disseram: Fizestes bem em pôr toda a vossa confiança em Deus e em nós; tendes a chave para trazê-lo a vós. Ele verá mais tarde aquela a quem ama; nada temais. É uma promessa que deveis aproveitar, a fim de que ele seja reconduzido ao bem. Depois desta cena, Joseph, esgotado como um lutador, extenuado de fadiga, se ressente da terrível possessão de seu inimigo invisível. Então o Sr.
B..., operando enérgicos passes magnéticos, termina por acalmá-lo completamente. Queira Deus que esta cura seja tão estrondosa quanto a precedente.
Eis a que se aplicam esses caros irmãos! Quanta energia, quanta convicção, quanta coragem não são precisas para fazer semelhantes curas! Somente a fé, a esperança e, sobretudo, a caridade podem vencer tão grandes obstáculos e afrontar com tamanha temeridade uma malta de tão terríveis adversários. Saí dali exausto!
Alguns dias mais tarde eu assisti em Carcassonne a emoções de outro gênero. Visitei o Sr. presidente Jaubert. Disse-me ele: Temos numerosos casos de transportes desde algum tempo. Vou levar-vos à senhorita que é objeto dessas manifestações. Como se de propósito, a moça estava indisposta; o estômago estava intumescido, a ponto de não poder afivelar o vestido. Consultados os guias, a sessão foi adiada para o dia seguinte, às oito horas da noite. O Sr. C..., capitão reformado, houve por bem colocar seu salão à nossa disposição. É uma grande peça vazia, apenas atapetada. Como toda decoração, só dispõe de um espelho sobre a lareira, uma cômoda e cadeiras; nada de quadros, cortinas ou forro de papel nas paredes: um verdadeiro apartamento de rapaz. Éramos ao todo nove pessoas, todos adeptos convictos.
Assim que entramos, uma chuva de bombons caiu com estrondo num ângulo do aposento! Seria difícil falar-vos da minha emoção, porquanto a honorabilidade dos assistentes, aquela sala vazia e escolhida, tudo parecia preparado de propósito pelos Espíritos para tirar qualquer dúvida, nada havendo que pudesse fazer suspeitar uma manobra fraudulenta. Apesar desse prodígio, eu não deixava de olhar, de perscrutar as paredes com o olhar e lhes perguntar se não eram cúmplices de um conchavo qualquer.
A médium doente toma seu lápis e escreve: “Dize a Delanne que ponha sua mão na boca de teu estômago e essa inflamação desaparecerá. Orai antes.” Eis-nos todos em prece. Eu estava na extremidade da sala quando, em meio ao recolhimento geral, uma nova chuva de bombons se produziu no ângulo oposto àquele de onde partira na primeira vez. Julgai de nossa alegria.
Aproximei-me da doente; o inchaço era muito maior que na véspera. Impus a mão e o edema desapareceu como por encanto.
Estou curada, disse ela. Seu vestido, bastante apertado, tornou-se muito folgado. Todos constataram o fato. Unimo-nos em pensamento para agradecer aos Espíritos bons por tanta bondade.
Então se sucedeu uma terceira chuva de bombons. Em minha vida jamais esquecerei estes fatos. Aqueles senhores estavam encantados, mais por mim do que por eles, habituados a essas formas de manifestações. Cada um deles possui alguns objetos trazidos pelos Espíritos. O Sr. Jaubert afirmou ter visto sua mesa virar-se e se erguer várias vezes sem o concurso das mãos; seu chapéu levado de um a outro canto da sala. Um fato análogo de cura instantânea igualmente se produziu há alguns meses, sob a mão do Sr. Jaubert.
