Dissertações Espíritas – Lamartine
Sim, senhores, nós morremos mais ou menos esquecidos; pobres seres, vivemos confiantes nos órgãos que transmitem os nossos pensamentos. Queremos a vida com suas exuberâncias, fazemos uma multidão de projetos. Neste mundo a nossa passagem pode ter tido a sua repercussão e, chegada a última hora, todos esses ruídos, todo esse barulhinho, nossa soberba, nosso egoísmo, nosso labor, tudo é engolido na massa. É uma gota d’água no oceano humano. Lamartine era um grande e nobre espírito, cavalheiresco, entusiasta, um verdadeiro mestre na acepção da palavra, um diamante puro, bem lapidado; era belo, grande; tinha o olhar, tinha o gesto do predestinado; sabia pensar, escrever; sabia falar; era um inspirado, um transformador!... Poeta, mudou o impulso da literatura, emprestando-lhe suas asas prodigiosas; homem, governou um povo, uma revolução, e suas mãos se retiraram puras do contato com o poder. Ninguém mais que ele foi amado, estimado, bendito, adorado; e quando vieram os cabelos brancos, quando o desânimo tomou o belo velho, o lutador dos grandes dias, não lhe perdoaram mais um instante de desfalecimento. A própria França estava desfalecida e esbofeteou o poeta, o grande homem; quis menoscabá-lo, esse lutador de duas revoluções, e o esquecimento, repito, parecia enterrar essa grande e magnânima figura! Ele está morto e bem morto, pois o acolhi no além-túmulo, com todos os que o tinham apreciado e estimado, malgrado o ostracismo, do qual a juventude das escolas fazia uma arma contra ele. Estava transfigurado, sim, senhores, pela dor de ter visto os que o tinham tanto amado recusar-lhe o devotamento que, no entanto, ele nunca soube recusar em outros tempos, enquanto os vencedores lhe estendiam as mãos. O poeta havia se tornado filósofo, e esse pensador amadurecia sua alma dolorida para a grande prova. Via melhor; pressentia tudo, tudo o que esperais, senhores, e tudo o que eu não esperava. Mais que ele, sou um vencido; vencido pela morte, vencido em vida pela necessidade, esse inimigo inacessível que nos importuna como um corrosivo; e muito mais vencido hoje, porque venho inclinar-me ante a verdade. Ah! se para a França hoje reluz uma grande verdade; se a França de 89, se a mãe de tantos gênios desaparecidos recomeça a sentir que um de seus mais caros filhos, o bom, o nobre Lamartine desapareceu, hoje sinto que para ele nada está morto; sua lembrança está em toda parte; as ondas sonoras de tantas lembranças comovem o mundo. Ele era imortal entre vós, mas muito mais ainda entre nós, onde está realmente transfigurado. Seu Espírito resplandece, e Deus pode receber o grande desconhecido. De agora em diante Lamartine pode abarcar os mais vastos horizontes e cantar os hinos grandiosos que o seu grande coração havia sonhado. Pode preparar o vosso futuro, meus amigos, e acelerar conosco as etapas humanitárias. Mais que nunca poderá ver desenvolver-se em vós esse ardente amor pela instrução, pelo progresso, pela liberdade e pela associação, que são os elementos do futuro. A França é uma iniciadora; ela sabe o que pode; quererá, ousará, quando sua juba poderosa tiver sacudido o formigueiro que vive a expensas de sua virilidade e de sua grandeza. Poderei eu, como ele, ganhar minha auréola e tornar-me resplandecente de felicidade, ver-me regenerar por vossa crença, cuja grandeza hoje compreendo? Para vós Deus me marcou como uma ovelha desgarrada; obrigado, senhores. Ao contato dos mortos tão lamentados, sinto-me viver e em breve direi convosco na mesma prece: A morte é a glória; a morte é a vida. Luís Desnoyers Observação – Uma senhora, membro da Sociedade, que conhecia particularmente o Sr. Lamartine, e tinha assistido aos seus últimos momentos, acabava de dizer que, depois de sua morte, sua fisionomia se havia literalmente transfigurado, que não tinha mais a decrepitude da velhice. É a essa circunstância que o Espírito aludia. Dissertações Espíritas LAMARTINE (Sociedade Espírita de Paris, 14 de março de 1869 – Médium: Sr. Leymarie) Um amigo, um grande poeta, escrevia-me em dolorosa circunstância: “Ela é sempre vossa companheira, invisível, mas presente; perdeste a mulher, mas não a alma! Caro amigo, vivamos nos mortos!” Pensamento consolador, salutar, que reconforta na luta e faz pensar incessantemente nesta sucessão ascendente da matéria, nesta unidade na concepção de tudo o que é, neste maravilhoso e incomparável obreiro que, para a continuidade