Os Irmãos Davenport
Assim, resulta da própria essência da mediunidade – e se pode estabelecer como princípio absoluto – que um médium jamais está seguro de obter um efeito determinado qualquer, já que isto não depende dele; afirmar o contrário seria provar completa ignorância dos mais elementares princípios da ciência espírita. Para prometer a produção de um fenômeno a hora certa, é preciso dispor de meios materiais que não vêm dos Espíritos. É este o caso dos irmãos Davenport? Nós o ignoramos. Aos que acompanharam as suas experiências cabe fazer seu julgamento. Falaram de desafios, de entradas para jogos, propostas a quem fizesse as melhores mágicas. Os Espíritos não são fazedores de mágicas e jamais um médium sério entrará em luta com alguém e, ainda menos, com um prestidigitador. Este dispõe de meios próprios; o outro é o instrumento passivo de uma vontade estranha, livre, independente. Se o prestidigitador diz que faz mais que os médiuns, deixai-o fazer. Ele tem razão, pois age infalivelmente; diverte o público: é sua função; vangloria-se: é seu papel; faz a sua propaganda: é uma necessidade da posição. O médium sério, sabendo que não tem nenhum mérito pessoal no que faz, é modesto; não pode envaidecer-se daquilo que não é produto de seu talento, nem prometer o que de si não depende. Contudo, os médiuns fazem algo mais. Por seu intermédio os Espíritos bons inspiram a caridade e a benevolência para com todos; ensinam os homens a se olharem como irmãos, sem distinção de raças nem de seitas, a perdoar aos que lhes dizem injúrias, a vencer as más inclinações, a suportar com paciência as misérias da vida, a encarar a morte sem medo, pela certeza da vida futura; consolam os aflitos, encorajam os fracos e dão esperança aos que não acreditavam. Eis o que não ensinam nem as mágicas dos prestidigitadores, nem as dos Srs. Davenport. Assim, as condições inerentes à mediunidade não poderiam prestar-se à regularidade e à pontualidade, que são a condição indispensável das sessões a hora certa, onde é preciso satisfazer o público, custe o que custar. Se, no entanto, os Espíritos se prestassem a manifestações desse jaez, o que não seria radicalmente impossível, desde que os há de todos os graus possíveis de adiantamento, não poderiam ser, em todo o caso, senão Espíritos de baixa classe, porque seria extremamente absurdo pensar que Espíritos, por pouco elevados que fossem, viessem divertir-se fazendo exibições. Mas, mesmo nesta hipótese, o médium não deixaria de estar à mercê de tais Espíritos, que podem deixá-lo no momento em que sua presença fosse mais necessária, e fazer falhar a representação ou a consulta. Ora, como antes de tudo é preciso contentar o que paga, se os Espíritos faltam, tratam de os dispensar; com um pouco de habilidade é fácil enganar alguém. É o que acontece muitas vezes a médiuns dotados inicialmente de faculdades reais, mas insuficientes para o objetivo que se propõem. De todos os fenômenos espíritas, os que mais se prestam à imitação são os efeitos físicos. Ora, não obstante as manifestações reais tenham um caráter distintivo e só se produzam em condições especiais bem determinadas, a imitação pode chegar perto da realidade, a ponto de iludir as pessoas, sobretudo as que não conhecem as leis dos fenômenos verdadeiros. Mas, pelo fato de se poder imitá-los, seria tão ilógico concluir que não existem, quanto pretender que não há diamantes verdadeiros, porque os há falsos. Não fazemos aqui nenhuma aplicação pessoal; enunciamos os princípios fundados na experiência e na razão, de onde tiramos esta conseqüência: só um exame escrupuloso, feito com perfeito conhecimento dos fenômenos espíritas, pode permitir a distinção entre a trapaça e a mediunidade real. E acrescentamos que a melhor de todas as garantias é o respeito e a consideração que se ligam à pessoa do médium, sua moralidade, sua notória honorabilidade, seu desinteresse absoluto, material e moral. Em tais circunstâncias, ninguém negaria que as qualidades do indivíduo constituem um precedente que impressiona favoravelmente, porque afastam até a suspeita de fraude. Não julgamos os Srs. Davenport e longe de nós pôr em dúvida a sua honorabilidade. Mas, à parte as qualidades morais, de que não temos nenhum motivo para suspeitar, é preciso confessar que eles se apresentam em condições pouco favoráveis para oficializar seu título de médiuns, e que é no mínimo com grande leviandade que certos críticos se apressaram em os qualificar de apóstolos e de sumo-sacerdotes da doutrina. O objetivo de sua viagem à Europa está claramente definido nesta passagem de sua biografia: “Creio, sem cometer erro, que foi no dia 27 de agosto que