Joana d’Arc e seus Comentadores
“Sinto, disse a propósito o Sr. Quicherat, quanto semelhante interpretação parecerá forte num tempo como o nosso; ao contrário, quão fracos os fragmentos de interrogatório que ponho em oposição; mas quando se tem sob os olhos o processo inteiro, e quando se vê de que maneira a acusada põe sua consciência a descoberto, então é seu testemunho que é forte, e a interpretação dos argumentadores que é fraca. “Deixo, enfim, o próprio Sr. Quicherat contar uma das predições de Joana d’Arc: “Numa de suas primeiras conversas com Carlos VII, ela lhe anunciou que, operando-se a libertação de Orléans, ela seria ferida, mas sem ser posta fora de combate; suas duas santas lho haviam dito e o acontecimento lhe provou que não a tinham enganado. Ela confessa isto em seu quarto interrogatório. Estaríamos reduzidos a esse testemunho, que o cepticismo, sem pôr em dúvida a sua boa-fé, poderia imputar seu dito a uma ilusão de memória; mas o que demonstra que ela efetivamente predisse seu ferimento, é que o recebeu a 7 de maio de 1429, e que a 12 de abril precedente, um embaixador flamengo, que estava na França, escrevia ao governo de Brabant uma carta na qual não só era contada a profecia, mas a maneira por que se realizaria. Joana teve o ombro atravessado por uma flecha de balestra, no assalto do forte de Tourelles, e o enviado flamengo tinha escrito: Ela deve ser ferida por uma flecha num combate diante de Orléans, mas não morrerá. Essa passagem de sua carta foi consignada nos registros da Câmara de contas de Bruxelas. “Um dos sábios cuja opinião eu lembrava há pouco, aquele que faz de Joana d’Arc uma alucinada antes que uma louca, não contesta suas predições e as atribui a uma sorte de impressionabilidade sensitiva, a uma irradiação da força nervosa, cujas leis ainda não são conhecidas. “Estão bem certos de que essas leis existem e que jamais devem ser conhecidas? Enquanto não o forem, não é melhor confessar francamente sua ignorância do que propor tais explicações? Toda hipótese é boa quando se trata de negar a ação da Providência, e a incredulidade dispensa qualquer raciocínio? Não se deveria dizer que, desde a origem dos tempos a imensa maioria dos homens concordou em acreditar na existência de um Deus pessoal que, depois de haver criado o mundo, o dirige e se manifesta quando lhe apraz, por sinais extraordinários? Se fizessem calar um instante o seu orgulho, não ouviriam esse concerto de todas as raças e de todas as gerações? O que é maravilhoso é que se possa ter uma fé tão robusta em si mesmo quando se fala em nome de uma ciência que é a mais incerta e a mais variável de todas, de uma ciência cujos adeptos não cessam de contradizer-se, cujos sistemas morrem e renascem como a moda, sem que jamais a experiência tenha podido arruiná-los ou assentar definitivamente um só deles. Eu diria com muito gosto a esses doutores em patologia: Se encontrardes doenças como a de Joana d’Arc, guardai-vos de as curar; trabalhai muito, antes que se tornem contagiosas. “Mais bem inspirado, o Sr. Wallon não pretendeu conhecer Joana d’Arc melhor do que ela própria. Posto em face da mais sincera das testemunhas, ouviu-a atentamente e votou-lhe inteira confiança. Essa mistura de bom-senso e elevação, de simplicidade e grandeza, essa coragem sobre-humana, realçada ainda por curtos desfalecimentos da natureza, não lhe apareceram como sintomas de loucura ou de alucinação, mas como sinais espetaculares de heroísmo e de santidade. Aí, e não alhures, estava a boa crítica; daí vem que, procurando a verdade, também encontrou a eloqüência e ultrapassou a todos que o tinham precedido nessa via. Merece ser posto à frente desses escritores, dos quais disse excelentemente o Sr. Quicherat: “Eles restituíram Joana tão inteira quanto puderam, e quanto mais se empenhavam em reproduzir a sua originalidade, mais encontravam o segredo de sua grandeza. “O Sr. Quicherat achará muito natural que eu tome suas palavras para caracterizar um sucesso, para o qual ele contribuiu mais que ninguém; porque, se não lhe conveio escrever, ele próprio, a história de Joana d’Arc, doravante é impossível empreendê-lo sem recorrer aos seus trabalhos. O Sr. Wallon, em particular, deles tirou imenso proveito, sem ter quase nunca nada a modificar, nem nos textos recolhidos pelo editor, nem em suas conclusões. Entretanto, não os aceitou sem controle. É assim que aponta uma omissão involuntária, de que se prevaleceu um escritor, que antes se inclina para a alucinação do que para a inspiração de Joana d’Arc. Lê-se na página 216 do Processo (tomo I), que Joana d’Arc estava em jejum no dia em que, pela primeira vez, ouviu a voz do anjo, mas