Visitante: — Evidentemente o Espiritismo tende a fazer reviver as crenças fundamentadas sobre o maravilhoso e o sobrenatural; ora, neste nosso século positivo,(21) isso me parece difícil, porque seria o mesmo que dar crédito às superstições e aos erros populares que a razão condenou.
A.K.: — Uma idéia é supersticiosa porque é falsa, mas, quando é reconhecida como verdadeira, deixa de ser supersticiosa. A questão, pois, é saber se há ou não manifestações de espíritos, ora, o senhor não pode qualificar esse fenômeno de superstição enquanto não houver provado que elas não existem. O senhor dirá que sua razão se recusa a aceitá-las, mas todos aqueles que acreditam nelas, e que não são nenhuns tolos, também invocam a sua razão, e ainda os fatos; qual das duas razões deve ser considerada?
Aqui, o grande juiz é o futuro, como o tem sido em todas as questões científicas e industriais, taxadas de absurdas e de impossíveis em sua origem. O senhor julga a priori, de acordo com a sua opinião, nós só julgamos após ter visto e observado durante muito tempo. Não nos esqueçamos de que o Espiritismo esclarecido, como o é atualmente, tende, ao contrário, a destruir as idéias supersticiosas, porque ele mostra o que há de verdadeiro ou de falso nas crenças populares, e tudo quanto de absurdo foi acrescido nelas pela ignorância e pelos preconceitos.
Eu vou mais longe, digo que é precisamente o positivismo do século que nos faz adotar o Espiritismo, e que é a ele que se deve em parte a sua rápida propagação, e não, como pretendem alguns, a uma recrudescência do amor ao maravilhoso e ao sobrenatural. O sobrenatural desaparece diante da luz da Ciência, da Filosofia e da Razão, como os deuses do Paganismo desapareceram diante da luz do Cristianismo.
O sobrenatural é o que está fora das leis da Natureza. O Positivismo não admite nada fora dessas leis, mas ele conhece todas elas? Em todos os tempos, os fenômenos cuja causa era desconhecida foram considerados sobrenaturais; cada nova lei descoberta pela Ciência tem recuado os limites do sobrenatural. Pois bem, o Espiritismo vem revelar uma lei segundo a qual a conversação com o espírito de um morto está baseada numa lei também tão natural quanto a conversação que a eletricidade per mite estabelecer entre duas pessoas que se encontram a quinhentas léguas(22) de distância uma da outra, o mesmo ocorrendo com todos os outros fenômenos espíritas.
O Espiritismo repudia, no que lhe diz respeito, todo efeito maravilhoso, isto é, fora das leis da Natureza. Ele não faz nem milagres nem prodígios, mas explica, em conseqüência de uma lei, certos efeitos considerados, até hoje, milagres e prodígios, demonstrando, por isso mesmo, a sua possibilidade. Ele amplia, assim, o domínio da Ciência, e é nisso que ele mesmo é uma ciência; mas, com a descoberta dessa nova lei, trazendo conseqüências morais, o código dessas conseqüências faz dele, ao mesmo tempo, uma doutrina filosófica.
Nesse último ponto de vista, o Espiritismo responde às aspirações do homem, no que se refere ao futuro, sobre bases positivas e racionais, é por isso que ele convém ao espírito positivista do século. É o que o senhor compreenderá quando tomar o cuidado de estudá-lo. (O Livro dos Médiuns, cap. II; Revista Espírita, dezembro de 1861, p. 393, e janeiro de 1862, p. 21. Ver também, mais adiante, o capítulo II).