Gregório fitou Gúbio, assombrado, à vista de tamanha coragem e, decerto, aproveitando este a transformação psicológica do momento, enunciou com firmeza serena: — Declarou-nos Matilde, a nossa benfeitora, que a tua nobreza não se esvaiu e que as tuas elevadas qualidades de caráter permanecem invioladas, não obstante a direção diferente que imprimiste aos passos; por isto mesmo, identificando-te o valor pessoal, chamo-te de “respeitável” nos apelos que te dirijo. A cólera do sacerdote pareceu amainar-se.
— Não acredito em tuas informações, — acentuou, contrariado, — mas sê claro nas rogativas. Não disponho de tempo para falas inúteis.
— Venerável Gregório, — pediu nosso Instrutor, humilde, — serei breve. Ouve-me com tolerância e bondade. Não ignoras que tua mãe espiritual jamais se esqueceria de Margarida, ameaçada atualmente de loucura e morte, sem razão de ser… Escutando o informe, o hierofante modificou-se visivelmente, expressando na fisionomia inquietação indisfarçável. A estranha auréola que lhe revestia a fronte revelou tonalidades mais escuras. Dureza singular transpareceu-lhe nos olhos felinos e os lábios se lhe contraíram num ricto de infinita amargura. Tive a ideia de que ele nos fulminaria se pudesse, mas conteve-se, imóvel, apesar da expressão agressiva e rude.
— Não desconheces que Matilde possui na tua companheira de outras eras uma pupila muito amada ao coração. As preces dessa torturada filha espiritual atingem-lhe a alma abnegada e luminosa. Gregório: Margarida empenha-se em viver no corpo, faminta de redenção. Aspirações renovadoras banharam-lhe a meninice e, agora, que o casamento, em plena juventude, lhe revigoriza as esperanças, deseja demorar-se no campo de luta benéfica, de modo a ressarcir o passado culposo. Certamente, fortes razões te obrigam a constrangê-la ao retorno, porque lhe armaste caprichoso caminho de morte. Não te reprovo, nem te acuso, pois nada sou. E ainda que o Senhor me conferisse algum alto encargo representativo, não me competiria julgar-te, senão depois de haver vivido a tua própria tragédia, experimentando as tuas próprias dores. Sei, porém, que pelo amor e pelo ódio do pretérito ela permanece intensamente ligada aos raios de tua mente e todos sabemos que os credores e os devedores se encontrarão, uns com os outros, tarde ou cedo, face a face… Entretanto, a atual existência dela envolve largo serviço salvador. Desposou antigo associado de luta evolutiva que te não é estranho ao coração e reinará, maternalmente, num lar em que devotados benfeitores organizarão formoso ministério de trabalho iluminativo. Espíritos amigos da verdade e do bem se preparam a receber-lhe a ternura materna, quais flores abençoadas pelo orvalho celeste, em caminho de preciosa frutificação. Venho rogar-te, pois, seja suavizada a vindita cruel. Nossa alma, por mais impassível, modifica-se com as horas. O tempo tudo devasta e nos subtrai todos os patrimônios da inferioridade para que a obra de aperfeiçoamento permaneça. A matéria que nos serve às manifestações modifica-se com os dias. E, por mais invencíveis que fossem os poderosos Juízes aos quais obedeces, não ultrapassariam eles, de nenhum modo, a autoridade soberana do Todo-Misericordioso que lhes permite agir em nome da corrigenda, afeiçoando-lhes a tarefa ao bem comum. Pesados minutos de expectação e silêncio caíram sobre nós. Nosso Instrutor, no entanto, longe de desanimar, retomou a palavra, em voz súplice:
— Se ainda não consegues ouvir os recursos interpostos pela Lei do Cordeiro Divino que nos recomenda o amor recíproco e santificante, não te ensurdeças aos apelos do coração materno. Ajuda-nos a liberar Margarida, salvando-a da destrutiva perseguição. Não se faz imperioso o teu concurso pessoal. Bastar-nos-á tua indiferença, a fim de que nos orientemos com a precisa liberdade. O hierofante riu-se, contrafeito, e acrescentou:
— Observo que conheces a justiça.
— Sim, — concordou Gúbio, melancólico. O anfitrião, contudo, falou sem rebuços:
— Quem lavra sentenças, despreza a renúncia. Entre os que defendem a ordem, o perdão é desconhecido. Determinavam os legisladores da Bíblia que os arestos se baseassem no princípio da troca: “olho por olho e dente por dente”. () E já que te mostras tão bem informado acerca de Margarida, poderás, em sã consciência, suprimir as razões que me compelem a decretar-lhe a morte?