que não tinha jejuado no dia anterior. Na página 52, ao contrário, o Sr. Quicherat tinha impresso: et ipsa Johanna jejunaverat die proecedenti. Suprimindo na página 216 a negação que falta na página 52, tinham-se dois jejuns consecutivos, que pareciam uma causa suficiente de alucinação. O manuscrito não se presta a esta hipótese; o Sr. Wallon constatou que a exatidão habitual do Sr. Quicherat aqui se acha em falta, e que é preciso ler, na página 52, non jejunaverat. “A única discordância um tanto grave que percebo entre os dois autores é quando apreciam os vícios de forma assinalados no processo. O Sr. Quicherat sustenta que Pierre Cauchon era muito hábil para cometer ilegalidades, e o Sr. Wallon o julga muito apaixonado para ter podido se defender. Não estou em condições de decidir esta questão; apenas farei notar que, no fundo, ela tem pouca importância, porque, de um e de outro lado, estão de acordo quanto à iniqüidade do juiz e a inocência da vítima. “Encontro o Sr. Wallon, afirmando com o Sr. Quicherat, contrariamente a uma opinião já antiga, e que ainda conserva partidários, que Carlos VII, uma vez sagrado em Reims, Joana d’Arc ainda não tinha realizado toda a sua missão, porquanto ela própria se tinha anunciado como devendo, além disso, expulsar os ingleses. Deixo deliberadamente de lado a libertação do duque de Orléans, porque é um ponto sobre o qual suas declarações não são tão explícitas. Mas no que concerne à expulsão dos ingleses, tem-se a própria carta que ela lhes dirigiu em 22 de março de 1429: ‘Eu aqui vim por Deus, o rei do céu, corpo por corpo, para vos expulsar de toda a França.’ Seus curtos desfalecimentos nada podem contra esse texto autêntico, confirmado por ela em muitas ocasiões, até que o consagrasse sobre a fogueira, por um protesto supremo. Assim, não sei por que persiste a dúvida, sobretudo no espírito dos que crêem na inspiração de Joana d’Arc. Como podem conhecer sua missão, senão por ela? e por que recusar-lhe aqui a crença que lhe concedem alhures? “Dirão que ela fracassou; portanto, não tinha missão de Deus para o empreender. Tal foi, com efeito, o triste pensamento que se apoderou dos espíritos, quando a souberam prisioneira dos ingleses. Mas o piedoso Gérson, alguns meses antes de morrer, e no seguinte à libertação de Orléans, de certo modo tinha previsto os reveses após a vitória, não como uma desaprovação a Joana d’Arc, mas como castigo para os ingratos que ela vinha defender. Escrevia ele em 14 de maio de 1529: “Ainda mesmo – que Deus não o permita! – que ela se tivesse enganado em sua esperança e na nossa, daí não se devia concluir que o que ela fez vem do espírito maligno e não de Deus; mas antes de atribuir a culpa à nossa ingratidão e ao justo julgamento de Deus, embora secreto... porque Deus, sem mudar de opinião, muda a sentença conforme os méritos. “Ainda aqui o Sr. Wallon fez boa crítica: não divide os testemunhos de Joana d’Arc; ele os aceita todos e os proclama sinceros, mesmo quando não parecem ser proféticos. Acrescento que os justifica plenamente, mostrando que, se tinha a missão de expulsar os ingleses, não prometeu executar tudo por si mesma, mas que começou a obra e predisse a sua conclusão. O Sr. Wallon o sentiu bem. Não é compreender Joana d’Arc glorificá-la em seus triunfos para a renegar em sua paixão. “Sobretudo nós, que conhecemos o desenlace desse drama maravilhoso, nós que sabemos que os ingleses com efeito foram expulsos do reino e a coroa de Reims consolidada na cabeça de Charles VII, devemos crer, com o Sr. Wallon, que Deus jamais deixou de inspirar aquela, cuja grandeza lhe aprouve consagrar pela provação, e a santidade pelo martírio.” – N. de Wailly. O nosso correspondente de Antuérpia, que houve por bem nos enviar o artigo acima, juntou a nota que se segue, oriunda de suas pesquisas pessoais sobre o processo de Joana d’Arc: “Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, e um inquisidor chamado Lemaire, assistidos por sessenta assessores, foram os juízes de Joana. Seu processo foi instruído segundo as formas misteriosas e bárbaras da Inquisição, que havia jurado a sua perda. Ela quis que a decisão do julgamento fosse delegada ao papa e ao Concílio de Basiléia, mas o bispo se opôs. Um padre, L’Oyseleur, a enganou, abusando da confissão, e lhe deu funestos conselhos. Por força de intrigas de toda sorte, ela foi condenada em 1431 a ser queimada viva, ‘como mentirosa, perniciosa, enganadora do povo, adivinha, blasfemadora de Deus, descrente na fé de Jesus-Cristo, vaidosa, idólatra, cruel, dissoluta, invocadora dos diabos, cismática e herética.’
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Mês Dezembro
Ano 1867