do progresso, liga o Espírito a esta matéria, espiritualizada, por sua vez, pela presença do elemento superior. Não, minha bem-amada, não perdi tua alma, que vivia gloriosa, cintilante de todas as claridades do mundo invisível. Minha vida é um protesto vivo contra o flagelo ameaçador do cepticismo, sob suas múltiplas formas. Ninguém, mais que eu, afirmou energicamente a personalidade divina e acreditou na personalidade humana, defendendo a liberdade. Se o pensamento do infinito estava desenvolvido em mim, se a presença divina palpita em páginas entusiastas, é que eu devia abrir minha trilha; é que eu vivia da presença de Deus, e essa fonte, jorrando incessantemente, sempre me fez crer no bem, no belo, na retidão, no devotamento, na honra do indivíduo e, mais ainda, na honra da nação, essa individualidade condensada. É que minha companheira era uma natureza de escol, forte e terna. Junto dela compreendi a natureza da alma e suas íntimas relações com a estátua de carne, essa maravilha! Por isso, meus estudos eram espiritualizados, por conseguinte fecundos e rápidos, voltando-se incessantemente para as formas do belo e a paixão das letras. Casei a Ciência ao pensamento, a fim de que a Filosofia, em mim, pudesse servir-se desses dois preciosos instrumentos poéticos. Às vezes minha forma era abstrata e não estava ao alcance de todos; mas os pensadores sérios a adotaram; todos os grandes espíritos de minha época me abriram suas fileiras. A ortodoxia católica me olhava como uma ovelha fugindo do rebanho do pastor romano, sobretudo quando, levado pelos acontecimentos, partilhei a responsabilidade de uma revolução gloriosa. Arrastado um momento pelas aspirações populares, por esse poderoso sopro de idéias comprimidas, eu não era mais o homem das grandes situações; tinha terminado minha caminhada, e, para mim soavam, no relógio do tempo, as horas de lassidão e de desânimo. Vi o meu calvário, e enquanto Lamartine o subia penosamente, os filhos desta França tão amada lhe cuspiam no rosto, sem respeito por seus cabelos brancos, o ultraje, o desafio, a injúria. Prova solene, senhores, na qual a alma se retempera e se corrige, porque o esquecimento é a morte, e a morte na Terra é o comércio com Deus, esse dispensador judicioso de todas as forças! Morri como cristão; tinha nascido na Igreja, parto antes dela! Há um ano, eu tinha uma profunda intuição. Falava pouco, mas viajava sem cessar pelas planícies etéreas, onde tudo se refunde sob o olhar do Senhor dos mundos; o problema da vida se desdobrava majestosamente, gloriosamente. Compreendi o pensamento de Swedenborg e da escola dos teósofos, de Fourier, de Jean Reynaud, de Henri Martin, de Victor Hugo, e o Espiritismo, que me era familiar, embora em contradição com os meus preconceitos e o meu nascimento, preparavam-me para o desligamento, para a partida. A transição não foi penosa; como o pólen de uma flor, meu Espírito, levado por um turbilhão, encontrou a planta irmã. Como vós, eu a chamo erraticidade; e, para me fazer amar esta irmã desejada, minha mãe, minha esposa bem-amada, uma multidão de amigos e de invisíveis me cercavam como uma auréola luminosa. Mergulhado nesse fluido benfazejo, meu Espírito se serenava, como o corpo desse viajor do deserto que, após longa viagem sob um céu de chumbo e de fogo, encontrava um banho generoso para o corpo, uma fonte límpida e fresca para a sua sede ardente. Alegrias inefáveis do céu sem limites, concertos de todas as harmonias, moléculas que repercutem os acordes da ciência divina, calor vivificante de suas impressões sem nome que a língua humana não poderia decifrar, bem-estar novo, renascimento, completa elasticidade, elétrica profundeza das certezas, similitude das leis, calma cheia de grandeza, esferas que encerram as humanidades, oh! sede bem-vindas, emoções previstas, aumentadas indefinidamente de radiações do infinito! Permutai vossas idéias, espíritas, que acreditais em nós. Estudai nas fontes sempre novas do nosso ensino; firmai-vos, e que cada membro da família seja um apóstolo que fale, marche e aja com vontade, com a certeza de que não dais nada ao desconhecido. Sabei muito para que vossa inteligência se eleve. A ciência humana, reunida à ciência dos vossos auxiliares invisíveis, mas luminosos, vos fará senhores do futuro. Expulsareis a sombra para vir a nós, isto é, à luz, a Deus. Alphonse de Lamartine
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Mês Abril
Ano 1869