Capítulo 8
Os materialistas fizeram como o mineiro que sob a terra cava o aurífero filão. A cada passo descobre ele novos tesouros, novas riquezas, e o mesmo aconteceu à ciência positiva – justiça se lhe faça – mas, à medida que prossegue na tarefa, o mineiro perde de vista a luz do dia, o domínio esplêndido da vida, para engolfar-se nas regiões da noite, da morte e do silêncio. Assim procedeu o materialismo. Nas altas esferas intelectuais, a derrota do materialismo esteve a pique de arrastar consigo a da Ciência. Lançaram a esta a pedra, como se pudesse ela ser responsabilizada pelas teorias formuladas em seu nome. Em vibrantes artigos, foi acusada de não haver dado o que o espírito humano tinha o direito de esperar. O Senhor Séailles diz, em seu discurso proferido por ocasião da abertura da Faculdade de Letras, em 1894: “A ciência moderna conduz à confusão do pensamento, que se perde no mundo que ela descerra, e sepulta-se em sua vitória.” Outros asseguravam, com o Senhor Brunetiere, que a Ciência havia feito bancarrota. Evidentemente, isto é excessivo e inexato. O que fez bancarrota, realmente, não foi a Ciência em seu conjunto, foram certas teorias baseadas no Materialismo e no Positivismo. Se atiram a luva à Ciência, não é que desconheçam os serviços que prestou e presta, todos os dias, à Humanidade. Ninguém pode dizer que a Ciência não contribuiu, em larga escala, para o desenvolvimento do progresso material e da civilização. Vimos acima que foi graças a ela, às suas descobertas, que se retificaram as concepções errôneas da Teologia. Razão de estranheza há, todavia, ao considerarmos a sua impotência para fornecer ao homem o verdadeiro conhecimento de si mesmo e das leis que regem o seu destino. Ora, sente-se vagamente que a Ciência teria podido conduzir a esses resultados se, em lugar de encerrar-se no estudo da matéria, tivesse querido explorar sinceramente, com perseverança, todos os domínios da vida. Sob a pressão das doutrinas negativas, a Ciência perdeu-se na análise, no estudo fragmentário da natureza física. Mas a poeira da Ciência não é a Ciência; a poeira da Verdade não é a Verdade. A Humanidade, fatigada das concepções metafísicas e das soluções teológicas, tinha voltado o olhar e as esperanças para a Ciência. Pedia-lhe o segredo da existência, uma crença, uma nova fé para substituir a dos templos, que se abate. Pedia-lhe a solução desses problemas da vida, que a dominam, assediam, envolvem nas suas profundezas. Diante desses reclamos reiterados, a Ciência permaneceu muda, ou antes, se em certos casos formulou uma solução, a idéia dominante que dela se destacava era a idéia do nada. Daí a decepção, a irritação de certos pensadores; daí as acusações que se levantaram. Essas acusações, porém, devem recair exclusivamente sobre as escolas materialistas. A Ciência, em seu conjunto, desde que se tiver desembaraçado desses empecilhos, saberá completar-se mediante concepções mais esclarecidas e elevadas, que já começa a entrever. Sociedades oficialmente constituídas, como o Instituto Geral Psicológico, sob a sucessiva direção do Doutor Duclaux e do Professor d'Arsonval, empreenderam pesquisas em um novo domínio – o do Psiquismo. E se a conclusão do relatório publicado em 1909, por aquele Instituto, não é ainda afirmativa, nem por isso a atenção dos seus membros, voltada agora para essas questões essenciais, poderá delas jamais se desviar. Suas experiências, prosseguidas em condições mais favoráveis, hão de provar-lhes a existência de um mundo excluído até agora de suas investigações, mas cuja realidade cedo ou tarde se lhes há de impor. * Uma coisa sempre nos surpreendeu profundamente: é que, entre os homens de espírito liberal que dirigem os destinos da República, muitos se acreditam e se confessam materialistas e ateus. Como não compreenderam que o materialismo, baseando-se na fatalidade cega e consagrando o direito da força, não pode produzir homens livres? Os democratas de 89 e de 48 tinham outras concepções. Segundo as teorias materialistas, o homem não passa de máquina governada por instintos. Ora, para uma máquina não pode haver liberdade, nem responsabilidade, nem leis morais, porque a moral é lei do espírito. E sem lei moral, em que se torna a idéia do dever? Subverte-se, e com ela toda a ordem estabelecida. Uma sociedade não pode viver, desenvolver-se e progredir senão firmada na idéia do dever, ou, por dizer diversamente, na virtude e na justiça. Estas as bases únicas, possíveis, da ordem social. Por isso é que esta jamais pôde conciliar-se com o ateísmo e o materialismo; porque, do mesmo modo que a superstição e a idolatria levam ao arbítrio e ao despotismo, o materialismo e o ateísmo conduzem logicamente à depressão das forças sociais, muitas vezes até à anarquia e ao niilismo. O materialismo, com a noção puramente mecânica do Universo e da vida, lançou no domínio do pensamento uma noção acabrunhadora do futuro. A seu ver, o homem não é mais que joguete do acaso, simples roleta da