Todos esses Espíritos, associados em falanges inumeráveis, conhecem-se e amam-se. Os laços de família, os afetos que os uniam na vida material, quebrados pela morte, aí se reconstituem para sempre. Destacam-se dos diversos pontos do espaço e dos mundos superiores para comunicarem mutuamente os resultados de suas missões, de seus trabalhos, para se felicitarem pelos êxitos obtidos e coadjuvarem-se uns aos outros nas empresas difíceis. Nenhum pensamento oculto, nenhum sentimento de inveja tem ingresso nessas almas delicadas. O amor, a confiança e a sinceridade presidem a essas reuniões, onde todos recolhem as instruções dos mensageiros divinos, onde se aceitam as tarefas que contribuem para elevá-los ainda mais. Uns seguem a observar o progresso e o desenvolvimento dos globos; outros encarnam nos diversos mundos para cumprir missões de devotamento, para instruir os homens na moral e na Ciência; outros ainda, os Espíritos-guia ou protetores, ligam-se a alguma alma encarnada, a sustentam no rude caminho da existência, conduzem-na do nascimento à morte, durante muitas vidas sucessivas, vindo acolhê-la no termo de cada uma delas, quando entra no mundo invisível. Em todos os graus da hierarquia espiritual, as almas têm um papel a executar na obra imensa do progresso e concorrem para a realização das leis superiores.
Quanto mais o Espírito se purifica, mais intensa, mais ardente nele se torna a necessidade de amar, de atrair para a sua luz e para a sua felicidade, para a morada em que não se conhece a dor, tudo o que sofre, tudo o que luta e se agita nas baixas camadas da existência.
Quando um desses Espíritos adota um de seus irmãos atrasados e torna-se seu protetor, seu guia, com que solicitude afetuosa lhe sustenta os passos, com que alegria contempla os seus progressos e com quanta dor vê as quedas que não pôde evitar! Assim como a criança descida do berço ensaia seus primeiros passos sob os olhares enternecidos da sua carinhosa mãe, assim também, sob a égide invisível de seu pai espiritual, o Espírito é assistido nos combates da vida terrestre.
Todos temos um desses Gênios tutelares que nos inspira nas horas difíceis e dirige-nos pelo bom caminho. Daí a poética tradição cristã do anjo da guarda. Não há concepção mais grata e consoladora. Saber que temos um amigo fiel e sempre disposto a socorrer-nos, de perto como de longe, influenciando-nos a grandes distâncias ou conservando-se junto de nós nas provações; saber que ele nos aconselha por intuição e nos aquece com o seu amor, eis uma fonte inapreciável de força moral. O pensamento de que testemunhas benévolas e invisíveis vêem todos os nossos atos, regozijando-se ou entristecendo-se, deve inspirar-nos mais sabedoria e circunspecção. É por essa proteção oculta que se fortificam os laços de solidariedade que ligam o mundo celeste à Terra, o Espírito livre ao homem, Espírito prisioneiro da carne. É por essa assistência contínua que se criam, de um a outro lado, as simpatias profundas, as amizades duradouras e desinteressadas. O amor que anima o Espírito elevado vai pouco a pouco se estendendo a todos os seres sem cessar, revertendo tudo para Deus, pai das almas, foco de todas as potências efetivas.
Falamos da hierarquia.
Há, com efeito, uma entre os Espíritos, mas a sua base única é a virtude e as qualidades conquistadas pelo trabalho e pelo sofrimento. Sabemos que todos os Espíritos são iguais, em princípio, e destinados ao mesmo fim, diferindo somente no grau de adiantamento. Os graus da hierarquia espiritual começam no seio da vida animal e estendem-se até alturas inacessíveis às nossas concepções atuais. É uma graduação inumerável de potências, de luzes, de virtude, aumentando sempre da base ao vértice, caso haja aí vértice. É a espiral gigantesca do progresso desenrolando-se até ao infinito e cujas três grandes fases – vida material, vida espiritual e vida celeste –, reagindo reciprocamente, formam um todo que constitui o campo de evolução dos seres, a lendária escada de Jacob. Sobre essa escada imensa todos os seres são ligados por laços invisíveis, cada um sustentado e atraído por outro mais elevado. As almas superiores, que se manifestam aos homens, não parecem dotadas de todas as perfeições e, entretanto, essas, pelas suas qualidades, apenas atestam a existência de seres que lhes estão colocados tão acima quanto eles o estão de nós. Os graus se sucedem e se perdem em profundezas cheias de mistério.
