1ª Parte - Cap. 10: No caminho de Damasco
Outra luz lhe banha os olhos deslumbrados , e no caminho, que a atmosfera rasgada lhe desvenda, vê surgir a figura de um homem de majestática beleza, dando -lhe a impressão de que descia do céu ao seu encontro. Sua túnica era feita de pontos luminosos, os cabelos tocavam nos ombros, à nazarena, os olhos magnéticos, imanados de simpatia e de amor, iluminando a fisionomia grave e terna, onde pairava uma divina tristeza. O doutor de Tarso contemplava -o com espanto profundo, e foi quando, numa inflexão de voz inesquecível, o desconhecido se fez ouvir: — Saulo!... Saulo!... por que me persegues? O moço tarsense não sabia que estava instintiva -mente de joelhos. Sem poder definir o que se passava, comprimiu o coração numa atitude desesperada. Incoercível sentimento de veneração apossou -se inteiramente dele. Que significava aquilo? De quem o vulto divino que entrevia no painel do firmamento aberto e cuja presença lhe inundava o coração precípite de emoções desconhecidas? Enquanto os companheiros cercavam o jovem ge nuflexo, sem nada ouvirem nem verem, não obstante haverem percebido, a princípio, uma grande luz no alto, Saulo interrogava em voz trêmula e receosa: — Quem sois vós, Senhor? Aureolado de uma luz balsâmica e num tom de in concebível doçura, o Senhor respondeu: — Eu sou Jesus!... Então, viu-se o orgulhoso e inflexível doutor da Lei curvar -se para o solo, em pranto convulsivo. Dir -se-ia que o apaixonado rabino de Jerusalém fora ferido de morte, experimentando num momento a derrocada de todos os princípios que lhe conformaram o espírito e o norteara m, até então, na vida. Diante dos olhos tinha, agora, e assim, aquele Cristo magnânimo e incompreendido! Os pregadores do “Caminho” não estavam iludidos! A palavra de Estevão era a verdade pura! A crença de Abigail era a senda real. Aquele era o Messias! A história maravilhosa da sua ressurreição não era um recurso lendário para fortificar as energias do povo. Sim, ele, Saulo, via -o ali no esplendor de suas glórias divinas! E que amor deveria animar -lhe o coração cheio de augusta misericórdia, para vir encontrá-lo nas estradas desertas, a ele, Saulo, que se arvorara em perseguidor implacável dos discípulos mais fiéis!. .. Na expressão de sinceridade da sua alma ardente, considerou tudo isso na fugacidade de um minuto. Experimentou invencível vergonha do seu passado cruel. Uma torrente de lágrimas impetuosas lavava -lhe o coração. Quis falar, penitenciar -se, clamar suas infindas desilusões, protestar fidelidade e dedicação ao Messias de Nazaré, mas a contrição sincera do espí rito arrependido e dilacerado embargava-lhe a voz. Foi quando notou que Jesus se aproximava e, contem plando-o carinhosamente, o Mestre tocou -lhe os ombros com ternura, dizendo com inflexão paternal: — Não recalcitres contra os aguilhões!... Saulo compreendeu. Desde o primeiro encontro com Estevão, forças profundas o compeliam a cada momento, e em qualquer parte, à meditação dos novos ensinamentos. O Cristo chamara-o por todos os meios e de todos os modos. Sem que pudessem entender a grandeza divina da quele instante, os companheiros de viagem viram-no chorar mais copiosamente. O moço de Tarso soluçava. Ante a expressão doce e persuasiva do Messias Nazareno, considerava o tempo perdido em caminhos escabrosos e ingratos. Doravante necessitava reformar o patrimônio dos pensamentos mais íntimos; a Visão de Jesus ressuscitado, aos seus olhos mortais, renovava -lhe integralmente as concepções reli giosas. Certo, o Salvador apiedara -se do seu coração leal e sincero, consagrado ao serviço da Lei, e descera da sua glória estendendo-lhe as mãos divinas. Ele, Saulo, era a ovelha perdida no resvaladouro das teorias escal dantes e destruidoras. Jesus era o Pastor amigo que se dignava fechar os olhos para os espinheirOS ingratos, a fim de salvá -lo carinhosamente. Num ápice, o jovem rabino considerou a ext ensão daquele gesto de amor. As lágrimas brotaram -lhe do coração amargurado, como a linfa pura, de uma fonte desconhecida. Ali mesmo, no santuário augusto do espírito, fez o protesto de entre gar-se a Jesus para sempre. Recordou, de súbito, as provações rígidas e dolorosas. A idéia de um lar morrera com Abigail. Sentia -se só e acabrunhado. Doravante, porém, entregar -se-ia ao Cristo, como simples escravo do seu amor. E tudo envidaria para provar -lhe que sabia compreender o seu sacrifício, amparando-o na senda escura das iniqüidades humanas, naquele instante decisivo do seu destino. Banhado em pranto, como nunca lhe acontecera na vida, fez, ali mesmo, sob o olhar assom brado dos companheiros e ao calor escaldante do meio-dia, a sua primeira profissão de fé. — Senhor, que quereis que eu faça? Aquela alma resoluta, mesmo no transe de uma capitulaçãO incondicional, humilhada e ferida em seus princípios mais estimáveiS, dava mostras de sua nobreza e lealdade. Encontrando a revelação maior, em face do amor que Jesus lhe demonstraVa