os irmãos Davenport deixaram Nova Iorque, trazendo em sua companhia, por causa de uma debilidade sobrevinda ao Sr. William Davenport, um ajudante na pessoa do Sr. William Fay, que não deve ser confundido com o Sr. H. Melleville Fay, que, segundo não sei que gênero de autoridade, ao que se diz, foi descoberto no Canadá, tentando produzir manifestações semelhantes, ou, ao menos, que se assemelhavam às dos irmãos americanos. Eram acompanhados pelo Sr. Palmer, muito conhecido como empresário e intermediário no mundo dramático e lírico, e a quem, graças à sua experiência, foi confiada a parte material e econômica do empreendimento.” Está, pois, comprovado que foi uma empresa conduzida por um empresário e intermediário de negócios dramáticos. Os fatos relatados na biografia estão, ao que nos disseram, nas possibilidades mediúnicas; a idade e as circunstâncias em que começaram a manifestar-se afastam o pensamento de embuste. Tudo, pois, tende a provar que esses rapazes eram realmente médiuns de efeitos físicos, como se encontram muitos em seu país, onde a exploração dessa faculdade tornou-se hábito e nada tem de chocante para a opinião pública. Teriam ampliado suas faculdades naturais, como fazem outros médiuns exploradores, para aumentar o seu prestígio e suprir a falta de flexibilidade dessas mesmas faculdades? É o que não podemos afirmar, pois não temos nenhuma prova. Mas, admitindo a integridade de suas faculdades, diremos que se iludiram quanto ao acolhimento que lhe dispensou o público europeu – apresentadas sob forma de espetáculo de curiosidade – e em condições tão contrárias aos princípios do Espiritismo filosófico, moral e religioso. Os espíritas sinceros e esclarecidos, que aqui são numerosos, sobretudo na França, não os podiam aclamar em tais condições, nem os considerar apóstolos, mesmo supondo perfeita sinceridade da parte deles. Quanto aos incrédulos, cujo número também é grande, e que ainda ocupam as primeiras posições na imprensa, a ocasião de exercerem sua verve trocista era muito bela para que a deixassem escapar. Assim, aqueles senhores se expuseram à mais larga crítica, dando a cada um o direito que se espera ao comprar o bilhete de um espetáculo qualquer. Ninguém duvida que se eles se tivessem apresentado em condições mais sérias, outra teria sido a acolhida; teriam fechado a boca dos detratores. Um médium é forte quando pode dizer corajosamente: “Quanto vos custou vir aqui, e quem vos forçou a vir? Deus me deu uma faculdade e pode ma retirar quando lhe aprouver, como me pode tirar a visão ou a palavra. Só a utilizo para o bem, no interesse da verdade, e não para satisfazer a curiosidade ou servir aos meus interesses; dela só recolho o trabalho do devotamento; nem mesmo procuro a satisfação do amor-próprio, pois não depende de mim. Considero-a como uma coisa santa, porque me põe em relação com o mundo espiritual e me permite dar a fé aos incrédulos e consolo aos aflitos. Consideraria como um sacrilégio traficar com ela, porque não me julgo no direito de vender a assistência dos Espíritos, que vêm gratuitamente. Visto que dela não tiro qualquer proveito, não tenho, pois, nenhum interesse em vos iludir.” O médium que assim pode falar é forte, repetimos. É uma resposta irretorquível, e que sempre impõe respeito. Nesta circunstância, a crítica foi mais que maléfica; foi injusta e injuriosa, englobando na mesma reprovação todos os espíritas e todos os médiuns, aos quais não poupou os mais ultrajantes epítetos, sem pensar até que ponto feria e atingia as mais respeitáveis famílias. Não lembraremos expressões que só desonram os que as proferem. Todas as convicções sinceras são respeitáveis; e todos vós, que incessantemente proclamais a liberdade de consciência como um direito natural, ao menos a respeitai nos outros. Discuti as opiniões: é direito vosso; mas a injúria sempre foi o pior dos argumentos, e nunca o de uma boa causa. Nem toda a imprensa é solidária com esses desvios do decoro. Entre os críticos, em relação aos irmãos Davenport, uns há em que o espírito não exclui as conveniências, nem a moderação, e que são justos. A que vamos citar ressalta justamente o lado fraco de que falamos. É tirada do Courrier de Paris du Monde illustré, número de 16 de setembro de 1865, e assinada por Neuter. “Uma primeira objeção parecia-me suficiente para demonstrar que os bons rapazes, que deram uma sessão pública na sala Hertz, eram hábeis nos exercícios aos quais os mundos superiores ficavam completamente estranhos. Tiro esta objeção da própria regularidade com que exploravam seu pretenso poder miraculoso.
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Mês Outubro
Ano 1865