grande e cega máquina do mundo. A existência não passa de luta áspera, feroz, em que domina a força, em que os fracos sucumbem fatalmente. Quem não conhece a doutrina do struggle for life, graças à qual a vida se torna um sinistro campo cerrado, onde os seres passam, se sucedem, se impelem, para acabar submersos nas profundezas do nada? É com semelhantes teorias, difundidas nas massas, que o materialismo se constituiu um verdadeiro perigo social. Desse modo, tornou mais pesado ao homem o fardo das misérias e mais sombrias as perspectivas da existência; diminuiu a energia humana, compeliu o desgraçado à tristeza, ao desespero, ou à revolta. Como, pois, estranharmos que os casamentos se tornem cada vez mais raros e os infanticídios, suicídios, alienações mentais se multipliquem? Em nossos dias, como sinal dos tempos, vêem-se, muitas vezes, jovens de ambos os sexos, crianças quase, recorrer ao suicídio por motivos fúteis.(xcii) O exército do vício e do assassínio engrossa em proporções assustadoras. Com as teorias da escola materialista a responsabilidade moral desaparece. O homem não é livre, dizem-nos Büchner e seus discípulos; é escravo do meio. O crime se explica pelo atavismo e pela hereditariedade. É um fenômeno natural; é o efeito necessário de uma causa, a conseqüência de uma fatalidade oculta. Não há, em definitivo, nem bem nem mal! E por esse modo se justificam as mais graves faltas, anestesia-se a consciência, destrói-se toda idéia de sanção moral e de justiça. Se, com efeito, o crime é fatal, é involuntário, não é imputável nem infamante. Se a paixão é irresistível, porque se há de tentar combatê-la? Semelhantes opiniões, propagadas em todas as camadas, têm tido como conseqüência sobreexcitar ao mais alto grau os apetites, desenvolvendo o sensualismo e os instintos egoístas. Nas classes abastadas, muitos não têm senão um objetivo: suprimir os deveres e as lutas austeras da vida, fazer da existência uma perpétua bacanal, uma espécie de embriaguez, mas embriaguez cujo despertar poderia ser terrível. Negam o livre-arbítrio e a sobrevivência do ser; negam Deus, o dever, a justiça, todos os princípios em que repousam as sociedades humanas, sem se preocuparem com o que pode resultar de semelhantes negações. Não reparam a deplorável influência que elas exercem sobre as multidões, que são, desse modo, impelidas aos excessos. Assim é que, pouco a pouco, os caracteres se enfraquecem, a dignidade humana se amesquinha, as sociedades perdem a virilidade e a grandeza. Uma literatura inspirada pelo tédio da vida surgiu e se espalhou por toda parte – uma literatura cuja onda sobe, alastra-se, ameaça extinguir toda chama, sufocar no seio da alma humana as esperanças generosas, os santos entusiasmos, submergir o pensamento nas ondas do mais negro pessimismo. Lede, por exemplo, O Combate Social, do Senhor Clemenceau. Prestai atenção ao prefácio dessa obra, de que se exala a triste poesia do nada, em que tudo fala de invasora decrepitude, de morte do pensamento e da consciência, do nada sobretudo, para o qual acredita o autor que todas as coisas rolam ou se arrastam. O senhor Clemenceau descreve as últimas fases da existência na Terra: “As nossas cidades derrocadas no meio de informes vestígios humanos, as últimas ruínas tombadas sobre a vida expirante, todo o pensamento, toda a arte tragados pela grande morte avassaladora. Toda a obra humana sob a derradeira viscosidade da vida.” “E depois, a derradeira manifestação de vida terrestre será, a seu turno, destruída. Inutilmente, passeará o globo frio e nu a sua indiferença pelos estéreis caminhos do espaço. Encerrar-se-á, então, o ciclo dos últimos planetas irmãos, mortos alguns talvez já, desde agora. E os Sóis extintos, seguidos do seu fúnebre cortejo, precipitarão na noite a sua desordenada carreira para o desconhecido.” Ignora o autor, então, que a vida é eterna? Se no fundo dos céus se extinguem universos, outros se acendem e resplandecem; se há túmulos no espaço, também existem berços. Nada pode ser destruído, uma só molécula, nem um princípio de vida; para cada ser, como para cada mundo, a morte não é mais que transição, o crepúsculo que precede a aurora de um eterno recomeço. O Universo é o campo de educação do espírito imortal, a vida o seu conduto de ascensão para um ideal mais belo, iluminado pelos raios do amor e da justiça. Em definitivo, de tantas lutas, de tantos males e vicissitudes, o que resulta é o bem final dos seres. Desgraçado de quem o não sabe ver e compreender! Ouçamos ainda o Sr. Júlio Soury, num artigo da Justiça, de 10 de maio de 1895, no qual analisa a obra que citamos: “Que vem a ser o belo, o bem, o verdadeiro, senão meros conceitos, abstrações de abstrações? Ora, um conceito não corresponde a coisa alguma de objetivo. Na Natureza não há bem nem mal, nem verdade nem erro, nem beleza nem fealdade. Esses fantasmas não surgem senão em nosso espírito: hão de se desvanecer com o derradeiro homem”.
TAG Valor
Título Decadência do Cristianismo