Bem humorado, acentuou:
— A carne, de certo modo, em muitas circunstâncias não é apenas um vaso divino para o crescimento de nossas potencialidades, mas também uma espécie de carvão milagroso, absorvendo-nos os tóxicos e resíduos de sombra que trazemos no corpo substancial. Reparei, então, com mais insistência, a figura suave de Blandina. Porque se dedicara ela, assim, a trabalhos tão complexos? Não seria mais justo ouvir aquela conversação dos lábios da simpática Mariana, que ali se achava, junto de nós, em sua posição de matrona respeitável? Externei os meus pensamentos, perguntando, com discrição, à jovem o porquê da grave tarefa de que se incumbia. Blandina apagou a luz do sorriso que lhe adornava o semblante, como flor aberta que se fechasse, de súbito. Pesado silêncio pairou no recinto. Mas, generosa e simples, adoçou a expressão fisionômica e falou, quase conselheiral:
— Fui casada em minha última existência e somente há três anos terrestres me vejo, de novo, na vida espiritual. Não pude acariciar um filhinho, em meus sonhos recentes de mulher, mas hoje sei que preciso reeducar-me no amor de mãe, consoante os débitos que contraí no passado. Realmente, sinto grande afeição pelas crianças, contudo, tenho igualmente enormes dívidas morais para com elas… O assunto descambava para um círculo particular, que devia ser sagrado aos nossos olhos. Por isso mesmo, Clarêncio fez mudo sinal para mim e a conversação foi canalizada para outro rumo.