A veste fluídica denuncia a superioridade do Espírito; é como um invólucro formado pelos méritos e qualidades adquiridas na sucessão de suas existências. Opaca e sombria na alma inferior, seu alvor aumenta de acordo com os progressos realizados. Torna-se a alma cada vez mais pura. Brilhante no Espírito elevado, ofusca nas almas superiores. Todo Espírito é um foco de luz, velado por longo tempo, comprimido, invisível, mas que se descobre com o seu valor moral, cresce lentamente, aumentando em penetração e intensidade. No começo, é como o fogo escondido sob cinzas, que se revela por fracas claridades, e, depois, ainda por uma chama tímida e vacilante. Um dia, tornar-se-á a auréola que se ativa, estende e rodeia, completamente, o Espírito que, então, resplandece como um sol ou como esses astros errantes que percorrem os abismos celestes, arrastando sua longa cauda de luz. Para obter esse esplendor, é necessário o mérito, filho de trabalhos longos, de obras fecundas, adquirido em um número de existências que se nos afigura a eternidade.
Subindo mais para as culminâncias que o pensamento não pode medir sem vertigem, não se chegaria a entrever por uma intuição o que é Deus, alma do Universo, prodigioso centro de luz? A visão direta de Deus, dizem, só pode ser sustentada pelos grandes Espíritos. A luz divina exprime a glória, o poder, a majestade do Eterno, e, por si própria, é a visão da verdade. Poucas almas, porém, podem contemplá-la sem véu, precisando haver uma pureza absoluta para se lhe suportar o deslumbramento esmagador.
A vida terrena suspende as propriedades irradiantes do Espírito. Durante o seu curso, a luz da alma se acha oculta sob a carne, como lâmpada acesa no fundo de um sepulcro.
Entretanto, em nós mesmos podemos verificar a sua existência; as nossas boas ações, os nossos rasgos de generosidade alimentam-na e avivam. Uma multidão inteira pode sentir o calor comunicativo de uma alma entusiástica. Em nossos momentos de expansão, de caridade e amor sentimos como que uma chama ou um raio emanando do nosso ser. É por essa luz íntima que se distinguem os oradores, os heróis, os apóstolos. É ela que inflama os auditórios, arrasta os povos e os faz realizarem grandes cometimentos. As forças espirituais revelam-se então aos olhos de todos e mostram o que se pode obter das potências psíquicas, postas em ação pela paixão do bem e do justo. A força da alma é superior a todas as forças materiais; é a própria luz: poderia levantar um mundo.
Possamos nós alimentar-te com boas obras, avivar-te a chama, transformar-te num grande facho que esclareça e aqueça tudo o que se aproximar de ti, um fanal para guiar os Espíritos cépticos, errantes nas trevas, ó foco amoroso!
Tentamos dar uma idéia do que é a vida celeste definitiva, conforme o ensino dos Espíritos. Ela é o fim para o qual evolvem todas as almas, o meio em que todos os sonhos e projetos realizam-se, em que todas as aspirações satisfazem-se, o lugar onde as esperanças malogradas, as afeições desprezadas, os impulsos comprimidos pela vida material encontram-se em liberdade. Aí as simpatias, as ternuras e as atrações puras unem-se e fundem-se num amor imenso, que liga todos os Espíritos e os faz viverem em comunhão perpétua, no seio da grande harmonia.
Para atingir, porém, tais alturas, quase divinas, é preciso deixar sobre as vertentes que a elas conduzem os apetites, as paixões, os desejos; é necessário ser-se dilacerado pelos espinhos da matéria e purificado pela dor. É preciso adquirir a doçura, a resignação e a fé, aprender a sofrer sem murmurar, a chorar em silêncio, a desprezar os bens e as alegrias efêmeras do mundo e elevar suas aspirações aos bens que jamais findam. É indispensável deixar nas sepulturas terrestres muitos despojos deformados pelas privações, ter passado muitos trabalhos, suportado sem queixume humilhações e desprezos, sentir os golpes do mal, o peso do insulamento e da tristeza, ter esgotado, muitas vezes, o cálice profundo e amargo. Só o sofrimento, desenvolvendo as forças viris da alma, robustece-a para a luta e para a sua ascensão, amadurece e apura os sentimentos, abre as portas da bem-aventurança.
Espírito imortal, encarnado ou livre!... Se queres transpor com rapidez a escala árdua e magnífica dos mundos, alcançar as regiões etéreas, atira para longe tudo o que torna arrastados os teus passos e pode obstar-te o vôo. Deixa à Terra o que à Terra pertence e só aspira aos tesouros eternos; trabalha, ora a Deus, consola, auxilia, ama, oh! ama até ao sacrifício, cumpre o teu dever a qualquer preço, mesmo que percas a vida... Só assim semearás o germe da tua felicidade futura.