A senhorita médium é, além disso, sonâmbula muito lúcida; estando adormecida, eu lhe disse: “Quereis acompanhar-me a Paris? – Sim. – Tende a bondade de ir à minha casa. – Vejo vossa esposa, disse ela; ela me agrada; está deitada e lê.” Descreveu o apartamento com perfeita exatidão. Eis a conversa que teve com minha mulher: “Senhora, não sabeis que o vosso marido está conosco? – Não, mas dizei a ele que me escreva. – Vede! eu não tinha visto vosso filho; ele é gentil. Vossa senhora me diz que tem outro filho, também muito gentil. – Pedi-lhe que vos diga sua idade.
– Ele tem nove meses. – Exatamente.”
Como eu sabia que havia reunião em vossa casa, pedi-lhe que vos fosse ver. Ela não ousava entrar, tamanha era a quantidade de gente e de grandes Espíritos. Ela vos detalhou muito bem, caro presidente, assim como vários de nossos colegas.
Observação – Antes de mais, prestemos um justo tributo de elogios aos nossos irmãos de Barcelona, por seu zelo e devotamento. Como diz o Sr. Delanne, para realizar tais coisas é preciso coragem e perseverança, que somente a fé e a caridade podem dar. Que aqui recebam o testemunho de fraterna simpatia da Sociedade de Paris.
Os fatos de Carcassonne farão sorrir os incrédulos, que não deixarão de dizer que é a representação de uma comédia; caso contrário, dirão, seriam milagres, e o tempo dos milagres já passou.
Respondemos-lhe que não há nisto nenhum milagre, mas simples fenômenos naturais, cuja teoria compreenderão quando quiserem se dar ao trabalho de os estudar, razão por que não nos esforçamos para lhos explicar. Quanto à comédia, seria preciso saber em benefício de quem foi representada. Certamente a prestidigitação pode operar coisas igualmente surpreendentes, até mesmo a cura de uma inchação simulada por uma bexiga cheia. Mas, ainda uma vez, em benefício de quem? Sempre se é forte quando se pode opor a uma acusação de charlatanismo o mais absoluto desinteresse; já não seria o mesmo se estivesse em jogo a mais leve suspeita de interesse material. E, depois, quem representaria essa comédia? Uma jovem de boa família, que não se exibe em espetáculo, que nem dá sessões em sua casa, nem na cidade, e não busca falar de si, o que não é o caso dos charlatães; um vice-presidente de Tribunal; honrados negociantes; oficiais recomendáveis e recebidos na melhor sociedade; uma tal suspeita pode atingi-los? Dirão que é no interesse da doutrina e para fazer adeptos. Mas nem por isso deixa de ser uma fraude, indigna de pessoas que se respeitam. Aliás, seria um meio singular assentar uma doutrina sobre a habilidade em enganar, por meio de gente honesta. Mas os nossos contraditores não olham isto de tão perto, em matéria de contradições; a lógica é a menor de suas preocupações.
Contudo, há uma importante observação a fazer aqui.
Quem assistia à sessão, da qual dá conta o Sr. Delanne? Havia incrédulos a quem queriam convencer? Não, nenhum. Todos eram adeptos que já tinham testemunhado esses fatos várias vezes.
Teriam, pois, escamoteado pelo prazer de enganar a si mesmos. Por mais que digais, senhores, os Espíritos empregam tantas maneiras diferentes para atestar sua presença que, em definitivo, os que riem não estarão do nosso lado. Podeis julgá-lo pelo número sempre crescente de seus partidários. Se tivésseis encontrado um só argumento sério, não o teríeis omitido; mas caís precisamente sobre os charlatães e os exploradores, que o Espiritismo desacredita e com os quais declara nada ter em comum; nisto nos secundais, em vez de nos prejudicar. Assinalai a fraude, onde quer que a encontreis: é só o que pedimos. Jamais nos vistes tomar-lhes a defesa, nem sustentar os que, por sua falta, tiveram problemas com a justiça ou transgrediram a lei. Todo espírita sincero, que se cinge aos limites dos deveres que lhe traça a doutrina, concilia a consideração e o respeito, e nada tem a temer.