os guiará mais seguramente no diagnóstico e no tratamento das doenças. É o que já se pode constatar desde o presente na prática dos médicos espíritas, cujo número aumenta dia a dia. Tendo a alucinação uma causa fisiológica, estamos certos de que encontrarão o meio de a combater. Conhecemos um que, graças ao Espiritismo, está a caminho de descobertas do mais alto alcance, porque lhe deu a conhecer a verdadeira causa de certas afecções rebeldes à Medicina materialista. O fenômeno da aparição pode produzir-se de duas maneiras: ou é o Espírito que vem encontrar a pessoa que vê, ou é o Espírito desta que se transporta e vai encontrar a outra. Os dois exemplos seguintes nos parecem caracterizar perfeitamente ambos os casos. Um de nossos colegas nos contava, recentemente, que um oficial seu amigo, estando na África, de repente viu à sua frente o quadro de um cortejo fúnebre: era o de um de seus tios, que residia na França, e que ele não via há muito tempo. Viu distintamente toda a cerimônia, desde a saída da casa mortuária até a igreja e o transporte ao cemitério. Chegou a notar diversas particularidades, das quais não podia ter idéia. Nesse momento estava desperto e, entretanto, num certo estado de absorção, do qual só saiu quando tudo desapareceu. Chocado com a circunstância, escreveu para a França, a fim de obter notícias do tio e soube que este, tendo morrido subitamente, havia sido enterrado no dia e hora em que ocorrera a aparição e com as particularidades que tinha visto. É evidente que, neste caso, não foi o cortejo que veio encontrá-lo; ele é que foi encontrar o cortejo, do qual teve percepção por efeito da segunda vista. Um médico do nosso conhecimento, o Sr. Félix Mallo, tinha tratado de uma jovem senhora; mas, julgando que o ar de Paris lhe era prejudicial, aconselhou-a a ir passar algum tempo com a família, na província, o que ela fez. Havia seis meses não tinha mais notícias dela, nem pensava mais no caso quando, uma noite, por volta das dez horas, estando em seu quarto, ouviu bater à porta do consultório. Julgando viessem chamá-lo para um doente, disse que entrasse; mas ficou bastante surpreendido ao ver, à sua frente, a jovem senhora em questão, pálida, vestida como a tinha conhecido e que lhe disse com grande sangue-frio: “Sr. Mallo, venho dizer-vos que morri.” E logo desapareceu. Assegurando-se de que estava bem desperto e de que ninguém havia entrado, o médico tomou informações e soube que a mulher havia morrido na mesma noite em que lhe aparecera. Aqui, foi bem o Espírito da senhora que veio encontrá-lo. Os incrédulos não deixarão de dizer que o médico podia estar preocupado com a saúde de sua antiga doente, e que nada há de surpreendente em que previsse a sua morte; seja. Mas que expliquem a coincidência de sua aparição com o momento da morte, já que há muitos meses o médico não mais ouvira falar dela. Supondo mesmo que tivesse acreditado na impossibilidade de sua cura, poderia prever que ela morresse em tal dia e a tal hora? Devemos acrescentar que ele não é um homem que se deixe abalar pela imaginação. Eis um outro fato não menos característico, e que não poderia ser atribuído a nenhuma previsão. Um dos nossos associados, oficial da marinha, estava no mar, quando viu seu pai e seu irmão atirados debaixo de uma carruagem: o pai morto e o irmão sem haver sofrido nenhum mal. Quinze dias depois, tendo desembarcado na França, seus amigos tentaram prepará-lo para receber a triste notícia. – “Não tomai tantas precauções – disse ele – sei o que ides dizer: Meu pai morreu; há quinze dias que o sei.” Realmente, seu pai e seu irmão, estando em Paris, desciam de carruagem os Campos Elísios; o cavalo assustou-se, o carro quebrou-se, o pai morreu e o irmão apenas sofreu algumas contusões. Esses fatos são positivos, atuais, e não se dirá que sejam lendas da Idade Média. Se cada um recolhesse suas lembranças, ver-se-ia que tais fatos são mais freqüentes do que se imagina. Perguntamos se alguns deles têm os caracteres da alucinação. Pedimos aos materialistas que dêem uma explicação do fato relatado no artigo seguinte.
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Mês Julho
Ano 1861