O próprio César, tão pouco versado nessas matérias, diz-nos que os druidas ensinavam muitas coisas sobre a forma e a dimensão da Terra, sobre o movimento dos astros, sobre as montanhas e os vales da Lua. Dizem que o Universo, eterno e imutável em seu conjunto, se transforma incessantemente em suas partes; que a vida o anima por uma circulação infinita e espalha-se por todos os pontos. Desprovidos dos meios de observação de que dispõe a ciência moderna, pergunta-se: onde foram os gauleses aprender tais noções?
Os druidas comunicavam-se com o mundo invisível; mil testemunhas o atestam. Nos recintos de pedra evocavam os mortos. As druidesas e os bardos proferiam oráculos. Vários autores referem que Vercingétorix entretinha-se, debaixo das ramagens sombrias dos bosques, com as almas dos heróis mortos em serviço da pátria. Antes de sublevar a Gália contra César, foi para a ilha de Sem, antiga residência das druidesas, e aí, ao esfuziar dos raios,(xl) apareceu-lhe um Gênio que predisse sua derrota e seu martírio.
A comemoração dos mortos é de iniciativa gaulesa. No dia primeiro de novembro celebrava-se a festa dos Espíritos, não nos cemitérios – os gauleses não honravam os cadáveres –, mas sim em cada habitação, onde os bardos e os videntes evocavam as almas dos defuntos. No entender deles, os bosques e as charnecas eram povoados por Espíritos errantes. Os Duz e os Korrigans eram almas em procura de novas encarnações.
O ensino dos druidas adaptava-se, na ordem política e social, a instituições conforme à justiça. Os gauleses, sabendo que eram animados por um mesmo princípio, chamados todos aos mesmos destinos, sentiam-se iguais e livres. Em cada república gaulesa, os chefes eram oportunamente eleitos pelo povo reunido. A lei céltica punia, com o suplício do fogo, os ambiciosos e os pretendentes à coroa. As mulheres tomavam parte nos conselhos, exerciam funções sacerdotais, eram videntes e profetas. Dispunham de si mesmas e escolhiam seus esposos. A propriedade era coletiva, pertencendo todo o território à república. Por forma alguma era entre eles reconhecido o direito hereditário: a eleição decidia tudo.
A longa ocupação romana, depois a invasão dos francos e a introdução do feudalismo, fizeram esquecer essas verdadeiras tradições nacionais. Mas, também veio o dia em que o velho sangue gaulês se agitou nas veias do povo; em seu torvelinho a Revolução derrocou estas duas importações estrangeiras: a teocracia de Roma e a monarquia implantada pelos francos. A velha Gália encontrou-se inteira na França de 1789.
Uma coisa capital faltava-lhe entretanto: a idéia da solidariedade. O druidismo fortificava nas almas o sentimento do direito e da liberdade; mas, se os gauleses se sabiam iguais, nem por isso se sentiam bastante irmãos. Daí, essa falta de unidade que perdeu a Gália. Curvada sob uma opressão de vinte séculos, purificada pela desgraça, esclarecida por luzes novas, tornou-se por excelência a nação una, indivisível. A lei da caridade e do amor, a melhor que o Cristianismo lhe fez conhecer, veio completar o ensino dos druidas e formar uma síntese filosófica e moral cheia de grandeza.
Do seio da Idade Média, como uma ressurreição do espírito da Gália, ergue-se uma figura brilhante. Desde os primeiros séculos da nossa era, Joana d'Arc fora anunciada por uma profecia do Bardo Myrdwyn ou Merlin. É debaixo do carvalho das fadas, perto da mesa de pedra, que ela ouve muitas vezes “suas vozes”. É cristã piedosa, mas acima da Igreja terrestre coloca a Igreja eterna, “a do alto”, a única a que se submete em todas as coisas.(xli)
Nenhum testemunho da intervenção dos Espíritos na vida dos povos é comparável à história, tocante da Virgem de Domrémy. Em fins do século 15, agonizava a França sob o jugo férreo dos ingleses. Com o auxílio de uma jovem, uma criança de dezoito anos, as potências invisíveis reanimam um povo desmoralizado, despertam o patriotismo extinto, inflamam a resistência e salvam a França da morte.
Joana jamais procedeu sem consultar “suas vozes” e, quer nos campos de batalha, quer perante os juizes, elas sempre lhe inspiraram palavras e atos sublimes. Um só momento, na prisão em Ruão, essas vozes parecem abandoná-la. Foi então que, acabrunhada pelo sofrimento, consentiu em abjurar. Desde que os Espíritos se afastam, torna-se mulher; fraquejada, submete-se. Depois, as vozes fazem-se ouvir de novo e, então, ela levanta logo a cabeça diante dos juizes:
“A voz me disse que era traição abjurar. A verdade é que Deus ma enviou; o que fiz está bem-feito.”
Sagrada pelos seus martírios dolorosos, Joana tornou-se um exemplo sublime de sacrifício, um objeto de admiração, um profundo ensino para todos os homens.