solícito, Saulo de Tarso não escolhe tarefas para servi -lo, na renovação de seus esforços de homem. Entregando-se-lhe de alma e corpo, como se fora ínfimo servo, interroga com humildade o que desejava o Mestre da sua coop eração. Foi aí que Jesus, contemplando -o mais amorosamente e dando-lhe a entender a necessidade de os homens se harmonizarem no trabalho comum da edificação de todos, no amor universal, em seu nome, esclareceu gene rosamente: — Levanta-te, Saulo! Entra na cidade e lá te será dito o que te convém fazer!... Então, o moço tarsense não mais percebeu o vulto amorável, guardando a impressão de estar mergulhado num mar de sombras. Prosternado, continuava chorando, causando piedade aos companheiros. Esfregou os ol hos como se desejasse rasgar o véu que lhe obscurecia a vista mas só conseguia tatear no seio das trevas densas. Aos poucos, começou a perceber a presença dos amigos, que pareciam comentar a situação: — Afinal, Jacob — dizia um deles, evidenciando grande p reocupação —, que faremos agora? — Acho bom — respondia o interpelado — enviarmos Jonas a Damasco, requisitando providências ime diatas. — Mas, que se teria passado? — perguntava o velho respeitável que respondia por Jonas. - Não sei bem — esclarecia Jacob impressionado —, a princípio, notei intensa luz nos céus e, logo em seguida, ouvi que ele pedia socorro. Nem tive tempo de atender, porque, no mesmo instante, ele caiu do ani mal, sem poder esperar qualquer recurso. — O que me preocupa — ponderava Demétrio — é esse diálogo com as sombras. Com quem conversará ele? Se lhe escutamos a voz e não vemos ninguém, que se passará aqui, nesta hora, sem que possamos com preender? — Mas não percebes que o chefe está em delírio? —-objetou Jacob prudentemente — as grandes viagens, com o sol causticante, costumam abater as organizações mais resistentes. Além disso, como vimos, desde a manhã, ele parece acabrunhado e doente. Não se alimentou, en fraqueceu-se com o esforço destes dias tão longos, que vimos atravessando, desde Jerusalém, com grande sacrifício. A meu ver — concluía abanando a cabeça entristecido — trata-se de um desses casos de febres que atacam repentinamente no deserto... O velho Jonas, no entanto, de olhos arregalados, fixava o rabino solu çante, com grande admiração. De pois de ouvir a opinião dos companheiros, falou, receoso, como se temesse ofender alguma entidade desconhecida: —Tenho grande experiência destas marchas com o sol a pino. Gastei a mocidade conduzindo camelos através dos des ertos da Arábia. Mas, nunca vi um doente, nesses lugares, com estas características — a febre dos que caem extenuados no caminho não se manifesta com delírio e com lágrimas. O enfermo cai abatido, sem reações. Aqui, porém, observamos o patrão como se estivesse a conversar com um homem invisível para nós. Reluto em aceitar essa hipótese, mas estou desconfiado de que, em tudo isso, haja sinal dos sortilégios do “Ca minho” Os seguidores do carpinteiro sabem processos mágicos que estamos longe de compreender. Não ignoramos que o doutor se consagrou à tarefa de persegui -los onde se encontrem. Quem sabe planejaram contra ele alguma, vingança cruel? Ofereci-me para vir a Damasco, a fim de fugir dos meus parentes, que parecem seduzidos por essas doutrinas novas. O nde já se viu curar a ce gueira de alguém com a simples imposição das mãos? Entretanto, meu irmão curou se com o famoso Simão Pedro. Só a feitiçaria, a meu ver, esclarecerá essas coisas. Vendo tantos fatos misteriosos, em minha pró pria casa, tive medo de Satanás e fugi. Recolhido em si próprio, surpreendido no meio das trevas densas que o envolviam, Saulo escutou os comen tários dos amigos, experimentando grande abatimento, como se voltasse exausto e cego, de uma imensa derrota. Limpando as lágrimas, chamo u um deles com pro funda humildade. Acudiram todos solicitamente. — Que aconteceu? — perguntou Jacob preocupado e ansioso. — Estamos aflitos por vossa causa. Estais doente, senhor ?... Providenciaremos o que julgardes necessário... Saulo fez um gesto trist e e acrescentou: — Estou cego. — Mas que foi? — perguntoú o outro inquieto. — Eu vi Jesus Nazareno! — disse contrito, inteiramente modificado. Jonas fez um sinal significativo, como a afirmar aos companheiros que tinha razão, entreolhando -se todos muito admirados. Entenderam, de modo instintivo, que o jovem rabino se havia perturbado. Jacob, que era pes soa de sua intimidade, tomou a iniciativa das primeiras providências e acentuou: Senhor, lamentamos vossa enfermidade. Precisa mos resolver quanto ao destino da caravana. O doutor de Tarso, entretanto, revelando uma humil dade que jamais se coadunara com o seu feitio domina dor, deixou cair uma lágrima e respondeu com profunda tristeza: — Jacob, não te preocupes comigo... Relativamente ao que me cumpre fazer, preciso chegar a Damasco, sem demora. Quanto a vocês...
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Capítulo 10
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