A justiça humana não faz distinção de individualidades, quanto aos seres que castiga. Medindo o crime pelo próprio crime, fere indistintamente os infratores, e a mesma pena atinge o culpado sem distinção de sexo, qualquer que seja a sua educação. A Justiça divina, no entanto, procede de outro modo; suas punições correspondem ao grau de progresso dos seres aos quais elas são aplicadas. A igualdade de crimes não implica igualdade entre os indivíduos; dois homens culpados, sob o mesmo ponto de vista, podem estar separados pela falta de semelhança das provações, imergindo um deles na opacidade intelectiva dos primeiros círculos iniciadores, enquanto o outro dispõe, por haver ultrapassado esses círculos, da lucidez que isenta o Espírito da perturbação. Nesse caso, não são mais as trevas a puni-lo, mas a agudeza da luz espiritual que vara a inteligência terrena e lhe faz sentir as dores de uma chaga viva.
Os seres desencarnados que persistem na representação material dos seus crimes sofrem o choque da eletricidade física: padecem pelos sentidos. E aqueles que pelo Espírito já estejam desmaterializados sofrem uma dor muito superior que lhes aniquila, por assim dizer, em seus amargores, a lembrança dos fatos, subsistindo tão só a noção de suas respectivas causas. Assim, pode o homem, a despeito da sua criminalidade, possuir um progresso interno e elevar-se acima da espessa atmosfera das baixas camadas, embora tivesse, sob o jugo das paixões, procedido como um bruto. A ausência de ponderação e o desequilíbrio entre o progresso moral e o intelectual produzem essas anomalias tão frequentes em épocas de materialismo e transição.
Por conseguinte, a luz que tortura o Espírito culpado é precisamente o raio espiritual inundando de claridades os secretos recessos do seu orgulho e descobrindo-lhe a vacuidade do seu ser fragmentário. Aí estão os primeiros sintomas, as primeiras angústias da agonia espiritual, e que prenunciam a dissolução dos elementos intelectuais e materiais que compõem a primitiva dualidade humana, e que devem desaparecer na unidade grandiosa do ser acabado.
Jean Reynaud
Obtidas simultaneamente, estas três comunicações se complementam reciprocamente. Apresentam o castigo sob um novo prisma, eminentemente filosófico e racional. É provável que os Espíritos, querendo tratar do assunto de acordo com um exemplo, tivessem provocado, com esse objetivo, a manifestação do Espírito culpado.
A par deste quadro vivo, baseado sobre um fato, eis, para estabelecer um paralelo, o painel que um pregador de Montreuil-sur-Mer traçou sobre o inferno, por ocasião da quaresma de 1864:
“O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da Terra, e se acaso um dos corpos que lá se queimam, sem se consumirem, fosse lançado ao nosso planeta, empestá-lo-ia de um extremo a outro! O inferno é vasta e sombria caverna, eriçada de agudas pontas de lâminas de espadas aceradas, de lâminas de navalhas afiadíssimas, nas quais são precipitadas as almas dos condenados.” (Veja-se a Revista espírita do mês de julho de 1864.)