— Não discuto os motivos que te conduzem, — exclamou nosso orientador, entre aflito e entristecido, — todavia, ouso insistir na súplica fraterna. Auxilia-nos a conservar aquela existência valiosa e frutífera. Ajudando-nos, quem sabe? Talvez, pelos braços carinhosos da vítima de hoje poderias, tu mesmo, voltar ao banho lustral da experiência humana, renovando caminhos para glorioso futuro.
— Qualquer ideia de volta à carne me é intolerável!
— Gritou Gregório, contrafeito.
— Sabemos, grande sacerdote, — continuou Gúbio, muito calmo, — que sem a tua permissão, em vista dos laços que Margarida criou com a tua mente, poderosa e ativa, ser-nos-ia difícil qualquer atividade libertadora. Promete-nos independência de ação! Não te pedimos sustar a sentença, nem pretendemos inocentar Margarida. Quem assume compromissos diante das Leis Eternas é obrigado a encará-los, de frente, agora ou mais tarde, para resgate justo. Rogar-te-íamos, contudo, adiamento na execução de teus propósitos. Concede à tua devedora um intervalo benéfico, em homenagem aos desvelos de tua mãe e, possivelmente, os dias se encarregarão de modificar este processo doloroso. Demonstrando expressão de surpresa, em face da imprevista solicitação de adiamento, quando, nós mesmos, esperávamos que o orientador se impusesse, reclamando revogação definitiva, Gregório considerou, menos contundente:
— Tenho necessidade do alimento psíquico que só a mente de Margarida me pode proporcionar. Perguntou Gúbio, mais encorajado:
— E se reencontrasses o doce reconforto da ternura materna, sustentando-te a alma, até que Margarida te pudesse fornecer, redimida e feliz, o sublimado pão do espírito? O sacerdote levantou-se pela primeira vez e clamou:
— Não creio… — E se propuséssemos semelhante bênção em troca de tua neutralidade ante o nosso esforço de salvação? Permitir-nos-ias agir concomitantemente com os servidores que te obedecem às ordens? Não os inclinarias contra nós e deixar-nos-ias ombrear com eles, tentando a restauração? O tempo, dessa forma, daria o último retoque em tuas decisões… Gregório refletiu alguns instantes e redarguiu:
— É muito tarde.
— Porquê? — Indagou nosso Instrutor, inquieto.
— O caso de Margarida, — esclareceu o hierofante em tom significativo, — está definitivamente entregue a uma falange de sessenta servidores de meu serviço, sob a chefia de duro perseguidor que lhe odeia a família. A solução cabal poderia ter sido alcançada em poucas horas, mas não desejo que ela me volte às mãos, com a revolta de vítima, em cuja fonte interior só me fosse possível recolher as águas turvas do desespero e do fel. Será torturada como me torturou em outra época; padecerá humilhações sem nome e desejará a morte como valioso bem. Atingida a rendição pelo sofrimento dilacerante, a mente dela me receberá por benfeitor, amoroso e providencial, envolvendo-me nas emissões de carinho que, há muitos anos, venho esperando… Seria infrutífera qualquer tentativa liberatória. Os raciocínios dela vão sendo conturbados, pouco a pouco, e o trabalho de imantação para a morte estão quase terminados. O nosso dirigente, no entanto, não se deu por vencido e insistiu:
— E se nos confundíssemos com a tua falange, tentando o serviço a que nos propomos? Compareceríamos, junto à enferma, como amigos teus e, sem te desrespeitarmos a autoridade, procuraríamos a execução do programa que nos trouxe até aqui, testemunhando a humildade e o amor que o Cordeiro nos ensina. Gregório pensava, maduramente, em silêncio, mas Gúbio prosseguia com simplicidade e firmeza:
— Concede!… Concede!… Dá-nos tua palavra de sacerdote! Lembra-te de que, um dia, ainda que não creias, enfrentarás, de novo, o olhar de tua mãe! O interpelado, após longos minutos de reflexão, ergueu os braços e asseverou:
— Não creio nas possibilidades do tentame; todavia, concordo com a providência a que recorres. Não interferirei. Em seguida, tilintando a campainha de modo particular, determinou que os auxiliares se reaproximassem. Como que semivencido na batalha em que se empenhara com a própria consciência, invocou a presença de um certo Timão, que nos surgiu pela frente surpreendendo-nos com seu semblante de carrasco. Dirigiu-lhe a palavra, indagando pelo andamento do “caso-Margarida”, ao que o preposto informou estar o processo de alienação mental quase pronto. Questão de poucos dias para a segregação em casa de saúde. Indicando-nos, algo constrangido, determinou Gregório que o auxiliar de sinistro aspecto nos situasse junto da falange que operava, ativa, na execução gradual do seu decreto de morte.